segunda-feira, 28 de março de 2016

Batman v Superman: A Origem da Justiça

Yo! How's it going?

Mesmo imerso em diversas outras atividades e projetos pessoais nos últimos tempos, simplesmente não resisti à tentação de escrever aqui no blog sobre Batman v Superman, o blockbuster do momento que tem levantado reações extremas do público e crítica Brasil afora. Let's face the music.

Plano de fundo: Dois anos após os eventos de Homem de Aço, o mundo inteiro ainda tenta decidir se Superman é alguém confiável ou não. Para o bilionário Bruce Wayne, no entanto, a resposta é muito simples. 

Convencido de que Superman é uma profunda ameaça à humanidade inteira, Bruce veste novamente o manto de Cavaleiro das Trevas em busca de uma maneira de deter a trilha de devastações deixada pelo kryptoniano. O que ele não sabe, contudo, é que há interesses muito maiores ditando cada um dos movimentos dos dois heróis, e a verdade é muito mais complexa do que qualquer um deles julga entender.  

Papum: Contando novamente com a direção de Zack Snyder (300, Homem de Aço), a Warner Bros. aposta suas fichas em um filme megalômano que tenta funcionar como uma sequência de Homem de Aço (2013), uma introdução ao Batman de Ben Affleck e também um prelúdio para o aguardado longa da Liga da Justiça (2017). E o problema talvez esteja justamente aí.

Diante de tantos objetivos e necessidades diferentes em um único projeto, Snyder faz um movimento arriscado em sua narrativa - ao tentar um distanciamento completo da fórmula repetitiva do Universo Marvel nos cinemas, o diretor dedica toda sua atenção ao tom e estética visual do grandioso projeto, parecendo completamente alheio ao roteiro desconexo de Chris Terrio e David S. Goyer - que sequer cogitam pensar que um pouco menos pudesse significar muito mais.

Estabalecendo competentemente a existência de Bruce Wayne e Batman dentro do universo apresentado em Homem de Aço, Snyder traz uma abordagem nova ao Morcegão que vai de encontro ao que os fãs sempre pediram. Dotado de uma complexidade física invejável, um uniforme incrível e artimanhas de combate tão brutais quanto impressionantes, Ben Affleck definitivamente convence na pele do herói sempre que está em ação. O problema jaz nos bastidores, quando suas habilidades investigativas falham miseravelmente em acompanhar o rumo da trama, colocando o Maior Detetive do Mundo em uma posição antagônica bastante irracional e por vezes figurante - será que o Cavaleiro das Trevas não saberia tudo sobre Clark Kent, tendo estudado Superman com tanto afinco? Por que é que o herói cairia em um plano tão anunciado quanto o de Lex Luthor, quando o mesmo já era alvo completo de sua desconfiança? Qual seria a real importância de Batman durante o confronto derradeiro do longa? Embora primárias, tais perguntas passam longe da lógica de estruturação da trama, preguiçosamente apoiada em nosso amor pelas várias facetas do personagem - sejam elas vindas dos quadrinhos de Frank Miller ou de jogos como a série Arkham ou Injustice, fontes de inspiração contínuas no longa que, verdade seja dita, funcionam muito bem.

Unidimensional desde sua película de estreia, o Superman de Henry Cavill não ganha novos dilemas em Batman v Superman. Sua função em Metrópolis ainda é controversa, e seu semblante continua quase sempre aborrecido. Ao invés de finalmente enxergarmos o personagem como ícone, somos continuamente lembrados de seus fracassos, ao ponto de sequer criarmos um laço humano mais forte com o personagem durante os momentos que não involvam sua mãe - ponto esse já explorado em Homem de Aço e oferecido como uma resolução emocional no mínimo questionável para um confronto que poderia ter sido evitado desde o começo com um bom diálogo. Se em Os Vingadores o quebra-pau dos desentendidos apenas iniciava o filme, aqui ele é explorado de modo central e exaustivo por quase duas horas de projeção, tempo no qual somos expostos muito mais aos defeitos e teimosias dos personagens do que às virtudes pelas quais deveríamos torcer. 

Outra novata no Universo DC, Gal Gadot faz uma boa aparição como Diana Prince, ainda que Goyer, Terrio e Snyder acorrentem sua presença a momentos de pouco planejamento: entre tentativas frustradas de criptografia, clipes explicativos de Youtube e um embarque cancelado por um noticiário de bordo, sua presença é parcialmente comprometida por um arco desestruturado e erroneamente cronometrado por Lex Luthor. Tais meios podem passar despercebidos por boa parte do público diante dos fins que trazem a majestosa heroína em ação, mas certamente aborrecem aqueles que se preocupam com um desenvolvimento coeso de sua trama.

Com tantos problemas de identidade assim, é natural identificarmos no Lex Luthor de Jesse Eisenberg outro ponto questionável do projeto. Embora competente em sua atuação, Eisenberg coloca o personagem muito mais próximo de um vilão do Homem Morcego do que da mente maquiavélica e calculista de sua contraparte em quadrinhos, mesmo que algumas de suas referências mitológicas consigam ludibriar parte do público. Analisadas com cautela, contudo, tais citações provam ser apenas um pouco de pancake para o velho ato do cientista enlouquecido pronto para criar sua arma acéfala de destruição em massa, completamente revelada pela infeliz campanha publicitária que reservou pouquíssimas surpresas aos espectadores que assistiram aos trailers nos últimos meses.

Em meio a tanto tumulto, temos ainda pesadelos nefastos, visões apocalípticas, mensagens intertemporais (ou interdimensionais?) e diversas menções nebulosas ao Universo DC que mais confundem do que preparam o espectador para o que vem por aí. Especular é legal, mas diante de tantos tiros no escuro, fica a impressão de que a equipe criativa da Warner, ainda incerta sobre o futuro do universo criado, traçou tantos alvos quanto pôde, torcendo para que um deles seja justamente o ponto que colocará nos eixos um dos universos fictícios mais fascinantes já criados, mas que precisa ser lapidado urgentemente.

Agora 'nuff said. Se você discorda de tudo que escrevi, como sei que discorda, deixe seus comentários e não leve  nenhuma das opiniões colocadas aqui para o lado pessoal. Debates devem servir como forma de entendimento, e não de brigas!

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In a nutshell:

- Batman v Superman: A Origem da Justiça -
Thumbs Up: ótimos conceitos visuais de impacto; presença marcante de Ben Affleck como o Cavaleiro das Trevas; Easter Eggs a rodo para os verdadeiros fãs do Universo DC dos quadrinhos; 
Thumbs Down: trama enrolada com motivações muitas vezes frágeis; resoluções sentimentais questionáveis; diálogos de efeito sem ritmo narrativo coeso; multiplicidade de objetivos; necessidade extrema de apresentação de conceitos futuros do Universo DC;  

    

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Novo livro - Alec Dini e o Vórtice do Tempo

Yo! How's it going?

Primeiramente, tenho um enorme pedido desculpas para registrar aqui. Há alguns anos, iniciei este blog com o intuito de levar até o público resenhas de filmes, livros e quadrinhos ainda pouco conhecidos pelo público brasileiro. O resultado foi extremamente positivo, e a experiência realmente agregadora. Mas então foi chegada a hora.

Resenhas e críticas são tarefas que envolvem tempo, pesquisa e talvez um pouco mais de tempo. Envolvido com a página Streampunk, percebi que me dedicava cada vez menos em criar algo que fosse de minha propriedade, deixando de lado a carreira literária com a qual tanto sonhava (e ainda sonho). Diante desse cenário, fui obrigado a fazer uma escolha: continuar a produzir material para o blog ou me afastar da página para avançar em minhas pesquisas e escrita. Como podem perceber, optei pela segunda opção.

Alguns anos se passaram e finalmente tenho algum tipo de novidade em relação ao assunto. Unindo os diferentes tipos de mitologia celta presentes no Reino Unido e na Irlanda, concluí recentemente a fantasia infantojuvenil Alec Dini e o Vórtice do Tempo, uma história de amizade e coragem repleta de aventuras, perigos e descobertas. O que resta agora, no entanto, é encontrar uma editora que se interesse no projeto.

Tentando encontrar modos de chamar a atenção de alguma editora ou agente literário que se interesse no projeto, desenvolvi uma página no Facebook denominada 'Além da Ilha Branca', onde pretendo revelar aos poucos algumas informações sobre o processo criativo por trás de Alec Dini e o Vórtice do Tempo. Espero que a página me auxilie na difícil tarefa que se inicia agora, e conto com a ajuda de todos para fazer com que a saga de Alec Dini se torne realidade.

Agora 'nuff said. Acessem www.facebook.com/alemdailhabranca e descubram mais sobre Alec Dini e o Vórtice do Tempo. Curtam, compartilhem e façam barulho para que o manuscrito enfim veja a luz do dia!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

The Ill-Made Knight

Autor: T.H. White
Ano de publicação: 1940

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Yo! How's it going?

Depois de um certo tempo de ausência de postagens literárias aqui em Streampunk, retorno hoje com o terceiro livro da série "The Once and Future King", intitulado "The Ill-Made Knight". Quem não conhece o fabuloso trabalho de T.H. White nessa grande reinvenção das crônicas do Rei Arthur pode acessar meus textos sobre os dois primeiros livros da coleção, "The Sword in the Stone" e "The Witch in the Wood", para se inteirar mais sobre esse que é considerado um dos maiores trabalhos do gênero da fantasia já escritos.

Plano de fundo: Com a política do Rei Arthur de que força e justiça devem caminhar lado a lado e a existência da Távola Redonda estabelecida, o reino de Camelot prospera, assim como o restante da ilha britânica. Cruzando o mar, no entanto, o jovem Lancelot Dulac espera ansiosamente o dia em que poderá servir o grande rei, posição pelo qual treinara por toda a sua vida.

Uma vez em Camelot, o que contempla o jovem rapaz não é só amor por seu justo e incrível rei, mas sim pela rainha Guenever. O triângulo amoroso, contudo, está fadado a ter consequências que um dia hão de ironicamente clamar resultados terríveis das pessoas que Lancelot mais ama.

Papum: Com brilhantismo ímpar, mais uma vez T.H. White impressiona em sua reinvenção da mitologia arthuriana ao tratar dois dos mais importantes assuntos em todo o seu escopo: a traição de Lancelot e Guinever (aqui escrita Guenever) e a busca sagrada de Arthur e seus cavaleiros pelo Santo Graal. O resultado é mais uma vez tão profundo quanto divertido, construindo em seu desenrolar a teia de eventos que inevitavelmente leva Arthur à sua perdição.

Abrindo o livro com descrições da vida de Galahad Dulac (Lancelot) no castelo de Benwick, T.H. White nos apresenta a personagem como sendo um garoto feio e complexo, diferentemente da maioria das visões de Lancelot por grande parte de outros autores. Devoto à Deus e aos ideais de Arthur acima de tudo, Lancelot vive uma juventude de privações que tem como intuito transformá-lo no maior cavaleiro da Távola Redonda, mas que acaba por alimentar demônios internos que o garoto tenta suprimir a todo custo. Sua feiura e mente problemática o levam a se autointitular Le Chevalier Mal Fet (ou Cavaleiro Imperfeito), uma figura que merece ser vista com pena pelos outros até que consiga alcançar suas ambições. É com a visita de Merlyn à Benwick, então, que Lancelot é convidado à Camelot e prontamente nomeado Sir Lancelot, iniciando aí sua trajetória de glórias e desgraças intrinsecamente ligadas com a ascensão e queda de Camelot.

Em primeira estância, White constrói a relação entre Lancelot e Guenever baseada em ódio: Lancelot ama Arthur e rejeita sua jovem rainha, até pelo menos conhecê-la de verdade e se apaixonar perdidamente. Suprimindo seu sentimento, o cavaleiro parte em missões do reino que o levam até Elaine, criando aí o primeiro de uma série de obstáculos em seu caminho que contribuem para sua destruição mental até o ponto de ruptura. Não só Lancelot passa a noite com Elaine (traindo assim seu voto de celibato), como ao voltar à Camelot acaba por se relacionar com Guenever, sua maior paixão. Fraqueza e medo, porém, impedem o jovem de fugir com a rainha, tornando sua estada na corte fonte de muitas fofocas e especulações. White não se utiliza mais de anacronismo aqui, mas continua a fazer fortes referências ao trabalho de Sir Thomas Malory e dá uma camada de complexidade inteiramente nova a Lancelot e Guenever fazendo do cavaleiro uma figura contraditória imersa em conflitos pessoais e da rainha uma mulher impetuosa no ápice de sua juventude, causada aqui pelo que White descreve como falta do sétimo sentido: o entendimento do mundo, algo que adquirimos somente com o tempo. Entre as idas e vindas de Lancelot e acessos de fúria da rainha, a teia de eventos que levam o filho de Lancelot e Elaine à Camelot e os conflitos que o reino encontra fazem com que Arthur se dê conta que não é mais uma busca física que é necessária por sua corte, mas sim espiritual. Tendo tornado seu reino justo, justiça pessoal começa a imperar com a falta de entendimento do etéreo, fazendo o rei convocar seus cavaleiros para a busca do cálice guardado por José de Arimateia com o sangue de Jesus Cristo, o Santo Graal.

Narrando os eventos da missão sob certo distanciamento, White utiliza-se de Sir Lionel, Sir Gawain e Sir Lancelot para descrever como Galahad (filho de Lancelot), Percival e Bors são os únicos a alcançar o Santo Graal, levando Lancelot a crer que seu fracasso é uma punição divina por seus crimes, uma visão de fato interessante. Entre novas promessas de celibato, White relaciona a força de Lancelot com um interessante paradoxo: enquanto pecador, ninguém pode derrotá-lo. Reformado, o cavaleiro é desmontado inúmeras vezes, mesmo que sua devoção por Deus ainda o leve a rejeitar a rainha constantemente agora, depois de tantos anos de caso amoroso. Tais conflitos caminham por cenários comuns das lendas arthurianas (como a maçã envenenada e o sequestro de Guenever) e acabam por eventualmente consolidar a relação de Lancelot e Guenever em definitivo, abrindo o caminho que White deseja para começar a abordar a queda de Arthur em seu quarto livro, "The Candle in the Wind". Tudo isso é anunciado inclusive com a chegada do filho bastardo de Arthur, Mordred, abrindo planos promissores para o desenrolar da saga, que faço questão de abordar aqui posteriormente. Por esses motivos, "The Ill-Made Knight" mantém a coleção em um nível altismo de valor histórico e simbólico, fazendo dela uma peça muito importante a qualquer fã de fantasia que gosta de conteúdo.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Ill-Made Knight -
Thumbs Up: construção de Lancelot e Guenever complexa e perfeita; motivação da busca pelo Santo Graal reinventada de modo sólido; descrição efetiva do senso de cavaleria da corte; olhar singular dos mais marcantes acontecimentos de Camelot; referências à Sir Thomas Malory intercaladas com criatividade e olhar pessoal do próprio autor;
Thumbs Down: -----

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

The Unwritten Vol. 6 - Tommy Taylor and the War of Words

Autor: Mike Carey
Artistas: Peter Gross, Michael Kaluta, Rick Geary, Bryan Talbot, Gary Erskine, Gabriel Walta

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Yo! How's it going?

Deixando o blog completamente atualizado em relação à minha série de quadrinhos favorita na atualidade, hoje trago a vocês a postagem sobre o sexto e relativamente recém-lançado arco de "The Unwritten", igualando Streampunk ao ritmo de publicações da coleção nos EUA. Aqueles que ainda não conhecem as aventuras de Tom Taylor podem acessar a postagem que fiz sobre o primeiro volume do título, "Tommy Taylor and the Bogus Identity", para poder saber mais sobre a coleção que em breve chega ao Brasil pela editora Panini com o nome de "O Inescrito".

Plano de fundo: Convencido de seus poderes mágicos e ciente de como eles funcionam, Tom Taylor está cansado de fugir da Cabala e agora resolve enfrentá-la tête-à-tête. Para isso, Tom, Richie e Lizzie deverão localizar o quartel de operações da organização e invadi-lo em um ataque surpresa, apoiando-se na crença do povo em Tommy Taylor para que Tom possa usar seus feitiços. Em seu caminho, porém, está Pullman, revelado um dos seres mais antigos do mundo e peça essencial no plano que envolve a entidade conhecida como Leviatã. O conflito dos dois, no entanto, está longe de ter um final feliz.

Papum: Alternando o foco do sexto arco de sua coleção entre a vingança de Tom e entradas aleatórias do diário de Wilson Taylor, Mike Carey finalmente oferece resoluções e respostas objetivas (ainda que às vezes abstratas) em "Tommy Taylor and the War of Words", alterando drasticamente o andar da carruagem e esboçando uma redefinição do papel de suas personagens na sequência por vir. Sim, meus caros, isso quer dizer que o arco em questão é o mais longo e mais impactante da série até agora, ainda que não seja tão rico em conteúdo como "Dead Man's Knock" e "Leviathan", por exemplo.

Seguindo de onde havia parado em "On to Genesis", Tom Taylor inicia uma busca implacável pela Cabala e usa todo o seu poder para descobrir formas de derrotá-la. Além de seus habituais amigos, o monstro de Frankenstein também está ao seu lado, ajuda mais do que essencial em seus audaciosos planos. Sendo assim, o que vemos é pela primeira vez um uso irrestrito e direto dos poderes da personagem, manifestados através da inteligente escolha de Carey em ampliar a crença das personagens do universo da história na figura do bruxinho Tommy Taylor, assim concedendo a Tom muito mais poder. Cansado das tragédias que o rodeiam, Tom é direto em seu ataque, mudando o ritmo do enredo de Carey para uma verdadeira montanha-russa repleta de ação. No meio de tanta agitação, contudo, trechos do diário de Wilson (apresentado em "On to Genesis") dão ao leitor uma visão mais ampla do universo montado e até mesmo revelam a origem de Leviatã e do homem conhecido como Pullman. Para tal, desenhistas diferentes foram convocados para cada passagem, e apesar dos diferentes estilos presentes, cada subtrama é enriquecida por tal escolha, estratégia conhecida em grandes coleções como "The Sandman". O que parece um pouco fora de sintonia pela primeira vez, no entanto, é a arte de Peter Gross aqui.

Habituados com um esquema de sombreamento simples e poucos contornos faciais, estranhamos bastante a repentina mudança de Gross em traçar olhos maiores e linhas mais grossas nas expressões de seus personagens. Seus cenários continuam efetivos, vejam bem, mas não há como negar uma grande mudança em seu estilo em "Tommy Taylor and the War of Words", fato que talvez possa ser explicado com o nível impressionante da arte de alguns dos desenhistas convidados para as subtramas do arco. O que ocorre, porém, é que a arte se distancia um bocado do trabalho previamente estabelecido, e ainda que seja muito boa em dadas sequências, parece um tanto alienígena em uma coleção tão uniforme e acaba por causar um leve ar de estranheza, ainda mais quando somada à explicações repetitivas sobre Leviatã montadas por Carey para realmente ter certeza que o leitor esteja entendendo sua mensagem. Sendo assim, o resultado final do sexto arco de "The Unwritten" é muito bom, mas deve um pouco ao extraordinário nível previamente estabelecido pela série, que agora começa a tomar rumos novos e parece iniciar sua segunda fase de conflitos.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 6 - Tommy Taylor and the War of Words -
Thumbs Up: revelações potentes e interessantes; objetividade de suas personagens; ação frenética intercalada com subtramas bem estruturadas; presença de desenhistas competentes que engrandecem a coleção;
Thumbs Down: repetição de explicações previamente feitas; nova escolha de traços de Peter Gross parece estranha por vezes;    

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Y - O Último Homem

Autor: Brian K. Vaughan
Artisita: Pia Guerra

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Yo! How's it going?

Semana passada marcou o término da publicação da premiada série em quadrinhos "Y - O Último Homem" aqui no Brasil. Como iniciei o blog Streampunk a apenas duas edições do término da mesma, esperei sua conclusão para abordá-la como um todo, e não arco a arco. Sendo assim, hoje falo um pouco mais do incrível trabalho de Vaughan e Guerra que conquistou o mercado durante seus 5 anos de publicação, assim como parabenizo a Panini por levar a coleção a sério e tê-la publicado em sua íntegra, fato incomum entre nossas editoras.

Plano de fundo: Quando uma tragédia misteriosa causa o genocídio mundial de todos os seres machos do planeta, os únicos sobreviventes são o jovem Yorick Brown e seu macaco capucino Ampersand. Vivendo em uma sociedade agora completamente alterada, Yorick busca respostas para a extinção repentina do cromossomo Y no planeta, jornada que o fará conhecer membras de órgãos governamentais secretos, cientistas visionárias e até mesmo rebeldes fanáticas que o colocarão em risco a todo instante em sua jornada até sua namorada Betty, vista pela última vez no outback australiano. Afinal, todas querem o último homem, tanto vivo quanto morto.

Papum: É com muita satisfação que abordo "Y - O Último Homem" depois de ver sua conclusão publicada no Brasil sob um trabalho tão bem feito como o realizado pela Panini. Todos os dez arcos da coleção receberam ótimo tratamento editorial e boas traduções para se lançarem ao mercado, fazendo da série um marco de publicação de quadrinhos aqui em nossas terras que não víamos desde o concluído "The Sandman". Isso certamente nos anima a comprar novos títulos, é claro, uma vez que o medo de possuir séries incompletas ainda deixa qualquer leitor com a pulga atrás da orelha.

Partindo de uma premissa que pode não ser tão original (pelo menos no âmbito literário), mas nem por isso deixa de ser intrigante, Vaughan constrói "Y" a partir de seu foco em Yorick Brown de modo eficaz: protagonista, Yorick é cheio de referências pop durante todos os arcos, além altamente divertido. Suas relações com suas parceiras de viagem Agente 355 e Dr. Mann também são igualmente bem montadas, e Vaughan é esperto o suficiente para criar várias teorias de como os homens foram extintos até finalmente se concentrar na verdadeira lá pela metade da série, trabalhando com cliffhangers que deixam o leitor ávido pelo próximo volume. Ainda nessa nota, é impressionante como plot twists parecem fáceis na mão do autor, alterando o jogo frequentemente com o intuito de adicionar uma boa e benvinda pitada de imprevisibilidade em seu trabalho. Subtramas também têm importância durante a coleção, que consegue sim encerrar todas as suas pontas ao seu final, mostrando um planejamento e competência ímpar de Vaughan ao montar sua teia de histórias. Somadas a isso ainda há discussões entre ciência e religião que elevam o nível da obra em diversas análises sobre a morte dos homens, assim como incríveis olhares de diferentes perspectivas sobre sociedades completamente matriarcais que ora distinguem-se totalmente de suas antecessoras e ora reproduzem o mesmo tipo de vida conduzido no passado governado por homens, abrindo as portas de "Y" para realmente qualquer público.

O tempo inteiro ao lado do escritor está a desenhista Pia Guerra, escolha ideal para ilustrar a franquia. Esboçando um número absurdo de personagens femininas, o traço limpo e fortes expressões faciais de Guerra consegue distinguir cada membro de seu elenco facilmente, e embora seus quadros não possuam muito dinamismo em sequências de ação, os planos de diálogos e conflitos internos são realmente ótimos. Igualmente interessante é ver como as personagens são alteradas durante os quatro anos que se passam do começo ao final da série dentro de seu universo, fazendo com que seus designs mudem frequentemente: cortes de cabelo, barba, postura e até mesmo olhar. A preocupação com tais pormenores é verossímil e impressiona, tornando a obra ainda mais especial do que ela é. Por esses e outros motivos, então, "Y - O Último Homem" é recomendado tanto a fãs de quadrinhos quanto àqueles que simplesmente gostam de ler uma boa história, lembrando ainda que com o sucesso da adaptação de "The Walking Dead" às telas, "Y" certamente está nos planos de qualquer chefe de estúdio para uma versão live-action, seja na televisão ou nos cinemas.

Agora 'nuff said. Quem tiver interesse em adquirir a série pode acessar o site da livraria Comix e iniciar sua busca. A coleção vale a pena, então não percam tempo e divirtam-se com a divertida (ou distorcida) visão de um mundo governado inteiramente por mulheres que parece mais real do que pensamos.

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In a nutshell:

- Y - O Último Homem -
Thumbs Up: roteiro redondo de Vaughan até o final da série; referências pop divertem; personagens carismáticas e bem construídas; arte mais do que apropriada de Pia Guerra; divertido insight da maneira como mulheres conduziriam o mundo inteiro, reproduzindo até mesmo guerras da extinta sociedade patriarcal; plot twists que renovam a série constantemente; clímax impactante e preciso;
Thumbs Down: -----

terça-feira, 27 de novembro de 2012

The Unwritten Vol. 5 - On To Genesis

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

Terminando minha sequência de releituras da série "The Unwritten" para deixar esta página cada vez mais atual, hoje falo sobre o quinto volume encadernado da coleção, "On To Genesis". Daqui em diante minha frequência de postagens sobre as aventuras de Tom Taylor deve cair um tanto, já que agora o blog também acompanha o ritmo norte-americano de publicações, mas foi legal compartilhar em algumas semanas um pouco sobre a série que me conquistou há dois anos. Aos interessados, a melhor escolha para conhecê-la aqui é ler a postagem que fiz sobre seu primeiro arco, "Tommy Taylor and the Bogus Identity". De qualquer modo, aproveitando o título da história aqui abordada, on to business!

Plano de fundo: De volta ao mundo real com uma melhor compreensão de seus poderes, Tom Taylor, novamente acompanhado de seus escudeiros Richie Savoy e Lizzie Hexam, é surpreendido por um leilão de artigos pertencentes ao seu falecido pai. Entre eles está o diário de Wilson Taylor, uma série de textos que ajudarão Tom a entender os motivos por trás de sua criação e o passado sombrio e misterioso de Wilson. Adquirir o objeto será uma tarefa perigosa, contudo, e a Cabala dos Inescritos logo se vê obrigada a colocar em prática seu mais hediondo plano até agora se quiser tirar Tom de seu refúgio: o assassinato de toda e qualquer pessoa com quem o rapaz já tivera contato.

Papum: Começando por seu título duplamente interpretativo, "On To Genesis" tem como objetivo tanto revelar o passado do autor Wilson Taylor para que Tom descubra quais foram os propósitos de seu pai durante sua incomum criação quanto definir a nota e caminho que Tom deve traçar para derrotar seus inimigos. Nessa linha, é a ontogênese (ontogenesis, em inglês) da personagem que é ilustrada, como uma das análises do título bem sugere: um olhar sobre como Tom foi desenvolvido por Wilson desde o início para se tornar o que está prestes a ser. Sob a mesma ótica e com o interessante jogo de alteração entre memórias e realidade realizado por Carey, também vemos a ontogênese da primeira criação de Wilson em um cenário mais antigo, na década de 30, quando o escritor se relaciona com a autora de quadrinhos Miriam Walzer. Merece destaque aqui notarmos como a Cabala passa a se interessar pelo poder dos quadrinhos enquanto histórias potencialmente abrangedoras, referência clara do surgimento da era de ouro da mídia em questão e motivo pelo qual Wilson, naquela época membro do misterioso culto, é enviado até Miriam Walzer com o propósito de eliminá-la. A metalinguagem é óbvia e muito bem elaborada por Carey, contando mais uma vez com a mão precisa de Peter Gross para realizar suas transições temporais e quadros altamente pessoais.

Ainda sobre o título que o arco carrega, a frase "On To Genesis", se escrita separadamente como de fato está, simboliza a transição e sequência na jornada de Tom Taylor até a completa gênese de seus até então latentes poderes, agora completamente desenvolvidos para que o rapaz busque vingança diante dos horrendos crimes cometidos pela organização que o persegue. Sendo assim, "On To Genesis" abre caminho para um mar de conflitos intensos  que deve se iniciar no sexto arco da série, "Tommy Taylor and the War of the Words", que abordarei em breve e com exclusividade aqui no blog.

Diferentemente de seus predecessores, porém, "On to Genesis" não conta com nenhuma história curta em seu término. A ausência de tal é bem sentida pelo leitor, acostumado com a troca de cenário e espantado pelo curto tamanho do quinto arco da série, mas nem por isso chega a ser algo taxativamente negativo. Afinal de contas, com a jornada de Tom pelos diários de Wilson e o novo aparecimento do monstro de Frankenstein em seu meio, o arco contém sim muito recheio e subtramas dignas de manter a coleção "The Unwritten" no topo do mercado editorial de quadrinhos atual. Se você é amante de histórias, não há como ignorar o que "The Unwritten" tem a oferecer à sua curiosa e insaciável vontade de ser transportado. 

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 5 - On To Genesis -
Thumbs Up: passado de Wilson Taylor revelado; ótimo olhar sobre a criação do mito Tom Taylor; ótima conversação de meios com a apresentação da personagem Tinker, reflexo do crescimento e relevância do mundo dos quadrinhos para a Cabala; drama e aventura na medida certa; desfecho intrigante que promete a verdadeira transformação de Tom em herói;
Thumbs Down: -----

domingo, 25 de novembro de 2012

The Sandman Vol. 9 - The Kindly Ones

Autor: Neil Gaiman
Artistas: Kevin Nowlan, Marc Hempel, Glyn Dillon, Charles Vess, Dean Ormston, D'Israeli, Teddy Kristiansen

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Yo! How's it going?

Depois de um certo tempo sem falar de "The Sandman" aqui em Streampunk, volto à série em minha postagem de hoje para discorrer sobre o nono e penúltimo encadernado da coleção, intitulado "The Kindly Ones". Quem tem interesse em saber um pouco mais sobre o brilhante trabalho de Gaiman que certamente mudou o mundo dos quadrinhos desde sua publicação pode acessar meu primeiro texto sobre a coleção abordando o quinto arco do título, "A Game of You".

Plano de fundo: As Fúrias estão reunidas, e seu plano começa a tomar corpo; afinal, sem seu bebê Daniel, Lyta Hall já não tem mais motivos para viver, ficando à deriva entre realidades até ser recrutada pelas três calculistas entidades em seu plano de derrubar o rei do mundo dos sonhos, Morfeus (ou Morpheus, no original). Paralelamente, uma série de eventos caóticos envolvendo anjos renegados, deuses nórdicos e os outros Perpétuos (Endless) também chega a atenção de Sonho, que agora se prepara para terríveis e inevitáveis acontecimentos que estão além de suas mãos, mas dentro de suas responsabilidades.

Papum: Sabendo previamente que "The Kindly Ones" é o penúltimo arco da coleção inteira de "The Sandman", qualquer análise ou abordagem da obra ganha uma perspectiva diferente e interessantes pontos de vista para o seu vasto e complexo conteúdo. Afinal, o que não falta no encadernado são justamente eventos importantes, mesclando diversos personagens que já haviam dado as caras durante a série e colocando-os em caminhos que se interligam, culminando assim em um resultado tão arrebatador quanto inevitável para o notório Morpheus.


Resgatando logo em seu início as já famosas personagens Lyta Hall e seu filho Daniel, "The Kindly Ones" expande o zelo da mulher por seu bebê e logo de cara cumpre a promessa feita por Neil Gaiman em volumes anteriores: o destino do garoto sempre estivera marcado, fato pelo qual Lyta inexoravelmente repudia o deus dos sonhos. Aqui, então, finalmente vemos o tear de acontecimentos se desenrolar, conduzido magistralmente por Gaiman em viagens de delírio e subjetividade de Lyta desde o momento em que Daniel desaparece até depois de seu recrutamento perante as Fúrias. Alegoria e intensos diálogos abstratos permeiam a trama central, pontuada em diversos momentos por subtramas igualmente interessantes: Lucifer, Remiel, Loki e Odin fazem aparições muito agregadoras em paralelo, ajudando-nos a compreender o escopo do que está prestes a acontecer e os impactos que o fato há de provocar. Nesse meio tempo, o mundo dos sonhos ganha um olhar peculiar através de seus habitantes em pânico e de um agora depressivo Morpheus, que não se recuperou ainda da morte de seu filho Orfeu.


Para narrar todo o dinamismo e convir o senso de loucura que "The Kindly Ones" tenta transmitir, a escolha de Marc Hempel como desenhista central do arco é certamente interessante. Dono de um traço de fortes contornos e poucos pormenores, focos faciais ganham muita importância, assim como um contraste de cores simples que torna qualquer sombreamento direto e forte. Aliás, todos os planos traçados contam com bastante vivacidade, e embora entenda que o traço de Hempel pode não ser bonito em termos proporcionais na maioria de seus quadros, sua escolha casa com a frenética montanha-russa apresentada por Gaiman de modo sutil e eficaz. Igualmente eficientes, então, são as citações e referências que o autor inglês usa a partir de mitologia grega, poesias e prosas Edda e até mesmo trabalhos shakespearianos para dar corpo ao seu enredo, culminando na "tragédia" que reestrutura a personagem central de "The Sandman" de uma vez por todas - transformação essa já há muito anunciada com a frequente humanização do deus arco após arco, aqui consumada de vez. Por mais que tentara o contrário, desde seu emprisionamento e maior contato com humanos, Morpheus constantemente adquiriu traços e preocupações terrenas que o distanciavam cada vez mais de seus irmãos Endless e o posicionavam em um plano de constante transição entre questionamentos etéreo e reais, uma era tão próxima quanto inevitável. Tal realização é justamente o ponto mais alto de "The Kindly Ones", que termina abrindo o caminho para o que acredito que sejam as primeiras viagens de Morpheus sob sua nova representação, redefinindo seu papel no panteão de deuses e consumando sua imortalização e relevância cultural tanto quanto ícone divino em seu universo enquanto importante figura simbólica para nós.

Ainda em uma nota artística, merecem destaques os artifícios narrativos usados por Gaiman tanto para começar quanto para encerrar sua história: são as Fúrias que a iniciam e a terminam com referências claras de como inícios são muito mais complicados que términos - referência ao que irá acontecer e o que de fato aconteceu ao final do volume. Também é interessante notar como a página-título da maioria dos capítulos contidos em "The Kindly Ones" é representada por construções, constantemente alterando o foco narrativo e entrando no "reino" de cada personagem como se estivéssemos espiando por atrás do portão as reviravoltas que estão prestes a ocorrer. Por esses e outros motivos (muito maiores do que tenho a pretensão de analisar), "The Kindly Ones" é tanto o maior quanto mais impactante arco de "The Sandman" desde seu lançamento, ainda que eu particularmente prefira uma mescla mais sonora de história real com os predicamentos de Morpheus do que os rumos altamente metafóricos que Gaiman assume aqui. Mas isso é uma questão de gosto, e a competência de Gaiman jamais esteve em questionamento.

Agora 'nuff said. Sigam o blog e até a próxima!


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In a nutshell:

- The Sandman Vol. 9 - The Kindly Ones -
Thumbs Up: redefinição do mito antes de sua canção de cisne; subtramas relevantes e imensamente ricas; dinamismo narrativo e personagens tão interessantes quanto complexas; referências mitológicas encorpadas e bem aproveitadas; clímax muito bem estruturado;
Thumbs Down: grande uso de metáforas e subjetividade que limita o público do arco; arte de Marc Hempel não deve agradar a todos, mesmo que cumpra seu papel pontualmente;