quinta-feira, 30 de agosto de 2012

The Books of Magic: Girl in the Box

Autor: John Ney Rieber
Artista: Peter Gross

***

Yo! How's it going?

Entre uma postagem mais importante e outra, sempre surge uma Graphic Novel que merece ser abordada aqui no blog. Hoje, continuo meu trabalho com a série "The Books of Magic" ao tratar do arco "Girl in the Box".

Plano de fundo: Timothy Hunter, o garoto que está destinado a ser o maior feiticeiro de seu tempo, está cansado das pragas fantásticas e criaturas mágicas que o perseguem. Buscando um pouco de normalidade em sua rotina tão incessantemente absurda, o garoto deixa sua casa para trás e viaja a São Francisco, onde acaba se encontrando acidentalmente com Leah, um súcubo anteriormente libertado  por ele.

Junto com Leah, Tim parte então em busca de Zatanna, a figura que deve orientá-lo em sua jornada mágica dali em diante. O que ele não suspeita, porém, é que por o pé na estrada o levará novamente ao mundo da magia, onde desta vez é com seus próprios medos e receios que ele deverá conflitar.

Papum: O que mais marca o arco "Girl in the Box" é sua inconstância narrativa. Iniciado de forma preguiçosa, o enredo primeiramente não apresenta uma base motivacional sólida o suficiente para tirar Tim de seu cenário e levá-lo a São Francisco, e em um golpe bem infeliz, John Ney Rieber acaba por sabotar uma das poucas coisas boas que haviam saído do arco "Transformations": sim, as tatuagens de Tim já não tem mais valor algum.

Pois bem, dentre escolhas um tanto quanto questionáveis e a arte agora um pouco mais inconstante de Peter Gross, "Girl in the Box" também acaba por não ter um objetivo muito definido até seu término, flertando entre momentos visuais e descritivos que não convencem o leitor de seu verdadeiro propósito. Há fantasia, vejam bem, mas não há aprofundamento em nenhuma personagem do arco que não seja Tim ou a própria Leah, conflito que acaba sendo o grande ponto do volume ao, pela primeira vez na série, abordar de forma mais direta a sexualidade dos jovens e o medo de Tim em se tornar um homem de verdade. Justiça seja feita, o encontro do adolescente com as sereias do pecado é bem interessante, assim como a onda de questionamentos que o assolam quando o garoto percebe que, até agora, ele não tomou decisão alguma para nada em sua vida, fosse ela boa ou má.

Paralelamente, Molly O'Reilly, ex-namorada de Tim ainda presa em Faerie, aguarda pelo desafio dos tolos criado pela fada Amadan, ganhando agora a atenção da rainha Titania enquanto tenta gerar frutos reais no mundo da fantasia. Novamente a resolução para esse conflito é adiada, fazendo o leitor questionar-se sobre sua verdadeira importância no grande esquema das coisas: afinal, tal subtrama aparece em quadros ora espremidos ora perdidos no meio da narrativa de Tim, tornando-se irrelevante perante sua própria função. Volto a salientar que é bom o uso de pontas soltas em séries em andamento, mas nesta altura do campeonato, ninguém se importa verdadeiramente com o que possa acontecer com Molly, mesmo que a personagem tenha surgido com bastante carisma e criado corpo em suas primeiras edições. Alongar sua subtrama e retardar sua resolução é um grande erro de escolha de John Ney Rieber, que agora terá que se esforçar muito para poder retomar tal fio ao enredo central da série e encerrá-lo em uma boa nota.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

***

In a nutshell:

- The Books of Magic: Girl in the Box -
Thumbs Up: sexualidade finalmente abordada de forma mais franca; interessante desenvolvimento da personagem súcubo Leah; questionamento reflexivo de Tim que também atinge o leitor;
Thumbs Down: fraca base motivacional para desencadear todos os acontecimentos narrados; subtrama de Molly não avança em quase nada; traço inconstante de Peter Gross; preguiça narrativa de John Ney Rieber pela primeira metade do arco, apoiando-se em seu desenhista sem fazer muito esforço criativo; sabotagem do principal elemento do arco "Transformations";

terça-feira, 28 de agosto de 2012

H.P. Lovecraft - Sessão I


Tramas: The Statement of Randolph Carter (1920), The Call of Cthulhu (1928), At the Mountains of Madness (1931)

***

Yo! How’s it going?

Desde que iniciei o blog Streampunk, tenho esperado o momento certo para começar a falar de Howard Phillips Lovecraft, escritor de contos de terror e suspense que, apesar de publicados no começo do século XX, continuam a impressionar com sua massiva solidez relativa à ficção-científica e tramas ocultistas. Considerando que o autor teria feito seu aniversário semana passada, dia 20 de agosto, acredito que a hora tenha chegado. 

Como Lovecraft é muito conhecido por seus poemas e prosas curtas e macabras, achei inviável escrever sobre cada uma delas em postagens diferentes. Assim sendo, resolvi agrupar suas histórias em trios ou quartetos, tendo o prazer de começar a escrever sobre elas a partir de três de seus contos mais famosos. Novamente, faço uso de termos em inglês durante meu texto por ter lido as obras em sua língua original. Having said that, também não posso fazer promessas quanto a quando devo escrever sobre Lovecraft novamente, mas peço que vocês, leitores, sejam pacientes. Há muitos livros na minha cabeceira que demandam minha atenção.

Plano de Fundo:

The Statement of Randolph Carter”: Seguindo o chamado de seu amigo Harley Warren, Randolph Carter tenta auxiliá-lo na busca e investigação conduzida por Warren a respeito de uma sinistra passagem entre mundos descrita em um livro misterioso lido pelo ocultista. Carter ouve os relatos de Warren sobre o mundo subterrâneo em apreensão, enquanto a névoa de uma tragédia se desenha sobre seu amigo.

The Call of Cthulhu”: Após o misterioso assassinato de George Angell, seu sobrinho-neto tem acesso às anotações do velho professor que lhe servem de ajuda para desvendar os motivos por trás do crime. Os relatos do velho detalham sonhos coletivos, rituais macabros e cenários sobrenaturais simplesmente inexplicáveis, indicações essas do terror insano e encontro alienígena que está para ser revelado.

At the Mountains of Madness”: Quando um grupo de expedição formado por geólogos e biólogos norte-americanos parte para a Antártica atrás de material de estudo terrestre, o que os contempla são as ruínas de uma civilização milenar em meio à uma verdadeira prisão montanhosa de neve e gelo. Seguindo o horror que sobrecai sobre a maior parte do grupo, segredos profundos sobre a antiga cidade são deduzidos e revelados – segredos esses que podem representar a origem da vida na terra e seus primeiros habitantes.

Papum: H.P. Lovecraft, assim como o que disse sobre Phillip K. Dick, é um autor que julgo incriticável. Criador de uma mitologia única, dono de uma escrita forte e estruturada e corajoso o suficiente para abordar até mesmo um senso de insanidade divina, o autor deixou um vasto legado que até hoje serve de base para outros livros, seriados, filmes e até jogos de videogame. Suas obras carregam trevas, angústia e maculação, reunindo ideias horrendas de uma mente distorcida que, se não agrada a todos, deve sim ser vista com brilhantismo.

The Statement of Randolph Carter” é um conto pequeno, mas extremamente relevante. Afinal de contas, ele faz parte das primeiras histórias que desenham a mitologia de Lovecraft e a solidificam. A ideia de bizarras entidades habitando a terra é introduzida breve, mas fortemente aqui, e não há como não termos um senso de que o personagem Carter, que ouve o relato de Warren quando o mesmo tem seu encontro com os seres estranhos, é um reflexo do próprio Lovecraft perante suas criações.

The Call of Cthulhu”, por outro lado, oferece mais do que uma sensação de medo do desconhecido: aqui há contato, realizado com um timing impressionante depois de construída a tensão narrativa. Afinal, é aqui que vemos pela primeira vez a entidade espacial conhecida como Cthulhu: uma mistura macabra de polvo, dragão e até traços humanos de poder aterrador e domínio cruel.

Trabalhando com um enredo forte e sombrio, ainda que extremamente curto, Lovecraft detalha sonhos sinistros e rituais quase satânicos como preparação para o encontro fatídico entre suas personagens e a criatura Cthulhu, momento simplesmente assustador: as descrições assombrosas do autor sobre o efeito produzido pela entidade são de dar nó no estômago, assim como a perseguição que tem início. Há algo forte e maciço sobre a cena, e a inserção da personagem em nossa mente é inevitável. Desde seu nome impronunciável (Lovecraft mesmo declarou que nenhum humano é capaz de pronunciar "Cthulhu" da maneira certa) à sua imagem absurdamente grotesca, Cthulhu transcende as páginas e torna-se uma figura concreta, fruto de uma imaginação grandiosa e grande poder descritivo de Lovecraft. Esse, afinal, é o preço do conhecimento tanto buscado pelos humanos.

At the Mountains of Madness”, uma das mais longas prosas do autor, também é uma adição mais do que considerável e até mesmo obrigatória a qualquer aficionado por ficção-científica ou contos de horror. Lovecraft é preciso e minucioso em suas descrições, criando um cenário incrível para ambientar sua história.

Novamente temos a curiosidade como fator motivacional para suas personagens, o que é forte o suficiente para inseri-las com perfeição ao conflito – e aqui temos um escopo absurdamente incrível, já que as ruínas descobertas pelos protagonistas pertencem à cidade dos Old Ones (Antigos), criaturas que habitam a terra há muito mais tempo que nós. Partindo desse ponto, é curioso ver como Lovecraft descreve sua mitologia: misturando um forte senso de dedução das personagens (que aqui interpretam estátuas e inscrições nas paredes da cidade) com o conhecimento prévio que elas têm sobre as entidades cósmicas vindo da obra fictícia Necronomicon (o livro proibido que contem tudo sobre tais criaturas), Lovecraft nos leva a uma jornada surreal que passa pela própria criação da vida na terra, vinda primeiramente na forma dos seres amórficos Shoggoths, criados pelos Old Ones. Fica implícito aqui que toda a vida terrestre deriva deles, assim como que os próprios Shoggoths foram a causa da perdição dos Old Ones, dando-nos um paralelo curioso que representa a queda de deuses perante suas criações. Explicada a história, Lovecraft cumpre sua promessa e entrega o que esperamos: contato visual de profundo horror e tensão, sem qualquer pudor ou o que chamo de medo narrativo. O uso da narrativa em primeira pessoa (já mais do que habitual no trabalho do autor) renderiza vivacidade e mexe com os sentidos, ainda que não seja o protagonista quem acaba por ver o mais terrível dos fatos: o que se estende além das montanhas, aquilo que até mesmo os Old Ones tanto temem.

Bom, não tenho tempo para me alongar ainda mais nesta postagem, mas fica registrado aqui meu apreço imensurável pelo trabalho de Lovecraft e seu legado. Assim que completar a leitura de mais de seus contos (que tenho compilados em um único volume), voltarei a escrever sobre ele aqui no blog.

Agora ‘nuff said. Desta vez não trago a sessão “In a nutshell” justamente por ter abordado três contos simultaneamente. Espero que se interessem pelos mitos lovecraftianos e continuem a acompanhar o blog!


***

domingo, 26 de agosto de 2012

Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado

Direção: Terry Gilliam e Terry Jones
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin

***

Yo! How's it going?

Levei um pouco de tempo, mas aqui estou novamente para falar sobre mais uma produção do grupo inglês de comédia Monty Python. A bola da vez é o filme "Em Busca do Cálice Sagrado", segundo longa da trupe e filme que satiriza uma das lendas mais importantes na história da Inglaterra, o mito arthuriano.

Plano de fundo: Guiado pela voz de Deus, o Rei Arthur Pendragon (Graham Chapman), líder dos bretões e governante de Camelot, parte em busca do Cálice Sagrado: o Santo Graal, o copo que contem o sangue de Jesus. Em sua jornada, tanto o rei quanto seus leais cavaleiros Sir Lancelot (John Cleese), Sir Robin (Eric Idle), Sir Bedevere (Terry Jones) e Sir Galahad (Michael Palin) devem passar por terríveis testes se quiserem atender ao comando divino com sucesso.

Papum: Confesso que essa é a primeira vez que tenho tão pouco a escrever sobre um tema aqui no blog. Não que "Em Busca do Cálice Sagrado" seja ruim, vejam bem: é apenas difícil escrever bastante sobre filmes cômicos, em especial os mais pastelões.

"Em Busca do Cálice Sagrado", apesar de ser uma paródia das ricas lendas arthurianas, não vai muito a fundo em sua mitologia. Excluindo desde figuras como Merlin e Guinevere a Morgana e Mordred, a película atém-se em retratar apenas a viagem do Rei Arthur e aspectos superficiais da jornada inteira, satirizando no caminho tanto os maneirismos quanto a linguagem utilizada pelos ingleses no ano retratado, 932 d.C. Sendo assim, o que imperam são misturas entre piadas verbais e cenas clássicas de pastelão onde vacas voadoras, sequências em animação e desmembrações são altamente comuns.

O que é sempre interessante de observar nos trabalhos de Monty Python, porém, é como os atores e produção encaram seus projetos. Em instante algum somos levados a pensar que o que estamos vendo é uma coisa séria: seja nos créditos ou na sequência em preto e branco que tenta ludibriar o espectador e fazê-lo pensar que talvez esteja assistindo ao filme errado. Sendo assim, a performance do elenco inteiro é mais uma vez hilária, mas não apropriada àqueles que o humor inglês não consegue atingir. Há tolice e dezenas de piadas bobas, mas esse é exatamente o espírito do filme.

Questionamentos políticos e religiosos não estão muito presentes em "Em Busca do Cálice Sagrado", ao contrário de "A Vida de Brian". Com exceção de um sketch divertidíssimo no começo do filme onde um plebeu questiona como Arthur fora apontado à rei (exaltando a necessidade de uma figura pública ser selecionada justamente pelo povo), assim como a rixa entre bretões e franceses ou a paródia inusitada ao Cavalo de Tróia, não há nada de realmente relevante aqui. Os cenários bucólicos escoceses e frases de efeito, no entanto, acabam por suprir parte dessa ausência, tornando a película uma divertida saga nonsense ao extremo.

Agora 'nuff said. Até a próxima!

***

- Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado -
Thumbs Up: ótima caracterização de cenários e personagens; audácia em quebrar elementos sólidos da lenda arthuriana e concluí-la de modo inesperado;
Thumbs Down: falta de aprofundamento no mito, cujo rico legado contém ainda mais material humorístico; toque pastelão certamente não agrada a todos;

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

The Sandman Vol. 6 - Fables & Reflections

Autor: Neil Gaiman
Artistas: Kent Williams, Shawn McManus, Stan Woch, Duncan Eagleson, Bryan Talbot, John Watkiss, Jill Thompson

***

Yo! How's it going?

Hora de falar novamente aqui no blog sobre a série "The Sandman", escrita pelo autor inglês Neil Gaiman na década de 90. O encadernado da vez é o sexto na ordem de publicação da série, intitulado "Fables & Reflections" (Fábulas e Reflexões). Let's get going, then.

Plano de fundo: Orfeu. César Augusto. Maximilien Robespierre. Caim e Abel. As esposas de Adão. Essas são apenas algumas das histórias narradas em "Fables & Reflections".

Todas acompanhadas pelo deus dos sonhos Morpheus (ou Morfeus, em português), figuras históricas e religiosas importantes têm aqui parte de sua trajetória contada com precisão factual em uma coleção de contos que mistura fantasia e realidade de um modo surpreendentemente inteligível, marca registrada de Neil Gaiman durante todo seu trabalho com "The Sandman". Cabe ao leitor, então, embarcar em cada uma das jornadas por ele descritas e se deixar mergulhar nos doces e inúmeros mundos que formam não uma terra fantasiosa, mas o próprio lugar onde vivemos.

Papum: Se no último volume de "The Sandman" Neil Gaiman apresentava um único enredo linear e contínuo, "Fables & Reflections" volta a compilar contos curtos que não precisam ter uma conexão estabelecida. E como isso é bom.

Misturando figuras históricas com uma abordagem surreal e fantasiosa dentro de seus conflitos (sem alterar em nada o resultado factual atingido por tais personas), Gaiman faz um trabalho brilhante de pesquisa e criatividade ao levar ao leitor personagens reais de importância ou reputação marcantes em suas culturas durante o curso da história. Em seu elenco estão nomes como Orfeu (o homem que desceu ao submundo atrás de sua mulher Eurídice), Joshua Norton (o velho matusquela auto-proclamado imperador dos Estados Unidos) e até mesmo o califa Haroun Al Raschid, figura importante nos tempos áureos da cultura islâmica presente até mesmo em inúmeros contos das "1001 Noites".

Cada história, renderizada por um artista diferente, traz elementos próprios que mesclam poesia, relatos históricos e planos únicos. Tanto em "Three Septembers and a January" quanto em "Thermidor", por exemplo, cenários de época e as cores branca e cinza predominam nos quadros de narração e dão o senso temporal que tais contos necessitam. É interessantíssimo vermos como Gaiman inclusive insere figuras famosas como Mark Twain no primeiro conto em questão, ao mesmo tempo que narra a curiosa história de Joshua Norton e seu império fictício. Em "Thermidor", viajamos no tempo e conhecemos Maximiliem Robespierre, um dos homens mais importantes na sangrenta revolução francesa do final do século XVIII que teve seu idealismo mesclado com um senso ditatorial profundo e marcante onde terror e virtude caminhavam lado a lado. Gaiman usa fantasia para mover as cordas por trás do movimento que derruba Robespierre, mas é inteligente o bastante para não alterar a história e o popular decapitamento do francês.

Em contrapartida, em contos como "Ramadan" ou "The Parliament of Rooks", cores vivas e pulsantes dão o toque certo de fantasia pelo qual tais histórias clamam, e a variação de recursos narrativos de Gaiman impressiona: do uso de um inglês mais arcaico em diálogos antigos a narrações que devem ter um tom surreal ao se mesclarem com os eventos de Baghdad, culminando em belíssimos planos da cidade que misturam cenários, mitos e divindades da cultura islâmica em uma história que realmente comove.

O ponto mais alto de "Fables & Reflections", no entanto, talvez esteja na história mais conhecida entre os amantes de mitologia. Aqui, Orfeu é filho do deus dos sonhos, fato que serve apenas como aperitivo para que o leitor possa acompanhar de perto a tragédia que recai sobre o grego quando o mesmo vai até Hades pedir que o deus lhe devolva sua esposa Eurídice. Gaiman planeja quadros e ângulos incríveis que mostram a insignificância humana perante os deuses, e aumenta o suspense na hora exata envolvendo Orfeu em trevas antes de o homem chegar à superfície, fazendo-o olhar para trás e perder sua amada no momento mais agudo do enredo, desta vez para todo o sempre. Gaiman é muito astuto em abordar a correlação nominal entre Orfeu e Morpheus, mas também mostra inteligência ao fazer do deus dos sonhos um mero espectador aqui. Não é a pretensão do autor e nem de sua personagem alterar a história, mas sim narrá-la sob outro olhar, o que prova ser uma leitura frutífera e muito rica.

Há outros ótimos contos em "Fables & Reflections", mas acredito que os mencionados devam saltar aos olhos e à mente prontamente. Having said that, 'nuff said. Até a próxima!

***

In a nutshell:

- The Sandman Vol. 6 - Fables & Reflections -
Thumbs Up: história e fantasia lado a lado em contos fortes e até líricos; uso apropriado de cores de acordo com a necessidade de cada conto; artistas diferentes na formação de uma verdadeira antologia de contos não só fantásticos como reais; variação de recursos narrativos de Gaiman, alternando até mesmo entre personagens genuinamente britânicas e americanas;
Thumbs Down: -----

  

terça-feira, 21 de agosto de 2012

The Master and Margarita

Autor: Mikhail Bulgakov
Ano de publicação: 1966-1967

***

Yo! How's it going?


Trago um texto um tanto quanto diferente para os meus leitores aqui no blog hoje: escrevo sobre "The Master and Margarita", obra do escritor russo Mikhail Bulgakov começada no final da década de 20 e "terminada" na década de 30, sendo publicada somente em 1966.

Antes de discorrer sobre o livro e tecer meus comentários sobre o mesmo, porém, tenho de registrar aqui meu profundo agradecimento ao ator Daniel Radcliffe, cujas entrevistas extremamente interessantes sobre arte e literatura me deixaram curioso o suficiente para pegar "The Master and Margarita" e devorar o romance com avidez ímpar. Novamente peço desculpas por fazer uso das versões de nomes de personagens em inglês (em especial da versão que li), mas como não li o livro em português, não me resta outra saída. Now on to the show!

Plano de fundo: Moscou vive um período singular. Em pleno final da década de 20, a razão e filosofia socialista semeiam desconfiança e segredos em uma sociedade marcada também pelo ateísmo intrínseco de quase todos os seus cidadãos. É exatamente nesse cenário que o Diabo enxerga seu palco, chegando a Moscou com o pseudônimo de Woland e acompanhado de sua trupe extraordinária que tem como intuito tumultuar a cidade e armar o cenário perfeito para um evento de porte peculiar: o Baile do Diabo.

Para sua realização, é necessário que conheçamos Margarita Nikolayevna, indicada anfitriã do baile por Woland, e seu amante escritor cuja alcunha é "Master" (Mestre). O que ambos não sabem, no entanto, é que o livro escrito pelo chamado Mestre também tem suma importância nos planos de Woland, o que pode levar o casal a uma transcendência histórica e até religiosa que os fará confrontar justamente o protagonista do livro criado pelo Mestre: Pôncio Pilatos (Pontius Pilate), o homem que ordenou a execução de Jesus Cristo.

Papum: "The Master and Margarita" é uma obra muito mais complexa, carnavalesca e provocante do que tenho a pretensão de poder julgar, o que torna meus comentários apenas impressões de uma mente que tenta entender e assimilar com cuidado o que acabou de absorver. Having said that, sinto-me um pouco mais livre para tecer minhas impressões e compartilhar o que pude digerir.

Escrito sumariamente na década de 30, "The Master and Margarita" retrata muitos aspectos de sua época de desenvolvimento com exatidão e olhar curiosos: da desconfiança de qualquer cidadão de Moscou para com seus compatriotas a crimes invisíveis contra o regime soviético, incluindo ainda a censura de arte e proibição de moedas estrangeiras como elementos taxativamente instituídos para o povo durante tal período. Nesse cenário também entra a era de ateísmo vivida pelos moscovitas, onde o desconhecido e inexplicável deve ceder lugar à razão. Não há cenário mais perfeito para o Diabo fazer sua festa, física e metaforicamente falando.


É difícil falar sobre o que "The Master and Margarita" realmente é, contudo. Mesmo os estudiosos da literatura bulgakoviana não conseguem classificá-la quanto ao seu verdadeiro gênero, tampouco saber seu verdadeiro propósito. O que temos, no entanto, é comoção garantida com o caos criado por Woland e seus companheiros Korovyov (uma espécie feiticeiro farrista), Behemoth (um enorme gato falastrão), Azazello (o mensageiro irritadiço) e Hella (a bruxa silenciosa sempre nua).

Tentando dissecar a obra e alguns de seus inúmeros temas de modo bem objetivo, vemos o romance abrir com uma discussão peculiar entre um editor chamado Mikhail Berlioz e seu amigo poeta Ivan Nikolayevich: a importância de seu trabalho de desmistificar para o povo entidades grandiosas, em especial Jesus Cristo. É nessa hora que Woland (Diabo) surge na conversa: ora essa, desmistificar alguém como Jesus é o mesmo que desmistificar tanto o bem quanto o mal, o que leva Woland a se inserir no diálogo e perguntar a Berlioz por que a importância de Jesus tem de ser desconstruída. Tem início então um profundo debate sobre a existência de uma força maior que age no tear do destino; Berlioz acredita que qualquer homem faz seu próprio caminho, argumento rebatido por Woland prontamente: se um homem faz seu próprio destino, como pode ele estar sujeito a casualidades acidentais, como de fato está? Seguindo essa linha e brincando com o ateísmo de seu interlocutor, Woland nos narra a história do julgamento de Yeshua Ha-Notsri (Jesus de Nazaré) perante Pôncio Pilatos. É interessantíssimo vermos aqui, contudo, que Bulgakov atém-se a fatores muito mais históricos do que religiosos, fazendo uma releitura de cena certamente cativante e, vejam bem, incrivelmente plausível. Tal relato não só nos interessa pelo modo como a história de Pilatos é recontada como coloca em pronto andamento uma onda de desordem em Moscou, iniciando a partir da morte absurda de Berlioz logo depois de sua conversa com Woland e ganhando escala com desaparecimentos, hipnotismos em massa e muita confusão por todos os cantos da cidade.


Por incrível que pareca, a participação dos protagonistas do livro, o Mestre e Margarita, é incrivelmente baixa. No entanto, ambos tem suma relevância no plano traçado por Bulgakov: afinal, o Mestre representa o próprio Bulgakov e sua luta excruciante contra as críticas recebidas durante sua carreira, representando aquilo que Bulgakov mais temia - sucumbir ao negativismo por ele recebido. Mais importante do que isso, porém, é também entendermos que o Mestre é o autor do livro cujo conto inicial Woland narra para Berlioz logo na abertura de "The Master and Margarita", uma metaficção que reconta os acontecimentos marcantes de Pôncio Pilatos e Yeshua Ha-Notsri e acaba por tornar o Mestre justamente uma figura parecida com a do próprio Jesus: terna e inteligente, mas vítima de criticismo e traição que acabam por levá-la à ruína antes da salvação. O que difere Yeshua e o Mestre, no entanto, é que Yeshua jamais deixara de acreditar na bondade enquanto fator intrínseco da humanidade, enquanto o Mestre, assim como Pôncio Pilatos, não tem o mesmo senso. Todos concordam com Yeshua, no entanto, quando o apontado messias indica que a covardia é o vício humano mais terrível, elemento abordado em inúmeros momentos do livro.

Interessante também é como Bulgakov quebra paradigmas estabelecidos pelo leitor durante o livro inteiro. Misturando diferentes estilos narrativos durante a obra (em sua primeira metade mais concreta e em seu término mais abstrata e fantasiosa), o autor é capaz até mesmo de brincar com a personalidade do Diabo e torná-lo uma figura não inteiramente ruim, mas de interesses peculiares e pensamentos marcantes como os de Yeshua. Sua representação é visivelmente baseada em Mefistófeles, a figura do Diabo em "Fausto", de Goethe, o que dá ao livro camadas e camadas de maiores interpretações. Há a necessidade da existência de sombras para a existência da luz, tema amplamente abordado por Goethe em sua obra-prima e aqui também. A reinvenção das cenas da morte de Yeshua e Judas também tornam-se incrivelmente palpáveis na mão de Bulgakov (ou seria nas mãos do Mestre?), levando a um interessantíssimo conflito interno de Pôncio Pilatos que reflete nos dois tempos dentro de "The Master and Margarita", seja na Judeia do ano 33 ou em Moscou do fim da década de 20.

Infelizmente, porém, o romance é marcado pelo fato de Bulgakov não ter conseguido revisá-lo por completo. Falecido em 1940, o autor foi capaz apenas de revisar as partes que julgava mais cruciais ao livro, esperando que, de qualquer forma, uma obra tão blasfêmica jamais pudesse ser publicada. Sua previsão tornou-se incrivelmente errada, é claro, e após a publicação de "The Master and Margarita", os trabalhos de Bulgakov ganharam notoriedade e levaram o falecido autor a um dos postos mais altos da literatura russa do século XX, colocando-o ao lado de figuras literárias históricas como Dostoyevsky e Alexandre Pushkin (figuras cujas referências estão por toda a obra de Bulgakov, devo acrescentar).

Fantástico e lúdico, "The Master and Margarita" é um livro para ser lido com calma e amplamente digerido. Estranhamente engraçado e comovente, a obra de Bulgakov é altamente simbólica e recheada de conteúdos políticos e sociais abordados com ironia e sarcasmo, cedendo espaço ao mesmo tempo à grande imaginação do autor em voos incomuns que a tornam verdadeiramente única. O legado cultural da obra também permanece forte na Rússia, vendo algumas de suas frases virarem verdadeiros ícones: como exemplo, e tomo liberdade de traduzir a expressão aqui, "manuscritos não queimam", alusão à ideia de que um livro pode ser destruído fisicamente, mas suas ideias permanecem em seu autor e naqueles que foram tocados (o que é irônico para o caso de Bulgakov, que assim como seu personagem Mestre, queimou muitos de seus manuscritos em ataques de raiva e depressão, acabando por perder completamente o que havia escrito).

'Nuff said. Deixo vocês com o link para minha música predileta dos Rolling Stones, "Sympathy for the Devil", inspirada no personagem Woland de "The Master and Margarita".

http://www.youtube.com/watch?v=pkXIYgsvO0c


***

In a nutshell:

- The Master and Margarita -
Thumbs Up: variação de recursos narrativos verdadeiramente impressionante; olhar histórico-religioso peculiar e intrigante; pastiche de alegoria e realismo digno dos maiores clássicos do modernismo; referências culturais, literárias e políticas em quase todos os seus parágrafos; abertura e fechamento profundamente inspiradores; construção e destruição contínua do ritmo de acontecimentos;
Thumbs Down: dificuldade em entender boa parte das referências da obra sem o auxílio de notas de edição; elenco de personagens cujos nomes são de difícil memorização; 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Locke & Key Vol. 3 – Crown of Shadows


Autor: Joe Hill
Artista: Gabriel Rodriguez

***

Yo! How’s it going?

Hora de falar sobre mais um ótimo título em quadrinhos em andamento nos Estados Unidos: a série de suspense e terror chamada “Locke & Key”.

Como começo a falar dela em seu terceiro volume encadernado, gostaria de situar meus leitores quanto a elementos essenciais da trama: “Locke & Key” narra a história da família Locke, composta por Nina e seus filhos Tyler (primogênito), Kensie (filha do meio) e Bode (caçula). Após a morte de Rendell (marido de Nina e pai das crianças) pelas mãos de um assassino psicopata chamado Sam Lesser, os Locke optam por retornar à cidade natal de Rendell, Lovecraft, para poder fugir da dor e recomeçar a vida. O problema é que a mansão Locke esconde segredos incríveis por todos os seus cantos, e as chaves para desvendá-los talvez façam muito mais do que simplesmente abrir portas. Além disso, um mal terrível se esconde nos domínios da mansão, e liberá-lo pode significar muito mais dor aos Locke do que eles jamais imaginaram. On to “Crown of Shadows”, then!

Plano de fundo: A vida dos Locke continua de pernas para o ar. Como se não bastasse todo o esforço para aceitar e trabalhar com a série de eventos absurdos que tem acontecido, Tyler, Kensie e Bode ainda tem de lidar com a loucura de sua mãe Nina, que mergulha cada vez mais no mundo das bebidas como refúgio contra a realidade. Paralelamente, o misterioso “amigo” de Tyler, Zack, continua a procurar pelas poderosas chaves da mansão dos Locke – afinal de contas, tais chaves são capazes de realizar feitos incríveis como transportar uma pessoa a qualquer lugar do mundo, separar espírito e corpo, abrir a mente ou até realizar uma troca de sexos. O que Zack busca em especial, no entanto, é a chave ômega, a mais importante chave da mansão.

Guiado por grandes ambições e até mesmo um senso de insanidade, Zack utiliza uma de suas chaves para poder controlar a coroa que dá ao seu usuário poder sobre o mundo das sombras. Ao seu comando, as criaturas sombrias agora buscam a chave ômega a todo custo, o que pode significar para os Locke um confronto de vida ou morte entre as criaturas e eles próprios. Afinal, eles ainda habitam a mansão, quer Zack queira ou não.

Papum: Desde o início, “Locke & Key” foi realmente um achado para mim. Resolvi apostar na série após o lançamento de seu primeiro encadernado sabendo quase nada sobre ela, e fui fisgado pelo ótimo trabalho de Joe Hill (filho do escritor Stephen King) e Gabriel Rodriguez de uma vez – trabalho esse que levou os dois a indicações ao prêmio Eisner de quadrinhos posteriormente.

Sombrio e potente, fantasioso e palpável, “Locke & Key” é uma ótima mistura de terror e suspense sobrenatural que funciona muito bem através de seu sólido enredo, belíssima arte e personagens consistentes - apesar da loucura que os ronda, os Locke também têm problemas de relacionamento, conflitos pessoais e objetivos próprios, uma humanização que traz os leitores muito próximo à família e adiciona muito mais importância às tramas narradas.

Em “Crown of Shadows”, mais algumas chaves da mansão Locke são apresentadas, e a criatividade de Hill brilha novamente. Quem não gostaria de ter uma chave capaz de abrir nossa mente para que pudéssemos inserir ou remover dela o que quiséssemos? E quanto a ir à qualquer lugar no mundo? Que tal controlar as sombras? Sim, controlar as sombras: esse é um elemento que qualquer vilão que se preze deve abordar, o que Hill sabe muito bem. Sombra e luz se enfrentam em uma batalha feroz em “Crown of Shadows”, seja ela física ou metafórica. Afinal, os Locke até agora tiveram mais do que sua cota de sombras em suas vidas, mas nem isso foi capaz de apagar os laços que os unem e os fazem proteger um ao outro.

A arte de Rodriguez merece muito destaque, também. Não é sempre que um desenhista consegue prender a atenção do leitor ao mostrar sequências de quadros “mudos” que tomam uma página inteira, e a batalha que sucede no terreno dos Locke é grandiosa demais para ser narrada em quadros tradicionais; há o senso apropriado de uma cena épica aqui muito bem trabalhada por Hill e Rodriguez, em plena sintonia desde o início da série “Locke & Key”.

Outro destaque está nos planos de conflito entre sombra e luz, onde o uso de uma lanterna por parte da personagem Kensey provém ao leitor ótimas sequências e planos de contraste que são de tirar o fôlego. Hill sente que o momento deve ser visual, não interferindo no trabalho de Rodriguez com falas desncessárias. O autor, no entanto, não se apoia somente no lado gráfico da obra, inserindo-se de volta ao enredo com um timing impressionante, o que me faz olhar para o trabalho de Mark Millar em “Kick-Ass 2” com ainda mais desgosto.

Referências legais à literatura também podem ser vistas aqui e acolá. Na estante dos Locke, por exemplo, podemos observar alguns clássicos que simplesmente precisam ser lidos, como “Ubik” de Phillip K. Dick, “20.000 Léguas Submarinas” de Júlio Verne ou “Moby Dick”, de Herman Melville. A homenagem singela a tais livros é sutil e interessante, mesmo que Hill ou Rodriguez tenha, por exemplo, errado o nome do livro “At the Mountains of Madness”, de H.P. Lovecraft, chamando-o de “In the Mountains of Madness”. Somado a tudo isso também temos a sombra de Peter Pan e todo um exército de criaturas do mundo da fantasia atrás dos Locke.

Por fim, o volume ganha um sentido ainda mais amplo de drama ao narrar a descida de Nina ao fundo do poço – evento esse que leva as personagens a uma descoberta incrível. A ponta solta deixada por Hill em “Crown of Shadows” é de fazer vibrar, deixando qualquer leitor ansioso pelo novo volume da série.

‘Nuff said, now. Se você é amante de quadrinhos, ler “Locke & Key” é mais do que diversão garantida. A popularidade da série é grande inclusive entre outros autores de quadrinhos, o que fez o título chegar muito perto de virar uma série de TV (série essa que, se baseada ns quadrinhos, eu assistiria com certeza). Deixo vocês, então, com o link para o teaser do piloto da série que acabou não vingando, e espero que esse aperitivo visual os interesse a conhecer a história dos Locke.


***

In a nutshell:

- Locke & Key Vol. 3 – Crown of Shadows –
Thumbs Up: roteirista e artista em perfeita sintonia; quadros largos de proporções épicas que vivem todo o seu potencial narrativo; luz e sombras em um conflito sólido e interessante; drama pessoal que nos mantém próximos às personagens; arte linda de Rodriguez;
Thumbs Down: talvez a subtrama que abre o encadernado, já que ela não parece ter consequência alguma para a série e se isola do restante do enredo;     

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Small Eternities


Autor: Michael Lawrence
Ano de publicação: 2004

***

Yo! How’s it going?

Hora de falar do segundo livro da saga Withern Rise/Aldous Lexicon, escrita pelo autor inglês Michael Lawrence. Para aqueles que ainda não sabem nada sobre essa boa série de livros infanto-juvenis, basta acessarem a postagem relativa ao primeiro livro da trilogia, “A Crack in the Line”, para descobrir um pouco mais sobre o trabalho de Lawrence.

Plano de fundo: Os pequenos modelos da mansão Withern Rise foram quebrados. Alaric e Naia já não têm mais suas ferramentas para cruzar realidades, estando agora presos um no mundo do outro. Acima deles, a temporada de neve é substituída por chuvas torrenciais - chuvas essas também presentes na Withern Rise de Aldous Underwood, um jovem garoto fadado a um destino terrível que definirá a família Underwood por gerações a vir. Ou será que não?

Em “Small Eternities”, Alaric e Naia encontram não somente um modo novo de cruzar realidades como de visitar uma cadeia de eventos que se repete indefinidamente no passado de suas famílias; uma pequena eternidade que começa e termina ciclicamente em uma realidade diferente daquela onde cada um deles vive. Cabe a eles, então, descobrir a relação entre o recém-descoberto cenário e o que houve aos Underwood de outrora, revelação essa que pode vir a um terrível custo.

Papum: Bem menos original do que sua obra antecessora, “Small Eternities” começa exatamente de um dos pontos onde “A Crack in the Line” nos deixou. Digo “um dos pontos” porque, conforme aqueles que leram o livro puderam perceber, “A Crack in the Line” não possui apenas um final, mas duas vertentes que culminam em duas conclusões alternativas. Mas vamos ao livro em si, afinal.

Se no primeiro volume da saga a construção das personagens era imprescindível, Michael Lawrence escorrega aqui ao querer narrar os pensamentos e rotinas completamente monótonos de Alaric e Naia insistentemente. Apesar de ambos não estarem em suas realidades de origem, o fato de seus novos mundos terem se adaptado a suas presenças estraga todo o potencial problemático da obra, que estende-se por tempo demais em descrições sobre como Naia sente saudades de sua mãe e como Alaric está contente com sua nova realidade (onde tem sua mãe uma vez mais). O contraponto desse até então chato e entediante enredo, no entanto, é o jovem Aldous Underwood.

Aldous é nada menos do que o tio-avô de Alaric e Naia. Como aqui ele não passa de um garotinho, é natural que sua realidade situe-se no passado. O que interessa, no entanto, é o jeito com que Michael Lawrence a aborda: desde o início, sabemos que o agitado menino está fadado a morrer de forma terrível, então acompanhamos seus últimos dias ao lado de sua família até o evento fatídico em si. O escritor faz um bom trabalho ao construir a tensão do leitor e sua expectativa quanto à morte de Aldous, sem dúvida fruto de sua engenhosidade ao nomear cada capítulo com números que representam uma contagem regressiva de dias até a morte do menino. A participação de Alaric e Naia em tal cenário também resgata as personagens de uma espécie de lacuna criativa do autor, inserindo-as no conflito e finalmente colocando-as numa história que mereça ser contada. Isso não quer dizer, no entanto, que a trama brilha: a dependência de um evento em si e a monotonia de duas de suas personagens principais fazem o leitor se perguntar frequentemente qual é de fato o objetivo do livro. Felizmente, porém, Lawrence muda o jogo a tempo de não fazer da jornada uma completa perda de tempo, usando o clímax do romance para montar uma cadeia de eventos finalmente relevante e surpreendente.

A mudança climática no plano de fundo da obra também merece ser exaltada aqui. Se em “A Crack in the Line” tínhamos uma temporada de neve, símbolo do isolamento de Alaric perante o mundo, as chuvas incessantes de “Small Eternities” dão o tom cinza que inunda Withern Rise em três realidades e tempos diferentes, culminando no trágico final de dois de seus habitantes.

Resta-me agora ler o último volume da série, “The Underwood See”, para saber como tudo termina. Desta vez, porém, só há uma vertente de onde o livro pode começar, uma tragédia cujas consequências espero serem abordadas não com tristeza, mas criatividade - that is, se Lawrence estiver disposto a escrever uma boa história ao invés de simplesmente arrastar suas personagens.

‘Nuff said. Continuem ligados e até a próxima!

***

In a nutshell:

- Small Eternities –
Thumbs Up: inserção de linhas temporais junto a realidades paralelas; coragem em se desfazer de personagens importantes; mudanças climáticas tornadas metáforas dos acontecimentos presentes; desfecho satisfatório com grande potencial narrativo para o volume final da trilogia;
Thumbs Down: premissa de grande escopo diminuída durante a obra; falta de identidade de algumas personagens e do autor em si, que prefere neutralizar o inglês da obra à torná-la genuinamente britânica; descrição extensa e entediante de elementos completamente irrelevantes à trama central;

domingo, 12 de agosto de 2012

Monty Python's A Vida de Brian

Direção: Terry Jones
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin

***

Yo! How's it going?

Antes de qualquer coisa, gostaria de desejar um ótimo domingo de Dia dos Pais a todos!

Seguindo viagem, hoje abordo em minha postagem um filme  incomum para nós brasileiros: "A Vida de Brian", produzido, dirigido e interpretado pela equipe de comediantes britânicos de muito sucesso na década de 70, Monty Python.

Assim como o que ocorreu com "Pulp Fiction", lamento muito ter assistido a qualquer coisa relacionada a Monty Python somente agora. Afinal de contas, o senso de humor peculiar da trupe e suas piadas históricas tanto políticas quanto religiosas são um banquete farto para aqueles que, como eu, gostam do humor ácido dos ingleses (e não me refiro ao estilo de Mr. Bean).

"A Vida de Brian" é o terceiro de cinco longas feitos pelo grupo Monty Python. No entanto, não há ordem cronológica para assistirmos tais filmes, e seguindo a recomendação de um bom amigo meu, iniciei minha jornada nesse mundo humorístico surreal pelo que, segundo muitos, é o melhor filme deles.

Plano de fundo: Os três reis magos chegam a Belém para presentear o messias que acaba de nascer. Ao tentar fazê-lo, no entanto, o trio acaba por quase presentear o bebê errado com seus incríveis dotes, apresentando-nos assim ao recém-nascido e aparentemente irrelevante Brian, indivíduo que está fadado a carregar o estigma de falso messias desde seu nascimento.

Anos se passam e o agora adulto Brian, morador da Judeia e odiador do império romano, junta-se ao grupo denominado Frente dos Povos da Judeia. Ao lado dos outros peculiares e falastrões membros dessa bagunçada frente revolucionária, Brian sonha em retirar o controle de Pôncio Pilatos e dos romanos sobre a Judeia e devolvê-la a seu povo de origem, mesmo que a FPJ não esteja muito disposta a ajudá-lo.

Papum: "A Vida de Brian" certamente não é um filme para os mais religiosos. E como não.

Misturando astúcia, acidez e momentos de pastelão, o longa satiriza a vida do povo da Judeia e brinca com dezenas de elementos religiosos sem pudor algum: do nascimento do messias à busca do povo judeu por aquele que irá salvá-los, transformando em um verdadeiro circo os apedrejamentos públicos e até mesmo as crucificações realizadas durante aquela era.

Discussões políticas ganham um olhar divertido e peculiar aqui. A FPJ, ao contrário de seu ideal revolucionário, acaba por direcionar seu reativismo contra outras frentes de rebelião ao invés de seu verdadeiro inimigo, uma paródia explícita de sistemas revolucionários reais que durante a história trataram a revolução como fim, e não como meio. Além disso, o grupo em questão gasta um enorme tempo planejando seus atos para, no final das contas, nada concretizar. O senso de ironia é grande, colocando em cheque o verdadeiro propósito de assembleias políticas e seus debates infrutíferos.

"A Vida de Brian" tem seus momentos mais brilhantes, porém, na saga de seu protagonista e sua rejeição em se tornar o grande messias. O retrato do povo da Judeia completamente cego e maleável é agudo e satírico, ironizando a crença do povo e fazendo deles adeptos acéfalos que apenas seguem seu líder sem questioná-lo. O tema ainda ganha profundidade quando o próprio Brian diz a seus seguidores que eles devem pensar por si, individualmente - discurso que é rebatido com o povo exigindo que ele, Brian, os ensine a pensar individualmente, criando assim um paradoxo sarcástico que realmente entretém.

Em meio a tudo isso, há ainda referências divertidas e nonsense à cultura popular da época, encaixando até mesmo um momento "Star Wars" dentro do enredo - encaixe esse absurdamente maluco, como vocês devem imaginar.

Por fim, ganha destaque a cena final do filme e a canção cantada por Eric Idle que ficou eternizada na memória dos fãs de Monty Python e até mesmo da cultura britânica. Fervorosos acusaram e acusam Monty Python de blasfemar a crucificação de Cristo com a sequência final de Brian e seus companheiros em sua execução, transformando a cena toda em algo que as pessoas não deveriam levar a sério. A canção em questão, "Always Look on the Bright Side of Life", contudo, atingiu tamanha popularidade que chegou até mesmo a ser cantada no encerramento das olimpíadas de Londres pelo próprio Eric Idle, há apenas alguns minutos.

'Nuff said. Postem seus comentários sobre "A Vida de Brian" ou outros trabalhos de Monty Python aqui no blog e fiquem ligados: tratarei de escrever sobre os outros projetos do grupo aqui no meu blog muito em breve! 

***

In a nutshell:

- Monty Python's A Vida de Brian -
Thumbs Up: audácia satírica e senso de humor aguçado; ótima trilha sonora; performances incríveis de toda a trupe Monty Python; referências históricas que provocam e divertem;
Thumbs Down: não são todos que conseguem entender a película como uma simples sátira; as cenas de pastelão podem parecer um tanto tolas para os tempos atuais, visto que o filme foi rodado em 1979;  

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

The Books of Magic: Transformations


Autor: John Ney Rieber
Artista: Peter Gross

***

Yo! How’s it going?

Hora de “The Books of Magic” novamente por aqui. Agora o tópico é o quinto encadernado da série, intitulado “Transformations”. Let’s get started, then.

Plano de fundo: Depois de uma visão que quase lhe custou a vida ao término do arco “Reckonings” (cuja resenha já postei aqui no blog), Molly O’Reilly não sabe ao certo como deve tratar seu relacionamento com Tim. Afinal de contas, em muitos dos possíveis futuros do garoto, Tim acaba por arruinar ou simplesmente destruir a vida de Molly.

Sentindo a hesitação de sua namorada e querendo fazer alguma coisa para não afastá-la dele, dois incidentes inesperados contemplam o garoto. Tim enfim consegue se transformar magicamente em um animal (magia de nível muito elevado), mas acaba por cair nas garras de uma feiticeira tatuadora misteriosa que promete avaliar sua alma por completo. O que ela observar pode mudar o futuro de Tim para sempre, assim como o de Molly, que visita sua avó no interior da Inglaterra e é oferecida uma aposta em um jogo contra uma fada a serviço de Titania e Auberon. O fracasso, no entanto, pode custar a Molly mais do que sua curta vida.

Papum: Sinto que “The Books of Magic” começa a perder sua força no curto e inconclusivo arco “Transformations”. Afinal de contas, não só vemos mais uma extensão do relacionamento de Tim e Molly como não há sensação alguma de que algo concreto foi realmente atingido ao final do volume, ao contrário do que acontecera durante os outros arcos até agora.

John Ney Rieber continua a fazer bom uso de criaturas fantasiosas e místicas em sua narrativa, mas perde-se quando tenta se aproximar das mais humanas desta vez. A análise da alma de Tim e a tatuagem que o garoto recebe como forma de controlar seus poderes são toques criativos e marcantes, assim como a personalidade felina de sua forma animal (um conflito claro entre instinto e razão), mas nada disso é aprofundado ou devidamente explorado no restante do volume, que ainda conta com uma curta e esquecível aparição de Morte (sim, a personagem criada por Neil Gaiman) como uma espécie de bônus para atrair leitores, dada a popularidade da personagem entre os aficionados por quadrinhos.

O pecado maior do arco e de Rieber, no entanto, é simplesmente não finalizar conflito algum. Ainda não temos ideia do que houve ao anjo Araquel ao final de “Reckonings”, e o desafio que deve ser encarado por Molly é simplesmente cortado ao meio aqui, mesmo contendo um bom potencial narrativo e divertidas referências como aquela à canção "Fool on the Hill" dos Beatles. Acredito que tais subtramas devam aparecer no próximo arco, é claro, mas levando em conta o tamanho minúsculo de “Transformations”, Rieber poderia ter inserido tais histórias aqui, com o intuito de fechar pelo menos alguma dessas tramas em particular. “Transformations”, assim como os demais volumes, é um arco encadernado afinal, não uma edição avulsa. O que se espera de volumes assim, portanto, é o mínimo de fechamento para certo conflitos, ainda que saibamos que a história continua e devem haver cliffhangers.

Se há algo que ainda se mantem constante na série, no entanto, é a arte de Peter Gross: contínua e estável, as linhas simples do desenhista continuam a narrar de modo efetivo tanto aspectos verossímeis quanto fantasiosos da série, contrastando com um certo sentimento de preguiça que Rieber começa a demonstrar em sua escrita.

‘Nuff said. Sei que a série “The Books of Magic” não é de muito interesse para a maioria, mas espero que estes textos sirvam pelo menos para atiçar a curiosidade de pessoas que, assim como eu, não se contentam somente com histórias de super-heróis e tem curiosidade de aprender sobre trabalhos diferentes.

***

In a nutshell:

- The Books of Magic: Transformations -
Thumbs Up: boas ideias novas relativas aos poderes de Tim: da animalização de sua personalidade à sua macabra tatuagem; traço constante de Peter Gross;
Thumbs Down: inconclusão de muitas subtramas; falta de um conflito realmente importante durante todo o volume; participação apagada de Morte;

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fables Vol. 6 - Homelands


Autor: Bill Willingham
Artistas: Mark Buckingham, David Hahn

***

Yo! How’s it going?

Hora de falar sobre outra série em quadrinhos que tenho acompanhado por alguns meses: “Fables”, publicada no Brasil com o apropriado nome de “Fábulas” pela editora Panini. Peço desculpas por mesclar nomes de personagens em português e inglês em meu texto, mas como faço a coleção do título em sua língua original, não tenho pleno conhecimento dos termos usados na versão brasileira do mesmo, então limito-me a usar em português somente os nomes que já estão mais do que consagrados em nossa língua.

Having said that, também ressalto que começo a escrever sobre “Fables” aqui no blog a partir de seu sexto volume encadernado, “Homelands”. Para quem não sabe absolutamente nada sobre o título, no entanto, aqui vai uma palinha: “Fables” narra a história de dezenas de personagens de contos-de-fadas e clássicos literários que, tendo suas terras encantadas tomadas de suas mãos pela figura conhecida como Adversário, não encontram solução alguma para permanecerem vivos senão buscar refúgio em nosso mundo, construindo assim a comunidade chamada Cidade das Fábulas (Fabletown) em plena Nova York. A premissa pode parecer semelhante à do seriado “Once Upon a Time”, exibido por aqui pela Sony Entertainment Television, mas se levarmos em conta que “Fables” começou a ser publicado nos Estados Unidos em 2002, fica bem claro para nós qual trabalho se espelhou diretamente no outro.

Plano de fundo: Com Branca de Neve e Bigby Wolf (Lobo Mau) fora da prefeitura de Fabletown, o recém-apontado prefeito da comunidade, Príncipe Encantado, tem de encarar um grave problema: Boy Blue, o braço direito do gabinete por gerações, está desaparecido, tendo levado consigo dois itens mágicos de extremo valor - a capa azul e a espada Vorpal. O que ninguém sabe, no entanto, é que Boy Blue acaba de viajar secretamente até as Terras Natais (Homelands), mundo de origem de toda a população de Fabletown, em uma busca tanto de seu velho amor Chapeuzinho Vermelho quanto de uma maneira de trazer seu melhor amigo Pinóquio de volta à vida.

Em sua jornada solitária, Boy Blue deve cruzar as Terras de ponta a ponta se quiser atingir seus objetivos, caminho esse que o colocará frente a frente com criaturas e figuras importantes do império do Adversário e enfim revelará a verdadeira identidade daquele que  tomou boa parte do mundo das fábulas para si.

Paralelamente, Jack (João), outro personagem conhecido por todos, segue seu exílio de Fabletown em busca de fama e dinheiro em mais uma de suas tramoias que, como todos suspeitam, tem tudo para dar errado.

Papum: Se no arco anterior de “Fables” Bill Willingham optou por estender um conflito familiar em detrimento de um avanço relevante no enredo, “Homelands” coloca a série de volta aos eixos de forma muito boa.

Acompanhado pela arte incrível de Mark Buckingham mais uma vez, Willingham nos leva a uma jornada verdadeiramente épica ao narrar as aventuras de Boy Blue pelas Terras Natais, alterando inclusive a disposição regular de quadros   narrativos em busca de uma fórmula mais chamativa. Tal estratégia funciona bem ao quebrar o tradicional estilo quadro-a-quadro do mundo real e não delinear limites explícitos para as sequências do que se passa nas Terras Natais, em especial no começo da jornada de Blue. A alegoria das cenas dá o toque preciso de fantasia que o enredo pede, conduzindo o leitor a uma jornada que realmente entretém.

Diversos personagens são apresentados ou simplesmente revelados novamente, marca característica da série. Desta vez, no entanto, é mais fácil acompanhar o número de subtramas realmente relevantes e seus devidos protagonistas, o que nem sempre ficou claro em “Fables” devido a seu elenco insanamente grande. O que mais faz de “Homelands” um volume realmente essencial, porém, é a descoberta por trás do temível Adversário, uma escolha muito bem feita e trabalhada por Willingham. – SPOILER – Afinal de contas, quem suspeitaria do velhinho Geppetto e a complexa trama de acontecimentos envolvendo seus bonecos, que de simples cópias de regentes de cada território terminam por substituir seus originais?

Mais pontas soltas são deixadas aqui, é claro, mas ao contrário de outros títulos que tenho lido (em especial “The Books of Magic”), “Homelands” termina um arco e suas subtramas de forma sólida e até certo ponto conclusiva, deixando um caminho bem trabalhado para o próximo volume. É interessante também observar a jornada de Jack depois de a personagem deixar Fabletown e se dirigir a Hollywood, abrindo todo um enredo que, se perfeitamente plausível em dois capítulos em “Homelands”, tem imenso potencial para ser explorado (como de fato é nos spin-offs “Jack of Fables”. But more on that later).

‘Nuff said, now. Quem conhece a série “Fables” e gosta do trabalho de Willingham pode deixar seus comentários aqui e tratar de ficar ligado: “Fables” é certamente um dos títulos com os quais continuarei a trabalhar aqui em Streampunk! Para finalizar, deixo vocês com a rima infantil que deu origem ao protagonista de “Homelands” e um de meus personagens favoritos da serie “Fables”, Boy Blue:

Little Boy Blue

Little Boy Blue, come blow your horn,
  The sheep's in the meadow, the cow's in the corn;
Where is the boy who looks after the sheep?
   He’s under the haystack fast asleep.
Will you wake him? No, not I - for if I do, he’s sure to cry.




***

In a nutshell:

- Fables Vol. 6 - Homelands -
Thumbs Up: arte bela e constante de Mark Buckingham no mainstream do encadernado; origem do Adversário finalmente revelada; quadros criativos na alteração da dinâmica do enredo; interessante e promissora subtrama de Jack e suas aventuras em Hollywood;
Thumbs Down: arte ainda um tanto amadora de David Hahn no curta de Jack;