terça-feira, 30 de outubro de 2012

The Unwritten Vol. 2 - Inside Man

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

No texto de hoje, volto a falar sobre minha série em quadrinhos favorita na atualidade: "The Unwritten", incrível projeto do escritor Mike Carey em conjunto com o competente desenhista Peter Gross. Quem quiser saber mais sobre o título pode acessar minha postagem sobre o primeiro arco da série, "Tommy Taylor and the Bogus Identity", antes de se aventurar nos terrenos de sua sequência, aqui relatada após uma releitura feita especialmente para o blog, uma vez que acompanhei a obra pela primeira vez quando ela foi publicada no final de 2010. On to it, then!

Plano de fundo: Encurralado pela polícia ao ser o único sobrevivente do massacre na mansão Villa Diodati, Tom Taylor é transportado para a França e encarcerado na prisão Donostia sob pesadas acusações de homicídio. Ao seu lado está Richie Savoy, outro prisioneiro em transferência que não demora a fazer amizade com Taylor. A presença do jovem na penitenciária, contudo, atrai consigo grande atenção da mídia e qualquer deslize pode custar caro à imagem de Donostia e seu regulador, o durão oficial Chadron.

Paralelamente, movendo-se pelas sombras, forças misteriosas planejam invadir Donostia e eliminar Tom Taylor antes que seu potencial mágico aumente. O que elas não sabem, no entanto, é que os poderes de Tom começam a se manifestar rapidamente, e uma abordagem sutil já não está mais em pauta: para destruí-lo, será necessária uma iniciativa pesada e inescrupulosa que tomará a vida de qualquer inocente em seu caminho, e tal jornada pode enfim fazer despertar o arqui-inimigo de Tommy Taylor no mundo real de uma vez por todas.

Papum: Partindo do ponto onde "Tommy Taylor and the Bogus Identity" nos deixou, Mike Carey trabalha aqui a maneira como o mundo passa a enxergar Tom Taylor depois da terrível chacina realizada na mansão Villa Diodati. Assim sendo, o autor volta a fazer uso de quadros que remetem a fóruns virtuais e entrevistas com psicólogos para nos dar uma pitada de opinião publicada sobre Tom, e a discussão é válida: o que seria do mundo se Harry Potter não só provasse existir, mas se tornasse um criminoso? A premissa é muito interessante e amplamente explorada por Carey, tendo seu maior reflexo abordado através do regulador de prisão Claude Chadron, cujos filhos são simplesmente fascinados pelas aventuras de Tommy Taylor. Chadron detesta Tom por considerá-lo um usurpador de uma personagem amada pelas crianças e corrompê-la ao se tornar um criminoso, e a relação entre Chadron e seus filhos é intensa: participativo, ele faz tudo que pode para preservar a inocência das crianças ao participar de jogos teatrais relacionados a Tommy Taylor. Fazendo isso, ele próprio se refugia em um mundo doce onde o bem sempre vence o mal, mesmo que não entenda as consequências que isso tem em seus filhos, e em especial em Cosi, sua primogênita. A menina desenvolve tendências de psicose que a impossibilitam de discernir realidade de fantasia, legado do gênero literário frequentemente discutido entre especialistas. Tais subtramas só enriquecem a narrativa central e contribuem para uma conclusão tanto dramática quanto emocionante do primeiro enredo.


Igualmente efetiva é a jornada de "Inside Man" ao colocar Tom Taylor, Richie Savoy e Lizzie Hexam dentro de uma Stuttgart pronta para a Segunda Guerra Mundial. A habilidade de Peter Gross atinge seu ápice aqui, e Carey sabe perfeitamente como explorá-la. Através de visões do Jüd Suss (livro escrito por um alemão judeu ironicamente usado como inspiração para o filme mais anti-semita da história), Tom conhece o poder de distorção ao qual toda história está sujeita, levando-o a uma surpreendente descoberta com relação não só a seus poderes, mas a seu misterioso pai. Os quadros são belos e a arte-final impecável nas mãos de Jimmy Broxton, elevando ainda mais o alto patamar de referências estabelecido pelo título em cada um de seus capítulos. Entendê-las é uma tarefa que traz satisfação e uma ótima sensação de aprendizado aliado a divertimento, marca característica de outros grandes trabalhos do mundo dos quadrinhos. Nessa nota, também ganham destaque as mais uma vez brilhantes capas feitas por Yuko Shimizu, marcando presença em sua participação tão pontual dentro da série. O que resta, então, é o ímpar despertar de curiosidade que assola o leitor ao término de "Inside Man", interesse esse sabiamente explorado em volumes posteriores.

Agora 'nuff said. Sigam o blog e não deixem de acompanhá-lo!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 2 - Inside Man -
Thumbs Up: ótimo desenvolvimento de personagens centrais e adições ao elenco central; olhar interessante e profundo sobre o reflexo de perversão de uma obra através do arco Jüd Suss; mudança de focos narrativos eficiente; arte de Peter Gross vive todo seu potencial; abordagem sensível da distinção entre fantasia e realidade sob olhares infantis e adultos;
Thumbs Down: -----

domingo, 28 de outubro de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Stewart Kinnear
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller

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Yo! How's it going?

Hora de mais uma pitada de cinema aqui no blog Streampunk. A película da vez é o drama "Precisamos Falar Sobre o Kevin", baseado na obra homônima da escritora e jornalista norte-americana Lionel Shriver.

Plano de fundo: Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) é uma mulher taciturna e problemática marcada por feridas profundas deixadas por seu filho Kevin (Ezra Miller). Vivendo cada dia sem expectativa alguma, ela caminha entre sua dura realidade e as memórias familiares que tenta interpretar para entender o que de fato houve de errado com o menino, jornada essa que invariavelmente a fará entender o que também houve de errado com ela mesma e os motivos por trás da crueldade aparentemente incurável de Kevin.

Papum: "Precisamos Falar Sobre o Kevin" é um filme forte e intenso marcado por ótimas atuações de Tilda Swinton e Ezra Miller dentro de um enredo semi-linear repleto de flashbacks de fácil assimilação e interpretação, ainda que exija um pouco de atenção de seus espectadores. O resultado do trabalho realizado oferece um tom dramático que não deve agradar a todos, mas certamente é competente em seu propósito e deve assombrar a mente daqueles mais impressionáveis ou simplesmente puritanos por natureza. Having said that, é justamente na construção de seu elenco que a película brilha.

Eva é uma personagem complexa e depressiva cuja vida atual contrasta com seu passado energético e agitado de aventureira. Nesse ponto, Tilda faz um trabalho memorável ao realizar a transição da protagonista entre os períodos de sua vida e seus reais conflitos, desde sua juventude carefree à sua gravidez indesejada e o resultado final da crueldade de seu filho Kevin. O jeito peculiar como cuida de seu primogênito e o fardo que carrega no presente oferecem conteúdo e material o suficiente para Tilda justificar suas indicações a prêmios através de uma atuação incrível, funcionando perfeitamente na tentativa de tentar explicar ao espectador o que pode ter levado Kevin a realizar seu terrível ato niilista. Nessa nota, a estratégia da diretora escocesa Lynne Ramsay de sobrepor a cor vermelha em todos os tempos narrativos de sua protagonista é pontual e impactante, construindo no imaginário do espectador teorias sobre a violenta realização de Kevin até que ela seja de fato consumada no clímax do filme. A escolha de abertura com o festival espanhol La Tomatina, por exemplo, marca um forte início para a escolha em questão, oferecendo já de cara um ótimo insight sobre Eva que se estende por suas realidades pontuadas por objetos, luzes e roupas vermelhas onde e quando quer que esteja. Igualmente interessante é o jeito com que Ramsay filma suas cenas mais felizes em flashbacks trêmulos e desfocados que contrastam com a solidez e fixação de suas construções pessoais, estratégia eficaz para retratar como as memórias mais leves de Eva perdem a força diante dos vis acontecimentos desenrolados.

Ainda em atuações, tanto Ezra Miller (cujo trabalho em "As Vantagens de Ser Invisível" também é ótimo) quanto o pequeno Jasper Newell merecem elogios ao retratar o cruel e malicioso Kevin tanto em sua adolescência quanto infância, respectivamente. A leitura de suas atitudes é difícil por sua imprevisibilidade natural, abrindo espaço a ótimos diálogos com a personagem de Swinton que impressionam com seu tom desafiador e por vezes impessoal. As nuances de humor de Kevin e o jeito sádico como a criança prefere ser tratada oferecem uma profunda reflexão no processo de educação de um filho e um olhar curioso sobre a construção da maldade, aqui tratada não como algo imposto pela sociedade onde estamos inseridos, mas por falhas de caráter absolutamente intrínsecas em nosso ser. O que falta nesse cenário, então, é uma interação um pouco maior entre as personagens descritas e o marido de Eva e pai de Kevin, Franklin (John C. Reilly), cuja participação acaba limitada demais para uma figura paterna que se mostra curiosamente presente enquanto está em cena.

Por fim, outro elemento que chama a atenção em "Precisamos Falar Sobre o Kevin" é o distanciamento de Ramsay das cenas de violência mais explícita depois de arquitetar suas construções. Embora pessoalmente prefira violência psicológica à violência visualmente fortes, entendo que a escolha da diretora pode desagradar os espectadores sedentos de uma abordagem mais crua, mesmo que não estejam exatamente atrás de algo gory. Afinal, todas as menções e linguajar estão ali, levando o espectador a se perguntar se Ramsay optou por suas abordagens por preferências pessoais ou simplesmente por não saber como construir tais cenas de um modo justo para sua película. A dúvida é pertinente e legal de ser analisada, ainda que sua resposta possa vir apenas acompanhando o futuro dessa promissora diretora escocesa.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Precisamos Falar Sobre o Kevin -
Thumbs Up: atuações de Tilda Swinton e Ezra Miller; diálogos dramáticos de grande acuidade; forte discussão sobre caráter formado e caráter intrínseco; forte jogo de cores de Ramsay;
Thumbs Down: falta de profundidade na personagem de John C. Reilly; distanciamento e corte de cenas agudas podem desagradar alguns espectadores; 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

The Unwritten Vol. 1 - Tommy Taylor and the Bogus Identity

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross


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Yo! How's it going?

Desde o início do blog Streampunk tenho aguardado ansiosamente as postagens relativas à minha série em quadrinhos favorita ainda em publicação: "The Unwritten", escrita e desenhada pelos ingleses Mike Carey e Peter Gross respectivamente. O que me impedia de abordá-la aqui no blog, contudo, era o fato de ter começado a leitura do título há quase dois anos, logo quando a coleção começou a ser publicada nos EUA. Assim sendo, esperava escrever sobre ela a partir do recém-lançado sexto volume do projeto, tal como fiz com "The Sandman" e "Fables". Recentemente, no entanto, ao saber que a Editora Panini publicará a série sob o nome "O Inescrito", mudei de opinião e resolvi discorrer sobre o título após realizar a releitura de seus seis arcos publicados até agora só para trazê-los com maior competência e exclusividade a vocês. Sit back and enjoy, porque "The Unwritten" é uma jornada simplesmente incrível dentro do mundo da literatura tanto fantástica quanto puramente clássica que vale a pena.

Plano de fundo: Não há ninguém no mundo que não conheça o nome Tommy Taylor. Protagonista de treze livros infanto-juvenis de sucesso estrondoso, há anos o bruxinho carrega uma verdadeira legião de fãs simplesmente apaixonados por suas aventuras mágicas escritas pelo autor Wilson Taylor. Isso não significa, porém, que seu legado seja unânime: para Thomas Taylor, filho de Wilson na qual seus livros se baseiam, a personagem sempre fora um estorvo, frequentemente impedindo-o de viver sua própria vida. Para piorar, Tom ainda carrega consigo a marca do súbito e inexplicável desaparecimento de Wilson, ódio que custa a cessar ao mesmo tempo em que o prende ao trabalho de seu pai.

Seguindo mais uma vez a monótona rotina de circuitos de eventos temáticos Tommy Taylor, o que espera Tom novamente são centenas de autógrafos, fotografias e boas doses de frustração. Isto é, até uma estranha estudante chamada Lizzie Hexam indagá-lo publicamente sobre sua verdadeira conexão com os Taylor. Subitamente abalado e polemizado, então, Tom embarca em uma viagem para saber mais sobre seu passado e sobre quem realmente é, iniciando assim uma jornada que pode ter revelações incríveis: seria ele o verdadeiro filho de Wilson ou a complexa materialização da personagem Tommy Taylor? O tempo urge, e nas sombras de seus questionamentos, figuras misteriosas começam a colocar em ação um fantástico plano que pode destruir completamente o rapaz e mostrar ao mundo o verdadeiro poder e uso real da ficção.

Papum: "The Unwritten" é uma verdadeira joia dos quadrinhos modernos. Dinâmica, criativa e inteligente, a série tem conquistado grande espaço na mídia em questão e é apontada por muitos como o melhor título em andamento na atualidade. Sou obrigado a concordar em gênero, número e grau com aqueles que pensam assim: as aventuras de Tom Taylor não só são intrigantes como refletem e misturam um mundo inteiro de referências literárias e as conecta sobre um mesmo tear de acontecimentos de modo incrivelmente sensível. Não são centenas de alusões indecifráveis que estão em cena (vide "A Liga Extraordinária"), mas sim um número bem menor que parece muito mais pontual e até mesmo coerente.

Primeiramente, como qualquer um pode ter notado, a popular personagem Tommy Taylor é baseada na famosa figura de Harry Potter tanto física quanto literariamente. Afinal, ele também estuda em uma escola de magia, é acompanhado por dois amigos (Peter Price, referência à Ron Weasly, e Sue Sparrow, a Hermione Granger da série) e frequentemente combate o cadavérico Conde Ambrosio (ou Lord Voldemort, se preferirem). Mike Carey é brilhante ao trazer segmentos dos "livros" de Tommy Taylor dentro de sua história, usando camadas narrativas dignas dos maiores autores de quadrinhos dos últimos anos (vide o arco "World's End" de "The Sandman"). A construção de tais personagens é forte tal qual o fez J.K. Rowling, contando ainda com estratégias precisas para tornar plausível o fato de Tommy Taylor ser tão famoso: há sonoridade nos nomes, cicatrizes mágicas, bichos de estimação fantásticos e até mesmo filosofia em cada um de seus volumes fictícios. Com um desenvolvimento tão bom, é até surpreendente que Tommy Taylor seja apenas secundário na trama, que segue o verdadeiro e adulto Thomas Taylor e o ódio que ele carrega da criação de seu pai, remetendo-nos instantaneamente à figura de Cristopher Robin, filho de A. A. Milne (autor dos livros Winnieh the Pooh) que por muitos anos criticou publicamente seu pai por ter usado sua figura como protagonista de seus livros e assim roubado sua infância. A mescla é perfeita e qualquer um que goste de literatura é instantaneamente prendido ao trabalho de Carey como poucas vezes vivenciei, dando início a uma montanha-russa de acontecimentos que ganham dimensões incríveis.

Seguindo o ponto de partida introdutório e tendo seu conflito iniciado ao questionar a identidade de seu protagonista, "The Unwritten" leva Tom atrás de pistas que podem solucionar seu passado. O que vemos então é mais um jogral de referências formidável que leva a personagem ao lugar onde seu desaparecido pai escrevera os livros Tommy Taylor: a mansão Villa Diodati, mesmo casa onde John Milton tivera a ideia para "O Paraíso Perdido" (argumento fictício) e Mary Shelley criara "Frankenstein" (argumento factual), obras de importância ímpar na história da humanidade. O que o espera ali, no entanto, são tanto revelações quanto perigos, já que a temível organização conhecida como Cabala está atrás dele. Tais motivos são revelados posteriormente, é claro, mas o que fica em "Tommy Taylor and the Bogus Identity" é a sensação de que algo realmente sólido fora construído, o que posso adiantar que realmente é afirmado no decorrer da série, fazendo sua leitura simplesmente obrigatória para qualquer fã de fantasia.

Ao término do último capítulo do arco, entra em cena um competente one-shot sobre a vida de Rudyard Kipling (autor de "Os Livros da Selva", protagonizado por Mogli) e seu envolvimento com a misteriosa cabala que séculos depois incomodaria Tom Taylor. Diversos autores renomados participam do ótimo enredo (em especial Oscar Wilde e Mark Twain), misturando acontecimentos factuais como a prisão de Wilde e morte dos filhos de Kipling com elementos conectados à terrível Cabala. O resultado é incrivelmente potente, e a conexão entre suas reviravoltas e Wilson Taylor é precisa e marcante, abrindo espaço para um incrível potencial narrativo que a série realmente não desperdiça em seus volumes posteriores. But more on that later.    

Em uma nota final, ficam também elogios não só a Mike Carey, mas à arte simples e precisa de Peter Gross. Sua escolha como desenhista é pontual, muito influenciada pelo fato de o artista ter trabalhado com a série "The Books of Magic", mas aqui seu trabalho é ainda melhor do que durante a série criada por Neil Gaiman. Quadros relativos aos livros de Tommy Taylor remetem verdadeiramente a livros, enquanto a narrativa é feita de modo mais convencional, ainda que abra espaço para discussões virtuais sobre os acontecimentos da trama através de janelas de internet e fóruns fictícios no meio do enredo, estratégia muito usada por Frank Miller e seus quadros televisivos em "O Cavaleiro das Trevas". Por tudo isso, então, não deixe de conferir "O Inescrito" quando seu lançamento acontecer, e prepare-se para uma jornada única dentro do mundo da metalinguagem e metaficção.


Agora 'nuff said. Começo aqui minhas postagens sobre "The Unwritten" que devem ocupar bastante o blog nos próximos dias, mas faço a releitura com muito prazer e consideração. Há 2 anos a série me conquistou e tem me impressionado com sua engenhosidade, então fico feliz de reler seus volumes para abordá-los aqui no blog. Continuem a seguir a página e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 1 - Tommy Taylor and the Bogus Identity -
Thumbs Up: enredo engenhoso repleto de referências inteligentes; alusões perfeitas na construção de seu elenco de personagens; camadas de histórias de Carey que impressionam; arte pontual de Peter Gross; criatividade em estilos narrativos que é sempre acentuada durante a série; personagens mágicos extremamente reais;
Thumbs Down: -----

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo

Direção: Bennett Miller
Roteiro: Steven Zaillian e Aaron Sorkin
Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Phillip Seymour Hoffman

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Yo! How's it going?

Hora de mais cinema aqui no blog Streampunk. Depois de escrever sobre o excelente "As Vantagens de Ser Invisível" (em cartaz no cinemas), trago a vocês "O Homem que Mudou o Jogo", película estrelando Brad Pitt que recebeu seis indicações ao Oscar deste ano, nelas incluídas as categorias de melhor filme, melhor ator principal (Brad Pitt) e melhor ator coadjuvante (Jonah Hill).

Plano de fundo: Billy Bean (Brad Pitt) é um ex-jogador de baseball que trabalha como gerente geral da equipe Okland Athletics. Depois de uma ótima temporada em 2001 com sua modesta folha de pagamento, o dirigente encontra um grande problema na reformulação de seu elenco para a temporada seguinte: suas maiores estrelas são negociadas com clubes maiores, e o orçamento dos Athletics continua mais uma vez reduzido.

Viajando pelo país em busca de bons negócios, Bean se depara com Peter Brand (Jonah Hill), um jovem recém-formado em economia na universidade de Yale que tem uma visão peculiar do esporte baseada em estatísticas, performances numéricas e projeções matemáticas. Acreditando piamente no trabalho de Brand, Bean inicia assim uma estratégia polêmica em sua equipe que pode simplesmente mudar a cara do baseball como um todo ou afundá-lo de vez em sua curta carreira.

Papum: Se há alguns que pensam que filmes cujo tema central é o esporte não têm muito mais a oferecer, fico feliz que "O Homem que Mudou o Jogo" tenha, trocadilhos a parte, realmente mudado tal cenário. Afinal, diferente do esperado, o longa não é a típica histórica de jogadores renegados que recebem mais uma chance, tampouco uma história de superação depois de obstáculos quase intransponíveis. "O Homem que Mudou o Jogo" trata de mentalidade esportiva em sua definição mais verdadeira, e o trabalho realizado por Bennett Miller com base no livro "Moneyball" (título do longa em inglês) é pontual e efetivo, digno de almejar premiações como de fato aconteceu.

Logo de início, somos apresentados à personagem Billy Bean através de focos faciais e trejeitos que começam a nos fazer entender sua personalidade. Quando entra em cena seu lado negociador, então, Brad Pitt dá vida à personagem de modo impressionante, e tem início aí uma jornada inesperada que o leva a encontrar um parceiro para mudar as estratégias de administração de sua equipe. Como em qualquer empresa ou mesmo clube esportivo, no entanto, mudar uma filosofia de trabalho estabelecida há tanto tempo não é fácil, e Bean encontra muitos percalços logo de cara. Traçando um paralelo com o cenário futebolístico brasileiro, são dinossauros de mentalidade atrasada que ainda imperam, servindo de bloqueio para que o esporte possa avançar e assim realmente melhorar. Brasileiros ou norte-americanos, dirigentes são irredutíveis em seus conceitos e ideias retrógradas, formando assim o primeiro e maior problema na reestruturação de um clube. Assim sendo, Bean tem que ser insistente e turrão para poder transmitir as ideias nas quais acredita, sendo forçado a eliminar algumas laranjas podres de seu grupo para poder de fato fazer com que seus subordinados comecem a acreditar em seu projeto. O que entra em cena, então, é o compromisso de dois homens com um ideia fixa e sua crença inabalável no que ela pode implicar, mesmo que sua base matemática e estatística seja caçoada por outros e seu trabalho quase ridicularizado.

Auxiliando Brad Pitt em seu caminho está Jonah Hill, ator cujo talento confessor nunca ter valorizado muito. Aqui, porém, não há como ignorar que há foco em seu trabalho ao invés da habitual verborragia irriquieta que o ator costuma demonstrar em quase todos os seus filmes, o que deve sim ser visto com bons olhos. Sua performance não chega a realmente justificar uma indicação ao Oscar, vejam bem, mas é bom saber como o ator pode render muito mais nas mãos de uma equipe mais competente. Somado a isso, Miller demonstra sensibilidade na interação de suas personagens e na montagem de uma trilha sonora eficaz e precisa para seu enredo, além de contar com uma edição verdadeiramente primorosa. Não é de se assustar, então, que o filme foi tão bem aceito lá fora, ainda mais por ser um retrato factual: não só Billy Bean é real como todos os jogadores mostrados já passaram pela MLB (Major League Baseball), ilustrando com verossimilhança a enorme façanha atingida pelo dirigente e seu time há quase uma década. Para saber mais sobre ela, no entanto, abro espaço para que assistam o filme e entendam por si só como é tentar mudar um esporte de dentro para fora, e o insight do mercado esportivo oferecido por "O Homem que Mudou o Jogo" é sem dúvida algo digno de ser observado.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- O Homem que Mudou o Jogo -
Thumbs Up: performances sólidas de Brad Pitt e Jonah Hill; focos faciais de grande expressão e diálogos estruturados; edição e montagem extremamente coerentes; trilha sonora sutil, mas pontual; propósito do filme alcançado com maestria;
Thumbs Down: ----- 

sábado, 20 de outubro de 2012

As Vantagens de Ser Invisível

Direção e roteiro: Stephen Chbosky
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd

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Yo! How's it going?

Devo confessar que já se passaram alguns meses desde que deixei uma sala de cinema realmente comovido. Vagando entre blockbusters divertidos e películas pseudo-profundas, nada de relevante realmente se apresentou, e assim o segundo semestre de 2012 caminhava. Isto é, até a estreia de "As Vantagens de Ser Invisível", dirigido e escrito por Stephen Chbosky, o próprio autor do livro "The Perks of Being a Wallflower", no qual o longa se baseia. Sem delongas, então, trago um pouco da maravilhosa experiência adolescente que certamente marca este até agora pouco inspirado término de ano por aqui.

Plano de fundo: Charlie (Logan Lerman) é um jovem quieto e retraído que está prestes a ingressar no ensino médio. Sua incomum personalidade, no entanto, é fruto de feridas em seu passado que parecem irremediáveis: a morte de sua tia e o recente suicídio de seu único e melhor amigo.

Contrariando suas próprias expectativas, porém, o que Charlie encontra nessa nova etapa de sua vida é um fim provisório para sua exclusão, tendo nos meio-irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) seus primeiros amigos verdadeiros depois de meses de solidão. Juntos, os três agora trilham uma jornada de aprendizado, amor e amadurecimento sexual que pode salvar Charlie de seus fantasmas ou fazê-lo sucumbir diante deles de uma vez por todas.

Papum: Certo, sempre fui um sucker para filmes adolescentes que realmente tratam seus protagonistas com a profundidade e inteligência que merecem. Infelizmente, porém, o que inunda o cinema atual são comédias coming of age que parecem não ter fim em seu apelo sexual, piadas repetidas ou falta de conteúdo. Nesse cenário, então, "As Vantagens de Ser Invisível" é um tesouro que não deve ser necessariamente guardado, mas sim exposto aos quatro cantos para que sua beleza, delicadeza e coração comovam e construam uma juventude sensível para entender seus problemas e corajosa o suficiente para enfrentá-los. Afinal, problemas são justamente o que não faltam na adolescência de qualquer um.

Através de uma narrativa em primeira pessoa altamente pessoal e dinâmica, Charlie realiza uma viagem magistral no processo de reflexão e crescimento adolescente que aborda os problemas mais intrínsecos do período em questão e os posicionam como obstáculo perante os maiores bloqueios do protagonista, uma personagem construída de modo complexo e comovente pelo ótimo Logan Lerman. Assim como muitos, Charlie não é um outcast por opção, mas sim pela maneira como o mundo o enxerga. Seus problemas são muitos, é claro, mas igualmente grande é seu desejo de ser notado, onde encontramos um paradoxo intrigante: enquanto a maioria dos jovens prefere passar despercebida, Charlie anseia deixar seu estado e isolamento, embora não consiga encontrar ferramentas para fazê-lo. É com muita coragem, então, que o garoto deposita suas esperanças no divertido Patrick, símbolo explícito de alegria jovial e prazer em viver. Tal encontro também proporciona a ele conhecer Sam, por quem Charlie se apaixona perdidamente, proporcionando o doce sentimento de infinito que ele jamais sentira. Além do óbvio despertar romântico do protagonista, no entanto, a garota é um poço de indecisão característico de sua idade, onde alegria, dor e medo se mesclam em uma mistura quase palpável e amplamente conhecida por Charlie. Afinal, é com isso que o garoto luta há muito tempo. Assim sendo, a química tanto entre as três personagens quanto entre os três atores é real e convincente, trabalhada com precisão através de diálogos afiados montados pelo ainda inexperiente Stephen Chbosky. Sua competência e compreensão das personagens que tem em mãos gera uma sinceridade e complacência incomuns, e aliados a simples e boas escolhas de ângulos, focos e enquadramentos, recebe ainda mais carisma e valor. Sua escolha de trilha sonora também faz bonito, posicionando suas personagens em tempos menos virtuais e mais pessoais de modo sutil e eficaz, remetendo-nos às décadas de 80 e 90 prontamente. Nesse ponto, ganha destaque a canção "Heroes" de David Bowie, tema principal do longa.

Ainda em temas, a construção do amadurecimento amoroso e comportamental de Charlie passa pelo mote que lhe é ensinado por seu professor de inglês avançado Bill Anderson (Paul Rudd): "aceitamos o amor que achamos merecer". Como em toda vida adolescente, a figura de Anderson não só como educador mas como modelo impulsiona a personagem, ainda que o garoto custe a entender o significado de tais palavras. Somente ao compreendê-las, contudo, é que ele também pode entender melhor a si mesmo, ainda que tenha que lutar contra traumas de infância que insistem em se manifestar. Sendo assim, entra em cena sua sólida família, disposta a ajudá-lo assim como o próprio garoto luta desesperadamente para não sucumbir.

Por todos esses motivos, então, "As Vantagens de Ser Invisível" é altamente recomendado a qualquer apreciador de cinema simples e atmosfera de juventude comovente e reflexiva. É uma pena que a distribuição do filme não contribua com sua divulgação, mas o esforço para vê-lo realmente vale a pena.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- As Vantagens de Ser Invisível -
Thumbs Up: desenvolvimento de personagens; performance incrível de seu elenco central, em especial com Logan Lerman e uma Emma Watson agora norte-americana; roteiro afiado e diálogos honestos; humor e drama em uma mistura ideal; dinamismo narrativo e profundidade reflexiva; referências literárias e musicais bem ricas;
Thumbs Down: -----    

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

The Sandman Vol. 8 - World's End

Autor: Neil Gaiman
Artistas: Bryan Talbot, Alec Stevens, John Watkiss, Michael Zulli, Michael Allred, Shea Anton Pensa, Gary Amaro

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Yo! How's it going?

Chegou a hora de mais uma dose mensal da série "The Sandman", escrita pelo autor inglês Neil Gaiman. Aqueles que a desconhecem por completo podem acessar minha primeira postagem sobre a franquia para conhecer o icônico trabalho de Gaiman que reverbera pela mídia há quase duas décadas, contribuindo significativamente para o amadurecimento e valorização do mundo dos quadrinhos enquanto forma de arte. On to it, then.

Plano de fundo: Brant Tucker e Charlene Mooney são colegas de trabalho viajando até Chicago. Uma tempestade acaba por desviá-los de seu destino original, provocando um acidente tão terrível quanto misterioso. Feridos, os dois caminham até a construção mais próxima, uma taverna cujo nome é World's End (Fim do Mundo).

Rodeados de figuras estranhas e folclóricas, Brant e Charlene fazem parte agora de um ritual peculiar de contos de mesa de bar, todos igualmente alegóricos e altamente surreais. O que eles e seus interlocutores ainda não sabem, porém, é a verdade sobre a taverna onde se encontram, e descobrir seu  propósito será uma viagem tão profunda quanto complexa que os mostrará um outro lado do grande quadro que chamam de realidade.

Papum: Yes, Neil Gaiman has done it again. Através de perspectivas singulares e contos que se abrem como verdadeiras pétalas de uma rosa, "World's End" leva o leitor a diferente mundos e realidades para sempre retornar ao ponto de origem entre uma e outra história, balanceando o timing de seus contos de modo impecável e abrindo espaço para uma digestão apropriada do que foi lido. Afinal, não é qualquer um que consegue escrever contos dentro de contos dentro de outros contos, e a habilidade de Gaiman no ramo é inquestionável, o que pode ser ainda ampliado com as ricas, embora sutis, referências literárias durante a obra. E elas existem. Ó sim, como existem, e qualquer conhecedor casual de Shakespeare,  Dickens e afins pode encontrá-las.

Trabalhando em uma forma consagrada de narração de contos em uma roda de personagens e remetendo claramente ao genial trabalho de Geoffrey Chaucer em "The Canterbury Tales", Gaiman mescla originalidade e elementos conhecidos para montar suas histórias com solidez e desenhá-las sobre um plano entre mundos e realidades que impressiona em seu clímax e desfecho. Para que tal feito seja atingido, nada melhor do que diversos artistas para trabalhar com o autor, resultando em uma estratégia muito efetiva: cada conto é ilustrado por um desenhista diferente, mas sempre que o foco retorna à taverna/pousada World's End, Bryan Talbot retoma o fio da meada condutora para iniciar seu novo plano. Tal sequência é realizada durante as seis edições que montam a coletânea e o arco "World's End" em si, e como de costume, Gaiman guarda suas maiores reflexões para o final da obra, o ponto para explicar (ou não) o que todas aquelas personagens têm em comum e o porquê de estarem ali. O produto final é louvável e tocante, mais uma vez remetendo a um senso de insignificância humana perante o tear do universo, assim como realizado em "Brief Lives". Aqui, porém, a profundidade é ainda maior ao vermos que não são só humanos que analisam a si mesmos, mas até mesmo personagens vindos de mundos de fadas ou mortos. A reflexão culmina, então, na tempestade que os juntou na taverna, em um acontecimento que ecoa por todas as realidades e os faz estar ali. Há um funeral e a presença de Morte e Destino, e embora ninguém saiba o que de fato jaz no caixão, a tempestade cessa e todos devem voltar para casa. Levando em conta seu conteúdo, é possível termos duas interpretações: esse é o funeral de Orfeu, filho de Morpheus falecido no arco anterior, ou é uma realidade que acaba de morrer, e o balanceamento das restantes acaba de ser feito, tal como a série infanto-juvenil Withern Rise/Aldous Lexicon prega tão simploriamente em seu capítulo final, "The Underwood See". Diante de um prospecto de tamanha dimensão, é natural que qualquer forma de vida se torne pequena.

Outro fator que merece destaque no trabalho de Gaiman aqui é sua habilidade e variação linguística para tratar de suas personagens. Vindas de mundos e épocas diferentes, cada uma tem seu vernáculo e vícios de linguagem, muito bem desenvolvidos pelo escritor. Igualmente bem planejada é a jornada dentro de cada conto, que por vezes abre caminho a mais um conto dentro daquele, estratégia dificílima que poderia por em risco todo o balanceamento da obra. Contudo, Gaiman é inteligente e não se perde em seus fios, saindo triunfantemente de cada conto para retornar ao abrigo seguro da taverna antes de recomeçar.

Por fim, fica apenas uma indagação: seria "World's End" realmente parte de "The Sandman"? Embora intrigante e inteligente, tenho a sensação de que o arco não tem uma conexão muito clara com a personagem que protagoniza a franquia, o que pode por em dúvida sua presença na coleção. Isso não quer dizer que a obra é dispensável ou ruim, vejam bem. Ressalto apenas que talvez Gaiman tenha usado seu título já conhecido para escrever histórias que dificilmente ganhariam atenção caso inteiramente novas, o que é de fato interessante. Mesmo assim, em termos de continuação, fico com a impressão que pouco foi adicionado à mitologia da personagem central, o que torna seu rumo futuro ainda mais incerto. A única certeza que temos é que, com Morpheus ou não, as histórias de "The Sandman" são particularmente ricas, e isso ninguém pode negar.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Sandman Vol. 8 - World's End -
Thumbs Up: staff de desenhistas em plena harmonia com o intuito de Gaiman; histórias tão criativas quanto complexas; clímax potente e grandioso; referências literárias que engrandecem a obra;
Thumbs Down: falta de uma conexão forte com o restante da franquia;

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

The Houdini Box

Autor: Brian Selznick
Ano de publicação: 1991


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Yo! How's it going?
 
Hoje trago a vocês um pouco sobre o incrível trabalho do autor de livros infantis Brian Selznick. Dono de uma escrita simples e cativante e traço realmente bonito com hachuras e muitas linhas, o autor norte-americano recentemente ganhou atenção da mídia quando teve uma de suas obras adaptada para as telonas, o ótimo "A Invenção de Hugo Cabret". O livro sobre o qual discorro hoje, no entanto, é o primeiro trabalho de Selznick, "The Houdini Box", que também ganhará uma adaptação ao cinema muito em breve.

Plano de fundo: Victor é um menino de dez anos que sonha em ser um escapista assim como seu maior ídolo, o grande Harry Houdini. Por mais que tente, no entanto, o garoto é simplesmente incapaz de reproduzir qualquer truque de sua grande aspiração, e acaba pagando caro por isso de vez em quando.

Não é de se espantar, então, que a infância de Victor muda subitamente quando ele encontra Houdini em pessoa em uma estação de trem, e o mago promete lhe enviar uma carta relatando todos os seus truques. Tem início aí a viagem de ansiedade e inocência de Victor até que ele descubra o que Houdini de fato pretendia, e a jornada do garoto deve ser levada com paciência para poder ser compreendida. Afinal, ela implica em crescer, e único remédio para tal problema é o próprio tempo.

Papum: Devo confessar que meu interesse em "The Houdini Box" surgiu a partir de uma súbita curiosidade em saber mais sobre Harry Houdini depois de ler alguns artigos sobre o escapista meses atrás. Isso não significa que a obra em questão é uma biografia, vejam bem. "The Houdini Box" é um livro curtíssimo de descrições e narrativas simples extremamente voltadas ao público infantil. Mesmo assim, diversas curiosidades estão presentes em suas páginas e desenhos, e o trabalho de Brian Selznick é tocante e emotivo, fazendo de sua leitura uma experiência que vale a pena.

Aproveitando-se do passado de sucesso da fantástica figura de Houdini, Selznick constrói uma história que tem em sua simplicidade toda a doçura capaz de prender seus leitores mirins com um senso descritivo pueril e poignant. Victor é uma personagem ingênua tal como qualquer  criança de sua idade, e sua relação repentina com seu ídolo é estabalecida como uma base motivacional muito forte para o desenrolar da trama. Na verdade, Houdini é uma figura apenas coadjuvante no enredo, e é sobre sua carta e legado que "The Houdini Box" realmente trabalha. Legado esse, aliás, que é inserido ao contexto desenhado de modo verossímil para impulsionar seu protagonista em uma viagem de amadurecimento que, ao contrário do esperado, acaba por atravessar diversos anos e por fim encontrar um Victor adulto que não é mais uma figura ingênua, mas sim paterna. Tal transição tem consequências fortes em sua maneira de enxergar o mundo, mas somente isso consegue proporcionar à personagem conhecimento o suficiente para entender o que está por trás da caixa que Houdini lhe deixara, resultando em um clímax terno e sólido para o livro.
 
Se a escrita de Selznick é consistente e entende o público ao qual se dirige, o mesmo pode ser dito de sua arte significativa. A opção por não utilizar cores em seu trabalho pode pesar para um envolvimento mais abrangente do público infantil, mas o traço de Selznick é tão real e concreto que mesmo suas proporções incomuns e cenários hachurados são capazes de conquistar não só crianças, mas adultos também. Apesar de ainda pouco experiente com trabalhos autorais na época em que escreveu "The Houdini Box", Selznick já mostrava inventismo e inteligência dignas de grandes autores de literatura infantil, podendo ser levemente comparado a Alan Milne (Winnie the Pooh) e Beatrix Potter (The Tale of Peter Rabbit), embora seus focos narrativos e propósitos sejam diferentes. Por essas razões, então, não é surpresa saber que "The Houdini Box" deve ganhar uma adaptação aos cinemas em pouco tempo, e o novo trabalho pode sim ser digno de mais uma indicação ao Oscar, principalmente se tivermos alguém do calibre de Martin Scorcese como cabeça do projeto.
 
Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima! 
 
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In a nutshell:
 
- The Houdini Box -
Thumbs Up: traço e enredo envolventes de Selznick; sensibilidade perante seu público-alvo, sem menosprezá-lo em instante algum; curiosidades sobre Houdini inseridas de modo sutil e natural;
Thumbs Down: um pouco mais de material teria elevado ainda mais o nível do enredo; 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

The Island of Dr. Moreau

Autor: H.G. Wells
Ano de publicação: 1896


"The study of Nature makes a man at last as remorseless as Nature"


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Yo! How's it going?

Para muitos, o nome Herbert George Wells é amplamente debatido como um dos pais do gênero que viemos a conhecer como ficção científica. Autor de livros como "A Máquina do Tempo" e "O Homem Invisível", Wells se estabeleceu no final do século XIX como um dos grandes nomes da literatura inglesa através de suas ideias avançadas e histórias cuja ficção futurística não relata apenas avanços da humanidade, mas sim um verdadeiro senso de regresso. Nesse sentido, "The Island of Dr. Moreau" (ou "A Ilha do Dr. Moreau")  é um de seus trabalhos de maior consagração, um curto e impactante livro sobre a supressão da animalização do ser humano e sua tendência a retornar a seus instintos mais primitivos. O romance foi adaptado às telonas diversas vezes, tendo sua última versão produzida em 1996 estrelando Marlon Brando e Val Kilmer. Pois bem, é justamente sobre tal livro que escrevo em minha postagem de hoje, então sit back and enjoy.

Plano de fundo: Edward Prendick é um cientista e biólogo que está a bordo da embarcação Lady Vain quando ela colide contra um navio abandonado. Escapando através de um bote salva-vidas, Prendick e mais dois passageiros encontram-se à deriva no mar por dias a fio, até o bote ser resgatado por uma misteriosa escuna logo depois de dois de seus companheiros terem seus destinos selados.

Encontrando companhia no misterioso passageiro chamado Montgomery, Prendick se recupera de seu estado febril enquanto a escuna se aproxima de seu local de destino. Obrigado a desembarcar com a carga da embarcação ou simplesmente deixá-la em alto-mar, Prendick é acolhido a contra-gosto por Montgomery, descendo até a ilha com todos os animais a bordo da escuna: animais esses que servem como cobaias para as vis experiências do velho Dr. Moreau, cujo cruel e insano legado está prestes a ser revelado.

Papum: "The Island of Dr. Moreau" é o terceiro livro que leio de H.G. Wells. Previamente, tive a oportunidade de ler tanto "The Time Machine" quanto "The Invisible Man", ambas obras que realmente marcaram tanto a história da literatura quanto meu acervo literário ainda crescente. Pois bem, "The Island of Dr. Moreau" não fica atrás de nenhuma delas, contendo em seu dinamismo e tensão narrativa conteúdo o suficiente para impressionar e servir como estudo comportamental humano por ainda mais anos a vir.

Desde o momento em que Edward Prendick desembarca na ilha do Dr. Moreau e são traçadas as primeiras descrições de seus habitantes (descrições essas detalhistas por parte de Wells), sabemos que não estamos diante homens normais. Seus maneirismos e trejeitos peculiares são escancarados, assim como seus portes físicos ameaçadores. Não é uma surpresa, então, que descubramos que não são homens que estão perante Prendick, mas sim animais vítimas de vivissecção nas mãos do Dr. Moreau, tornados humanos tanto física quanto mentalmente, ainda que apresentem uma série de desvios naturais. Como é de se esperar, consequentemente, é aí que a obra de Wells realmente brilha.


As criaturas montadas por Moreau tentam ser humanas e respeitam o código estabelecido como Lei de acordo com o que prega o louco cientista. Mesmo assim, a inevitável dominância do instinto sobre a razão acaba por surgir, como de fato é a tendência não só com os animais modificados de Moreau, mas com o ser humano em si. Como a própria personagem prega, "o que chamamos de educação moral é uma modificação artificial e perversão do instinto; beligerância é treinada a ser auto-sacrifício e sexualidade suprimida à emoção religiosa". Ser humano e evoluir é lutar contra os instintos animais que ainda mostramos justamente por sermos animais, e só assim os bichos de Moreau podem chegar próximo de um padrão de ser humano. O que vemos nos habitantes da ilha, então, é justamente isso: a Lei funciona como ensinamentos quase religiosos que bloqueiam instintos tentando oferecer algo etéreo, e quem não respeitá-la receberá dor como punição. Medo, então, é o que move essa pequena sociedade animalesca, cuja ruptura está a espreita com instintos em ebulição.

Levando em pauta ainda a discussão sobre dor, Moreau ressalta inúmeras vezes que trabalhando com a natureza, um torna-se tão inescrupuloso quanto ela, e na verdade dor não passa de uma sensação vivida por seres inteligentes que buscam seu próprio bem, eximindo tal sentimento de qualquer forma de vida irracional. Dor nada mais é do que um estímulo, uma maneira de nos avisarmos que algo não corre bem, mas se não temos meios de interpretá-lo sem inteligência, ela pode ser ignorada, levando-nos a crer que a dor animal não merece ser levada em conta. Tal argumento é mais absurdo hoje do que na época em que foi escrito (ainda mais com a ampla existência de grupos de direitos de animais atualmente), mas não deixa de ser interessante, ainda que sórdido e nefasto.

Por fim, merece destaque também a transformação que Prendick passa em sua estada na ilha. Assim como os meninos de "O Senhor das Moscas" de William Golding, Prendick lentamente acaba por ver seus instintos animais aflorarem quando ele é privado de sua comodidades, e como ele mesmo descreve, até mesmo seus olhos refletem um brilho um pouco mais selvagem agora, fruto de um contato profundo com a essência animal que ele, enquanto evoluído, jamais imaginara existir. O que resta, então, é o fato de que ela está sim em cada um de nós, e basta circunstâncias especiais para que ela seja ativada, tornando-nos um pouco mais próximos das bestas das quais muitas evidências apontam que viemos.

Agora 'nuff said. Sei que demorei mais dias entre a última postagem e esta, mas achei bom guardar um novo tópico para hoje, o Dia dos Professores! Sendo assim, aproveito o espaço  para parabenizar meus amigos e colegas de trabalho cuja importância na vida de cada um vai além de uma sala e dentro do conhecimento e da evolução pessoal, tentando motivar e fazer pensar aqueles que, um dia, terão o poder de mudar as coisas para melhor.


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In a nutshell:

- The Island of Dr. Moreau -
Thumbs Up: reflexões sobre instinto, religião e evolução altamente produtivos; clima tenso de perigo e violência que prende o leitor; descrições precisas e ótimo nível de vocabulário por parte de Wells; personagens sólidos que servem o propósito do enredo perfeitamente;
Thumbs Down: -----

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Corvo

Direção: James McTeigue
Roteiro: Ben Livingston e Hannah Shakespeare
Elenco: John Cusack, Alice Eve, Brendan Gleeson, Luke Evans

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Yo! How's it going?

Segunda dose de cinema aqui no blog Streampunk esta semana. Depois de tratar do longa "Tão Forte e Tão Perto", volto hoje para falar sobre "O Corvo", terceira película baseada no poema homônimo escrito por um dos maiores mestres de histórias de terror de todos os tempos, o autor norte-americano Edgar Allan Poe.

Plano de fundo: Frustrado pelos rumos pouco satisfatórios que sua carreira tem tomado, o excêntrico escritor Edgar Allan Poe (John Cusack) retorna à cidade de Baltimore, Maryland, tentando se restabelecer e retomar seu caminho de sucesso com publicações locais. Além de seu latente estado de alcoolismo e constante atrito profissional, no entanto, o autor ainda tem de lidar com seu interesse pela bela e jovem Emily Hamilton (Alice Eve) e a aversão de seu pai durão, o Capitão Hamilton (Brendan Gleeson), dificuldades essas que teimam em deixá-lo estagnado e consequentemente improdutivo.

Quando uma série de homicídios baseados em contos previamente publicados de Poe começa a ser investigada na própria Baltimore, o inspetor Emmet Fields (Luke Evans) não vê saída senão buscar a ajuda do escritor para poder entender e desvendar a verdade sobre a identidade do assassino serial que assola a cidade. O problema é que sua próxima vítima é justamente Emily, e agora Poe e Fields devem correr contra o tempo se quiserem resgatar a amada do escritor antes que seu destino seja terrivelmente selado.

Papum: "O Corvo" pode até ser para muitos um longa intrigante e até mesmo divertido, repleto de referências interessantes a diversos trabalhos de Edgar Allan Poe para tentar atrair os leitores mais hardcore do escritor. No entanto, ao seu término, não há uma sensação de que aprendemos muito sobre o autor exceto as circunstâncias de sua morte (isso não é um spoiler, e sim a cena inicial do filme), o que torna toda a experiência um tanto quanto superficial e faz do filme não mais do que uma simples sessão pipoca com os amigos.

Contando com cenários que remetem ao século XIX que oscilam entre entre construções reais e computação gráfica mediana, "O Corvo" tem uma produção até que bacana para o desenrolar de sua história, mas seu roteiro não está a altura de poder inserir Edgar Allan Poe em seu meio, diferentemente da ótima história de Woody Allen no recente "Meia Noite em Paris", um pastiche divertidíssimo de autores cujas personalidades e excentricidades são retratadas de modo excelente. Aqui, John Cusack até faz um bom papel na caracterização física e supostamente comportamental de Poe, mas a humanização do escritor talvez tenha sido feita em demasia, removendo a mística de sua mente amplamente perturbada. Sua motivação amorosa não parece muito sólida e contrasta com o egoísmo e trejeitos de Poe, dando a entender que só está lá porque não havia opção melhor ou porque seus idealizadores queriam fazer de Poe um verdadeiro herói, o que pode ser altamente debatido.

Como sempre em filmes de assassinos seriais, a velha fórmula de pistas e correria também entra em cena aqui, tentando nos confundir quanto à identidade do assassino até as cenas finais do longa. O que ocorre, no entanto, é que sua revelação não é muito surpreendente, ainda que não seja totalmente previsível como o espectador pode achar em certo ponto. Mesmo assim, o suspense é conduzido de um bom modo nas mãos do australiano James McTeigue, ainda que o diretor não use a variação criativa ou filosófica mostrada em "V de Vingança", mesmo tendo material para tal. Aqui, o foco é inteiramente na perseguição do sujeito, e mesmo as boas citações de Poe acabam perdidas perante o objetivo central do filme, ao contrário do longa baseado na obra de Alan Moore, onde trama e conteúdo trabalham lado a lado. O uso de planos em slowmo é mais baixo aqui também, o que é certamente agradável dado a época em que a história se passa, ao contrário do que ocorreu no último filme de Sherlock Holmes estrelando Robert Downey Jr., onde a técnica é usada de modo abusivo e inescrupuloso.

Por fim, vale ressaltar também a tendência gore que o filme carrega em seu início e acaba explorada apenas levemente em seu decorrer. A promessa está lá logo de cara, mas não é seguida e pode resultar em decepções por parte do público que a tinha como importante. O que fica, porém, é a velha ambientação onde o plano do vilão é explicado detalhe por detalhe, mesmo sem uma verdadeira necessidade. Em contrapartida, a resolução do conflito é mais série e se utiliza de fatos reais para se construir, formando talvez a maior virtude do filme. Afinal, a morte de Poe é sem dúvida tão misteriosa quanto a verdadeira essência de seus maiores trabalhos.

Agora 'nuff said. Sigam o blog e continuem a acompanhá-lo!


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In a nutshell:

- O Corvo -
Thumbs Up: conexão entre enredo e fatos reais; conjunto de referências aos grandes trabalhos de Poe; clima noir quase victoriano; atuação sólida de John Cusack;
Thumbs Down: motivação do protagonista contrasta com sua personalidade; pouco conteúdo poético de verdadeira profundidade; enredo pouco inspirado e reviravoltas aceitáveis demais;    

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Fables Vol. 8 - Wolves

Autor: Bill Willingham 
Artistas: Mark Buckingham e Shawn McManus

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Yo! How's it going?

Como de costume todo mês em Streampunk, minha postagem de hoje é sobre mais um arco da série "Fables". Desta vez, trago a vocês o encadernado "Wolves", oitavo na ordem cronológica da franquia. Aos interessados em saber mais sobre essa divertida história que mescla personagens literários altamente consagrados, basta acessarem meus textos sobre "Homelands" e "Arabian Nights (And Days)" para saberem um pouco mais sobre a coleção.

Papum: Mowgli, o menino lobo, continua sua busca incansável por Bigby Wolf (mais conhecido por nós como o Lobo Mau). Afinal de contas, toda a comunidade de Fabletown precisa de seu velho xerife durão para se preparar para a batalha que está por vir, e sua presença é indispensável para o plano de intimidação que o Príncipe Encantado preparou contra o Adversário.

Enviado ao Reino das Nuvens através de um dos mágicos pés-de-feijão, Bigby terá que descer em território inimigo e confrontar o Adversário cara-a-cara se pretende voltar a ver sua amada Branca de Neve, um encontro que não ocorre desde antes do nascimento dos filhotes dos dois. O caminho para fazer isso acontecer, no entanto, é repleto de perigos que testarão as habilidades de Bigby ao extremo, assim como seu maior medo. Sim, o grande Lobo Mau tem pavor de alturas.

Plano de fundo: "Wolves" é talvez o arco mais burocrático da série de Willingham e Buckingham visto até agora. Isso não quer dizer que seu enredo é ruim, mas sim pouco inspirado e altamente previsível, baseado ainda em um senso de fan service que não acrescenta muita dramaticidade ao grande tear de acontecimentos da franquia.

Conduzindo sua trama a partir de uma escrita leve e simples (com exceção talvez dos bons diálogos entre Mowgli e outros lobos), Willingham traz ao seu enredo o divertido Reino das Nuves e o famoso Pé-de-feijão dos contos-de-fada para usá-los como motivadores e condutores do retorno de Bigby ao mainstream da série. Isso é benéfico pelo carisma da personagem, é claro, mas sua volta acontece de modo facilmente aceitável, e mesmo sua interessante missão nas Homelands (Terras Natais) não passa a sensação de perigo iminente algum, ao contrário da empreitada de Boy Blue no arco "Homelands". Partindo desse ponto, o curto enredo ainda é encerrado em uma nota "felizes para sempre" digna de contos-de-fada, é claro, mas talvez precipitada. Entendo que o encontro entre Bigby e Branca de Neve era um dos momentos mais aguardados para os leitores de "Fables", mas a facilidade da resolução dos conflitos não dá o verdadeiro sentimento de triunfo que muitos esperavam visualizar.

Ainda em uma nota artística, Buckingham também é burocrático em seu trabalho em "Wolves", e não há sequer os belos painéis narrativos de outrora. Talvez isso seja consequência de prazos ruins, mas a pouca inspiração do artista pesa perante os ótimos quadros e sequências desenhados por ele anteriormente. A arte-final simplória de Steve Leiahola também contribui para o momento oscilante da franquia, mas é de Willingham e Buckingham que a franquia realmente depende, e o arco "Wolves" não traz de volta a qualidade vista em trabalhos anteriores.

Por fim, resta o one-shot de Cinderella no Reino das Nuves desenhado pelo veterano de "The Sandman" Shawn McManus, cujo traço é mais limpo aqui do que na macabra e profunda série de Neil Gaiman. Sua entrada é positiva e seu traço merece respeito, mas ao final de sua história, também não conseguimos entender direito qual é a intenção do pequeno arco perante a série inteira, o que pode ser detalhado nos volumes por vir. O que resta por enquanto, então, é a sensação de que "Wolves" poderia ter sido mais, e não apenas um medidor para enredos que estão por vir.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Fables Vol. 8 - Wolves -
Thumbs Up: retorno de Bigby Wolf à série; boas sequências com Mowgli ganhando destaque; interessante espiada nas alianças que Fabletown começa a forjar;
Thumbs Down: burocracia do arco; fan service exagerado; pontas soltas que não são exatamente novidades; falta de aprofundamento em algumas novas personagens (em especial Sarah, namorada de Bigby);

domingo, 7 de outubro de 2012

Tão Forte e Tão Perto

Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Eric Roth
Elenco: Tom Hanks, Thomas Horn, Sandra Bullock, Max von Sydow, John Goodman

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Yo! How's it going?

Depois de ficar ausente por alguns dias, retorno ao blog hoje para falar de cinema: em específico, o longa "Tão Forte e Tão Perto", nomeado ao prêmio Oscar de 2012 nas categorias de melhor filme e melhor ator coadjuvante.

Plano de fundo: Oskar Schell (Thomas Horn) é um garoto tão genioso quanto genial. Dotado de um intelecto incomum e pouca sociabilidade, ele vê em seu pai Thomas (Tom Hanks) mais do que um verdadeiro ídolo e modelo, mas sim um grande e verdadeiro companheiro. Quando o fatídico dia 11 de setembro toma Thomas como uma de suas inúmeras vítimas, o que resta a Oskar é um buraco que parece ser impossível de curar. Isso é, até o menino descobrir uma misteriosa chave dentro de um vaso no closet de seu pai.

Seguindo dicas deixada por Thomas, Oskar embarca em uma viagem pelas ruas de Nova York atrás da fechadura a ser aberta por sua chave recém-encontrada na tentativa de se aproximar de seu falecido pai, conhecendo tanto as histórias daqueles que o rodeiam quanto descobrindo a si mesmo e como sua perda pode ser superada.

Papum: Altamente questionado por sua nomeação para o Oscar deste ano, "Tão Forte e Tão perto" é sem dúvida um filme que se empenha em ser dramático e comovente o bastante para ser merecedor de fulgurar entre os longas mais aclamados do ano. Infelizmente, porém, sua insistente tentativa de impressionar soa um tanto falha e desconexa graças a seu ritmo descompassado e inconstância narrativa, ainda que suas personagens tenham potencial o suficiente para nos fazerem derramar uma lágrima ou duas.

Dirigido pelo já experiente em nomeações Stephen Daldry ("Billy Elliot", "O Leitor"), "Tão Forte e Tão Perto" se apoia na dor de seu protagonista mirim para construir um enredo que sirva de esperança e mensagem de superação relativa tanto a perdas pessoais quanto à ferida sofrida pelos norte-americanos no atentado terrorista de 2001 (diga-se de passagem, o longa foi produzido exatos 10 anos após o incidente). Sua escolha de abordagem de Oskar, no entanto, logo joga contra sua proposta e compromete o andar da mensagem: ao construir sua personagem com um certo senso de autismo, Daldry acaba por distanciar seus espectadores de Oskar e colocar em dúvida o que realmente está em jogo para o menino. Não sabemos ao certo se o garoto sofre mais devido a sua perda ou devido a seus distúrbios repentinos e mudanças de temperamento, técnicas amplamente usadas em Hollywood para adquirir a simpatia de espectadores em relação a personagens principais. Isso não tira o brilho do trabalho do pequeno Thomas Horn, é claro, mas acaba por desvalorizar o conflito do filme e o desenvolvimento de sua personagem, mesmo que dê margem a uma ou duas boas cenas (o desabafo de Oskar ao inquilino de sua avó, interpretado pelo nomeado ao Oscar Max von Sydow, é forte e intenso). Igualmente discutível é a estratégia de fazer de von Sydow um personagem mudo, complicando ainda mais a relação entre ele e Oskar pelo bem do melodrama. Por que apenas um personagem complexado se podemos ter dois?

Having said that, resta ainda o problema de identidade que o filme carrega. Alternando entre  focos pessoais e um trabalho humano mais amplo, "Tão Forte e Tão Perto" não decide qual rumo realmente quer seguir, seja ele o de contador de histórias ou contador de uma história em específico. As cenas e subtramas de Oskar enquanto ele conhece sua cidade a medida que conhece a si mesmo são interessantíssimas (tanto em cores mais vivas como personalidades e histórias únicas), mas a quebra sofrida por elas para malcriações do garoto diminuem seu potencial e desaceleram o bom andar de suas descobertas, resultando em um desenvolvimento não gradual, mas repentino ao final do longa. A emoção está lá, vejam bem, mas não como poderia, e a superação do menino não parece mais um triunfo, mas sim a resolução inevitável de um plano que há muito havia sido traçado.

Agora ´nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Tão Forte e Tão Perto -
Thumbs Up: cores e planos na exploração de Nova York e seus cidadãos; atuações de Thomas Horn e Max von Sydow;
Thumbs Down: falta de identidade clara; super-dramatização de seu enredo;