quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Y - O Último Homem

Autor: Brian K. Vaughan
Artisita: Pia Guerra

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Yo! How's it going?

Semana passada marcou o término da publicação da premiada série em quadrinhos "Y - O Último Homem" aqui no Brasil. Como iniciei o blog Streampunk a apenas duas edições do término da mesma, esperei sua conclusão para abordá-la como um todo, e não arco a arco. Sendo assim, hoje falo um pouco mais do incrível trabalho de Vaughan e Guerra que conquistou o mercado durante seus 5 anos de publicação, assim como parabenizo a Panini por levar a coleção a sério e tê-la publicado em sua íntegra, fato incomum entre nossas editoras.

Plano de fundo: Quando uma tragédia misteriosa causa o genocídio mundial de todos os seres machos do planeta, os únicos sobreviventes são o jovem Yorick Brown e seu macaco capucino Ampersand. Vivendo em uma sociedade agora completamente alterada, Yorick busca respostas para a extinção repentina do cromossomo Y no planeta, jornada que o fará conhecer membras de órgãos governamentais secretos, cientistas visionárias e até mesmo rebeldes fanáticas que o colocarão em risco a todo instante em sua jornada até sua namorada Betty, vista pela última vez no outback australiano. Afinal, todas querem o último homem, tanto vivo quanto morto.

Papum: É com muita satisfação que abordo "Y - O Último Homem" depois de ver sua conclusão publicada no Brasil sob um trabalho tão bem feito como o realizado pela Panini. Todos os dez arcos da coleção receberam ótimo tratamento editorial e boas traduções para se lançarem ao mercado, fazendo da série um marco de publicação de quadrinhos aqui em nossas terras que não víamos desde o concluído "The Sandman". Isso certamente nos anima a comprar novos títulos, é claro, uma vez que o medo de possuir séries incompletas ainda deixa qualquer leitor com a pulga atrás da orelha.

Partindo de uma premissa que pode não ser tão original (pelo menos no âmbito literário), mas nem por isso deixa de ser intrigante, Vaughan constrói "Y" a partir de seu foco em Yorick Brown de modo eficaz: protagonista, Yorick é cheio de referências pop durante todos os arcos, além altamente divertido. Suas relações com suas parceiras de viagem Agente 355 e Dr. Mann também são igualmente bem montadas, e Vaughan é esperto o suficiente para criar várias teorias de como os homens foram extintos até finalmente se concentrar na verdadeira lá pela metade da série, trabalhando com cliffhangers que deixam o leitor ávido pelo próximo volume. Ainda nessa nota, é impressionante como plot twists parecem fáceis na mão do autor, alterando o jogo frequentemente com o intuito de adicionar uma boa e benvinda pitada de imprevisibilidade em seu trabalho. Subtramas também têm importância durante a coleção, que consegue sim encerrar todas as suas pontas ao seu final, mostrando um planejamento e competência ímpar de Vaughan ao montar sua teia de histórias. Somadas a isso ainda há discussões entre ciência e religião que elevam o nível da obra em diversas análises sobre a morte dos homens, assim como incríveis olhares de diferentes perspectivas sobre sociedades completamente matriarcais que ora distinguem-se totalmente de suas antecessoras e ora reproduzem o mesmo tipo de vida conduzido no passado governado por homens, abrindo as portas de "Y" para realmente qualquer público.

O tempo inteiro ao lado do escritor está a desenhista Pia Guerra, escolha ideal para ilustrar a franquia. Esboçando um número absurdo de personagens femininas, o traço limpo e fortes expressões faciais de Guerra consegue distinguir cada membro de seu elenco facilmente, e embora seus quadros não possuam muito dinamismo em sequências de ação, os planos de diálogos e conflitos internos são realmente ótimos. Igualmente interessante é ver como as personagens são alteradas durante os quatro anos que se passam do começo ao final da série dentro de seu universo, fazendo com que seus designs mudem frequentemente: cortes de cabelo, barba, postura e até mesmo olhar. A preocupação com tais pormenores é verossímil e impressiona, tornando a obra ainda mais especial do que ela é. Por esses e outros motivos, então, "Y - O Último Homem" é recomendado tanto a fãs de quadrinhos quanto àqueles que simplesmente gostam de ler uma boa história, lembrando ainda que com o sucesso da adaptação de "The Walking Dead" às telas, "Y" certamente está nos planos de qualquer chefe de estúdio para uma versão live-action, seja na televisão ou nos cinemas.

Agora 'nuff said. Quem tiver interesse em adquirir a série pode acessar o site da livraria Comix e iniciar sua busca. A coleção vale a pena, então não percam tempo e divirtam-se com a divertida (ou distorcida) visão de um mundo governado inteiramente por mulheres que parece mais real do que pensamos.

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In a nutshell:

- Y - O Último Homem -
Thumbs Up: roteiro redondo de Vaughan até o final da série; referências pop divertem; personagens carismáticas e bem construídas; arte mais do que apropriada de Pia Guerra; divertido insight da maneira como mulheres conduziriam o mundo inteiro, reproduzindo até mesmo guerras da extinta sociedade patriarcal; plot twists que renovam a série constantemente; clímax impactante e preciso;
Thumbs Down: -----

terça-feira, 27 de novembro de 2012

The Unwritten Vol. 5 - On To Genesis

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

Terminando minha sequência de releituras da série "The Unwritten" para deixar esta página cada vez mais atual, hoje falo sobre o quinto volume encadernado da coleção, "On To Genesis". Daqui em diante minha frequência de postagens sobre as aventuras de Tom Taylor deve cair um tanto, já que agora o blog também acompanha o ritmo norte-americano de publicações, mas foi legal compartilhar em algumas semanas um pouco sobre a série que me conquistou há dois anos. Aos interessados, a melhor escolha para conhecê-la aqui é ler a postagem que fiz sobre seu primeiro arco, "Tommy Taylor and the Bogus Identity". De qualquer modo, aproveitando o título da história aqui abordada, on to business!

Plano de fundo: De volta ao mundo real com uma melhor compreensão de seus poderes, Tom Taylor, novamente acompanhado de seus escudeiros Richie Savoy e Lizzie Hexam, é surpreendido por um leilão de artigos pertencentes ao seu falecido pai. Entre eles está o diário de Wilson Taylor, uma série de textos que ajudarão Tom a entender os motivos por trás de sua criação e o passado sombrio e misterioso de Wilson. Adquirir o objeto será uma tarefa perigosa, contudo, e a Cabala dos Inescritos logo se vê obrigada a colocar em prática seu mais hediondo plano até agora se quiser tirar Tom de seu refúgio: o assassinato de toda e qualquer pessoa com quem o rapaz já tivera contato.

Papum: Começando por seu título duplamente interpretativo, "On To Genesis" tem como objetivo tanto revelar o passado do autor Wilson Taylor para que Tom descubra quais foram os propósitos de seu pai durante sua incomum criação quanto definir a nota e caminho que Tom deve traçar para derrotar seus inimigos. Nessa linha, é a ontogênese (ontogenesis, em inglês) da personagem que é ilustrada, como uma das análises do título bem sugere: um olhar sobre como Tom foi desenvolvido por Wilson desde o início para se tornar o que está prestes a ser. Sob a mesma ótica e com o interessante jogo de alteração entre memórias e realidade realizado por Carey, também vemos a ontogênese da primeira criação de Wilson em um cenário mais antigo, na década de 30, quando o escritor se relaciona com a autora de quadrinhos Miriam Walzer. Merece destaque aqui notarmos como a Cabala passa a se interessar pelo poder dos quadrinhos enquanto histórias potencialmente abrangedoras, referência clara do surgimento da era de ouro da mídia em questão e motivo pelo qual Wilson, naquela época membro do misterioso culto, é enviado até Miriam Walzer com o propósito de eliminá-la. A metalinguagem é óbvia e muito bem elaborada por Carey, contando mais uma vez com a mão precisa de Peter Gross para realizar suas transições temporais e quadros altamente pessoais.

Ainda sobre o título que o arco carrega, a frase "On To Genesis", se escrita separadamente como de fato está, simboliza a transição e sequência na jornada de Tom Taylor até a completa gênese de seus até então latentes poderes, agora completamente desenvolvidos para que o rapaz busque vingança diante dos horrendos crimes cometidos pela organização que o persegue. Sendo assim, "On To Genesis" abre caminho para um mar de conflitos intensos  que deve se iniciar no sexto arco da série, "Tommy Taylor and the War of the Words", que abordarei em breve e com exclusividade aqui no blog.

Diferentemente de seus predecessores, porém, "On to Genesis" não conta com nenhuma história curta em seu término. A ausência de tal é bem sentida pelo leitor, acostumado com a troca de cenário e espantado pelo curto tamanho do quinto arco da série, mas nem por isso chega a ser algo taxativamente negativo. Afinal de contas, com a jornada de Tom pelos diários de Wilson e o novo aparecimento do monstro de Frankenstein em seu meio, o arco contém sim muito recheio e subtramas dignas de manter a coleção "The Unwritten" no topo do mercado editorial de quadrinhos atual. Se você é amante de histórias, não há como ignorar o que "The Unwritten" tem a oferecer à sua curiosa e insaciável vontade de ser transportado. 

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 5 - On To Genesis -
Thumbs Up: passado de Wilson Taylor revelado; ótimo olhar sobre a criação do mito Tom Taylor; ótima conversação de meios com a apresentação da personagem Tinker, reflexo do crescimento e relevância do mundo dos quadrinhos para a Cabala; drama e aventura na medida certa; desfecho intrigante que promete a verdadeira transformação de Tom em herói;
Thumbs Down: -----

domingo, 25 de novembro de 2012

The Sandman Vol. 9 - The Kindly Ones

Autor: Neil Gaiman
Artistas: Kevin Nowlan, Marc Hempel, Glyn Dillon, Charles Vess, Dean Ormston, D'Israeli, Teddy Kristiansen

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Yo! How's it going?

Depois de um certo tempo sem falar de "The Sandman" aqui em Streampunk, volto à série em minha postagem de hoje para discorrer sobre o nono e penúltimo encadernado da coleção, intitulado "The Kindly Ones". Quem tem interesse em saber um pouco mais sobre o brilhante trabalho de Gaiman que certamente mudou o mundo dos quadrinhos desde sua publicação pode acessar meu primeiro texto sobre a coleção abordando o quinto arco do título, "A Game of You".

Plano de fundo: As Fúrias estão reunidas, e seu plano começa a tomar corpo; afinal, sem seu bebê Daniel, Lyta Hall já não tem mais motivos para viver, ficando à deriva entre realidades até ser recrutada pelas três calculistas entidades em seu plano de derrubar o rei do mundo dos sonhos, Morfeus (ou Morpheus, no original). Paralelamente, uma série de eventos caóticos envolvendo anjos renegados, deuses nórdicos e os outros Perpétuos (Endless) também chega a atenção de Sonho, que agora se prepara para terríveis e inevitáveis acontecimentos que estão além de suas mãos, mas dentro de suas responsabilidades.

Papum: Sabendo previamente que "The Kindly Ones" é o penúltimo arco da coleção inteira de "The Sandman", qualquer análise ou abordagem da obra ganha uma perspectiva diferente e interessantes pontos de vista para o seu vasto e complexo conteúdo. Afinal, o que não falta no encadernado são justamente eventos importantes, mesclando diversos personagens que já haviam dado as caras durante a série e colocando-os em caminhos que se interligam, culminando assim em um resultado tão arrebatador quanto inevitável para o notório Morpheus.


Resgatando logo em seu início as já famosas personagens Lyta Hall e seu filho Daniel, "The Kindly Ones" expande o zelo da mulher por seu bebê e logo de cara cumpre a promessa feita por Neil Gaiman em volumes anteriores: o destino do garoto sempre estivera marcado, fato pelo qual Lyta inexoravelmente repudia o deus dos sonhos. Aqui, então, finalmente vemos o tear de acontecimentos se desenrolar, conduzido magistralmente por Gaiman em viagens de delírio e subjetividade de Lyta desde o momento em que Daniel desaparece até depois de seu recrutamento perante as Fúrias. Alegoria e intensos diálogos abstratos permeiam a trama central, pontuada em diversos momentos por subtramas igualmente interessantes: Lucifer, Remiel, Loki e Odin fazem aparições muito agregadoras em paralelo, ajudando-nos a compreender o escopo do que está prestes a acontecer e os impactos que o fato há de provocar. Nesse meio tempo, o mundo dos sonhos ganha um olhar peculiar através de seus habitantes em pânico e de um agora depressivo Morpheus, que não se recuperou ainda da morte de seu filho Orfeu.


Para narrar todo o dinamismo e convir o senso de loucura que "The Kindly Ones" tenta transmitir, a escolha de Marc Hempel como desenhista central do arco é certamente interessante. Dono de um traço de fortes contornos e poucos pormenores, focos faciais ganham muita importância, assim como um contraste de cores simples que torna qualquer sombreamento direto e forte. Aliás, todos os planos traçados contam com bastante vivacidade, e embora entenda que o traço de Hempel pode não ser bonito em termos proporcionais na maioria de seus quadros, sua escolha casa com a frenética montanha-russa apresentada por Gaiman de modo sutil e eficaz. Igualmente eficientes, então, são as citações e referências que o autor inglês usa a partir de mitologia grega, poesias e prosas Edda e até mesmo trabalhos shakespearianos para dar corpo ao seu enredo, culminando na "tragédia" que reestrutura a personagem central de "The Sandman" de uma vez por todas - transformação essa já há muito anunciada com a frequente humanização do deus arco após arco, aqui consumada de vez. Por mais que tentara o contrário, desde seu emprisionamento e maior contato com humanos, Morpheus constantemente adquiriu traços e preocupações terrenas que o distanciavam cada vez mais de seus irmãos Endless e o posicionavam em um plano de constante transição entre questionamentos etéreo e reais, uma era tão próxima quanto inevitável. Tal realização é justamente o ponto mais alto de "The Kindly Ones", que termina abrindo o caminho para o que acredito que sejam as primeiras viagens de Morpheus sob sua nova representação, redefinindo seu papel no panteão de deuses e consumando sua imortalização e relevância cultural tanto quanto ícone divino em seu universo enquanto importante figura simbólica para nós.

Ainda em uma nota artística, merecem destaques os artifícios narrativos usados por Gaiman tanto para começar quanto para encerrar sua história: são as Fúrias que a iniciam e a terminam com referências claras de como inícios são muito mais complicados que términos - referência ao que irá acontecer e o que de fato aconteceu ao final do volume. Também é interessante notar como a página-título da maioria dos capítulos contidos em "The Kindly Ones" é representada por construções, constantemente alterando o foco narrativo e entrando no "reino" de cada personagem como se estivéssemos espiando por atrás do portão as reviravoltas que estão prestes a ocorrer. Por esses e outros motivos (muito maiores do que tenho a pretensão de analisar), "The Kindly Ones" é tanto o maior quanto mais impactante arco de "The Sandman" desde seu lançamento, ainda que eu particularmente prefira uma mescla mais sonora de história real com os predicamentos de Morpheus do que os rumos altamente metafóricos que Gaiman assume aqui. Mas isso é uma questão de gosto, e a competência de Gaiman jamais esteve em questionamento.

Agora 'nuff said. Sigam o blog e até a próxima!


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In a nutshell:

- The Sandman Vol. 9 - The Kindly Ones -
Thumbs Up: redefinição do mito antes de sua canção de cisne; subtramas relevantes e imensamente ricas; dinamismo narrativo e personagens tão interessantes quanto complexas; referências mitológicas encorpadas e bem aproveitadas; clímax muito bem estruturado;
Thumbs Down: grande uso de metáforas e subjetividade que limita o público do arco; arte de Marc Hempel não deve agradar a todos, mesmo que cumpra seu papel pontualmente; 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

007: Operação Skyfall

Direção: Sam Mendes
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan
Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Ralph Fiennes, Javier Bardem, Naomie Harris


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Yo! How's it going?

Em minha postagem de hoje, trato do vigésimo terceiro filme da mais longa franquia cinematográfica na história do cinema - 007: Operação Skyfall, que celebra com grande estilo o quinquagésimo aniversário das adaptações da personagem criada por Ian Fleming às telonas do mundo inteiro.

Plano de fundo: Dado como morto durante uma missão mal-sucedida na Turquia, o agente secreto britânico James Bond (Daniel Craig) vive um momento de incomum paz em seus dias outrora tão tumultuados. Quando um audacioso ataque terrorista atinge impiedosamente a sede da MI6, no entanto, Bond deve deixar seu ostracismo temporário para mais uma vez servir seu país, desta vez em uma batalha que já não tem mais bandeiras e o posiciona perante um inimigo invisível disposto a por em cheque toda a existência do serviço secreto e o anonimato de seus agentes, tornando-os presas fáceis aos grupos terroristas mais terríveis do mundo.

Papum: Quatro anos após o lançamento do questionável "Quantum of Solace", o retorno do agente 007 aos cinemas vem de forma sólida e bem construída em um filme que não tem só como objetivo homenagear a franquia, mas sim estabelecer quais devem ser os próximos passos dado por ela em um mundo onde gostos cinematográficos e ambientações de conflito tem mudado drasticamente e com velocidade assustadora. Nesse sentido, pode soar redundante falar que "Operação Skyfall" é o filme mais moderno de James Bond, mas a verdade é puramente essa, tanto em uma análise de seu enredo quanto de seu espírito principal.


Sem apresentar conexões diretas com os outros dois longas estrelados por Daniel Craig, "Operação Skyfall" ao menos abre em estilo parecido com os últimos filmes da franquia: uma fantástica cena de perseguição que culmina em um abertura desta vez ainda mais subjetiva que suas antecessoras, mas de brilho ainda maior. Não só a canção composta por Adele casa com o tema do filme como a sequência de imagens e animações escolhidas por Mendes dão um tom surreal bonito e vibrante para o início da película, fazendo a apresentação de rostos, cenários e até pormenores do enredo de modo inventivo e artístico. A partir dela, então, o público deixa de lado a sequência alucinante vista minutos antes para aceitar de bom coração o desenvolvimento progressivo do enredo que começa a ser traçado, estratégia muito inteligente de Mendes na construção e coesão de seu filme.

Detalhar a trama é algo injusto com os futuros espectadores do longa, então prefiro me ater aos elementos mais relevantes da película como um todo do que discorrer sobre seus plot twists. Having said that, a questão mais louvável durante "Operação Skyfall" é o jeito como sua equipe desenha uma narrativa que não é só nova, mas que reflete o período de transição inevitável que a série parece atingir. Como a própria personagem M (Judi Dench) aborda no filme, o mundo não vive mais um momento onde guerras carregam bandeiras, mas sim um tempo onde são as ameaças fantasmas que realmente importam. Tal argumento é amplamente debatido pela primeira-ministra da Inglaterra, que não vê mais uso de um serviço secreto como o comandado por M em face de tal inimigo, mas é justamente nisso que M se apoia: para derrotar um inimigo invisível, um serviço invisível se faz necessário, mantendo a importância do programa de agentes 00 inabalável. Pois bem, tal linguagem é uma clara referência ao novo cenário onde os mais recentes conflitos internacionais estão envolvidos, ambiente esse que contrasta muito com o velho espírito dos filmes de 007 e os torna quase obsoletos. Assim sendo, a reformulação vem de forma muito bem estruturada através de um vilão de motivações coerentes e background interessante inserido de forma eficaz à trama em um excelente trabalho do talentoso ator Javier Bardem. Aliás, é realmente incrível a interação do ator com Daniel Craig em seus diálogos, e igualmente interessante é a entrada grandiosa do vilão, realizada em uma tomada só nas mãos de Mendes.

Movendo-se no plano de fundo ainda temos divertidas referências aos filmes mais velhos da franquia através de carros, piadas com gadgets ultrapassados e ambientações que devem agradar os fãs de longa data e divertir o público mais moderno. Além de apresentar personagens já consagradas na franquia como Q e Moneypenny, o filme resgata conceitos antigos e os reconstrói como se os estivéssemos vendo pela primeira vez, ar inegável de que o rumo que a franquia tomará de agora em diante foi sim bem pensado e previamente estabelecido. Resta a nós, então, esperar o próximo filme de James Bond para saber se a coesa reestruturação feita com tanto cuidado foi realmente compreendida ou serviu apenas como fechamento de uma trilogia onde 007 é um agente que poderia muito bem existir no meio de nós.

Agora 'nuff said. Para as fãs da série James Bond que gostam de incorporar looks baseados em filmes em seu cotidiano, o divertido e sempre criativo blog Zestfest tem ótimas sugestões para uma uma representação digna de verdadeiras Bond girls! Vale a pena conferir!


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In a nutshell:

- 007: Operação Skyfall -
Thumbs Up: revitalização muito eficiente da série; ótima motivação por trás de um vilão realmente interessante nas mãos de Javier Bardem; enredo sólido e redondo; progressão narrativa sensata; abertura visualmente fascinante;
Thumbs Down: interação entre Bardem e Craig não tem um bis; personagem de Bérénice Marlohe parece um tanto perdida no enredo;   

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

The Unwritten Vol. 4 - Leviathan

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

Hora de mais um pouco sobre a série "The Unwritten" aqui no blog. Realizada a releitura do quarto arco da série, deixo aqui mais uma leva de impressões sobre aquele que considero o melhor título em quadrinhos publicado na atualidade, razão pela qual resolvi reler os cinco arcos lançados anteriormente só para poder abordá-los aqui antes de seguir com o recém-lançado (e já adquirido) sexto volume encadernado da série. Quem quiser se inteirar melhor sobre as aventuras de Tom Taylor pode acessar meu texto sobre o primeiro arco da coleção, "Tommy Taylor and the Bogus Identity", para ter uma boa ideia do que está em jogo nessas aventuras tão deliciosamente fantasiosas.

Plano de fundo: Através das instruções pouco diretas dadas por Wilson Taylor antes que sua tragédia fosse consumada, Tom, Richie e Lizzie seguem em busca do elemento descrito pelo autor como a "fonte" dos poderes de Tom, representada na forma de uma baleia. A viagem não demora a levar Tom ao incrível mundo do cetáceo mais conhecido da história: ao lado do capitão Ahab, Tom está diante de Moby Dick, e seu tempo dentro da história é essencial para que ele possa entender a verdadeira origem de suas habilidades. Paralelamente, Richie e Lizzie sofrem nas mãos da mais recente aliada da Cabala, uma velha de poderes estranhos que não irá parar até saciar suas dúvidas e saber ao certo qual é o lado mais vantajoso para ela na guerra de palavras que está para explodir.

Papum: Talvez o mais alegórico e subjetivo arco de "The Unwritten" até aqui, "Leviathan" é certamente um trabalho criativo repleto de referências inteligentes, sensibilidade narrativa e muita competência de sua equipe de criação em todo o seu desenvolvimento e inserção no contexto da já consagrada série. Mesclando novamente planos no mundo real e quadros dentro de outros livros, assim como visto em "Dead Man's Knock", Carey e Gross continuam a jornada de Tom Taylor de modo frequentemente inventivo e agora muito literário, realizando uma verdadeira viagem no plano da ficção e metalinguagem que continua a fascinar e prender o leitor com astúcia ímpar.

Seguindo as pontas deixadas por seu arco antecessor, "Leviathan" leva Tom Taylor em busca da origem de seus poderes como forma de compreensão do que realmente está em suas mãos e o que ele de fato pode realizar na batalha contra a Cabala que o persegue. Carey é muito feliz aqui ao não só inserir Tom ao mundo de Moby Dick como abordá-lo de modo extremamente fiel ao trabalho de Herman Melville, ideias que certamente foram difíceis de serem executadas. Ao invés de mexer com as personagens do modo que bem entende, assim como Alan Moore utiliza-se de personagens consagrados em "A Liga Extraordinária", Carey é fiel ao linguajar, trejeitos e costumes das obras que usa como base para poder realmente envolver tais livros de modo efetivo e sólido. Os quadros de Gross dentro do mundo de Moby Dick são igualmente competentes e dão a noção de época que a trama precisa, afunilando o enredo até o ponto crucial de "Leviathan" que tem revelações cataclísmicas e amplamente apropriadas à série: vindo do nome bíblico Leviatã, o monstro marítimo fora tido desde o começo por Tom como uma baleia. Contudo, Leviatã é algo maior que isso, como escrevera Thomas Hobbes em seu livro homônimo, e Tom só consegue entender o que o move ao ver por si mesmo o que forma a massa que leva o nome de Leviatã, fazendo assim uma interpretação muito interessante do trabalho de Hobbes em prol de uma revelação que redefine a personagem e a prepara para os desafios que estão por vir. A jornada é sublime e seu clímax poignant, digno dos melhores trabalhos já realizados na mídia dos quadrinhos até hoje.

Como de costume em todos os arcos de "The Unwritten", "Leviathan" também termina com um curta no mundo da ficção que nos traz de volta o coelho Pauly e sua tentativa de sair do lugar onde fora aprisionado, assim como pudemos ver ao término do arco "Inside Man". Há violência e temas adultos fantasiados de fábulas infantis, e a jornada de Pauly ganha uma interessante perspectiva ao sermos posicionados frente à guerra que o insano coelho pretende travar ao lado de seus estúpidos e inocente companheiros. O resultado destoa um pouco do volume inteiro, mas como fica claro aqui que Carey e Gross têm sim planos futuros para Pauly dentro do enredo central de "The Unwritten", não cabe julgamento algum do curta sem termos acesso ao grande tear que os britânicos têm traçado à personagem desde o início da série - e tudo indica que essa mistura será realizada muito em breve. Resta então torcermos para Carey manter seu jogo no nível em que já se estabeleceu para mais uma vez nos surpreender, cativar e divertir com a ótima trama e materiais que têm em mãos, todos muito bem cuidados até agora.

Agora 'nuff said. Sigam o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 4 - Leviathan -
Thumbs Up: metalinguagem inteligente e bem utilizada por Carey; arte continuamente crescente de Peter Gross; cenários e ambientações muito bem detalhados; desenvolvimento de personagens efetivo; clímax mais do que apropriado;
Thumbs Down: ----- 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Amanhecer - Parte 2

Direção: Bill Condon
Roteiro: Melissa Rosenberg, Stephanie Meyer
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Sheen, Dakota Fanning

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Yo! How's it going?

Depois de alguns dias de inevitável ausência aqui no blog Streampunk, volto hoje a todo vapor com uma postagem um tanto quanto polêmica; afinal de contas, discorro sobre um dos filmes mais controversos e aguardados do ano: "Amanhecer - Parte 2", quinto e último longa da saga vampiresca baseada nos romances best-sellers da autora norte-americana Stephanie Meyer cuja jornada cinematográfica foi iniciada em 2008 com a adaptação de seu primeiro e famigerado título, "Crepúsculo".

Plano de fundo: Com o nascimento da filha de Edward (Robert Pattinson) e Bella (Kristen Stewart) completamente consumado, assim como a própria transformação de Bella em vampira, uma nova ameaça está prestes a se apresentar aos Cullen: a família Volturi, grupo de maior poder e respeito entre todas as comunidades de vampiros existentes, não está contente com o surgimento de uma criança imortal, e agora viaja até Forks para punir os Cullen por seu hediondo crime em um conflito que há de selar o destino de seus membros de uma vez por todas.

Papum: Antes de qualquer coisa, acho bom deixar bem claro aqui que tentei ser um espectador de mente bem aberta ao assistir a todos os filmes da franquia "Crepúsculo". Afinal de contas, como trabalho de pesquisa literária e análise de mercado, eu realmente havia realizado a leitura dos quatro romances de Stephanie Meyer e, gostando deles ou não, sempre achara necessária uma avaliação pessoal dos livros para julgar seus respectivos filmes tanto enquanto adaptações quanto películas de valor cinematográfico. Pois bem, é então impressionante e igualmente triste constatar que o último filme da popular saga criada por Meyer é tão vazio quanto seus antecessores e manuscritos originais, não acrescentando absolutamente nada em qualquer âmbito social ou artístico possível e levando-nos a uma conclusão vazia que, convenhamos, poderia ter sido feita ao final do primeiro ou segundo longa da franquia sem problema algum.

Partindo exatamente do ponto onde havíamos sido deixados em "Amanhecer - Parte 1" e abrindo sua narrativa com uma escolha até que interessante de Condon ao contrastar vermelho e branco em planos sutis que ilustram a transformação de Bella em vampira, "Parte 2" nem precisa se esforçar para logo nos lembrar o tormento que é estar no cinema diante da habitual e absurda falta de argumento narrativo e interpretação forçada de seu elenco desde o início da franquia. De cenas toscamente montadas de Bella e Edward caçando juntos até o bebê Renesmee gerado por computação gráfica, não há diálogo ou acontecimento algum de real importância por dezenas de minutos no filme, ainda recheado de caretas e tentativas de frases de efeito que soam fracas e nada convincentes. Entre orgasmos ao maior estilo "Oba-Oba" de "The Sims" (com direito até a tímidos fogos de artifício) e mais de Jacob (Taylor Lautner) se despindo,  somos constantemente lembrados do absurdo que foi dividir um livro tão pobre quanto "Amanhecer" em dois filmes. Completamente atordoados pela maior lacuna criativa vista em uma franquia popular até hoje, apenas permanecemos sentados além da metade do filme porque já pagamos nosso(s) ingresso(s) e, sejamos sinceros, no fundo torcemos por alguma redenção de última hora. Nesse tempo, muita espuma é gerada ao redor da trama central, que assim como em seu livro base, tem mais uma vez conflitos gerados por mal-entendidos e falhas de comunicação que poderiam ser facilmente resolvidos. Com um pouco de otimismo, porém, aguardamos ao menos algum momento climático que dê uma pequena pitada de satisfação ao término de uma saga que se esgota sem deixar saudades, mesmo que tal momento inexista nos livros de Meyer. E vejam só, isso quase acontece. Quase.

Em um golpe de indubitável inconsequência e incompetência de Bill Condon e toda a sua trupe de produção criativa, "Parte 2" esboça em seu ato final um possível e benvindo distanciamento de seu fraco romance que, apesar de não fazer muito sentido (o discurso aleatório de Aro (Michael Sheen) sobre tecnologia ilustra muito bem isso), ao menos satisfaz a maior parte do contrariado público presente com acontecimentos enfim marcantes que têm relevância no universo criado. Não afirmo aqui que mortes são essenciais a uma boa trama, mas certamente o mundo maravilhoso e idílico de Bella e Edward pode sim ser abalado com uma tragédia ou duas antes de sua conclusão, ao contrário do final completamente diplomático do romance "Amanhecer". Condon, muito "esperto", realiza nosso desejo parcialmente, logo em seguida sabotando a liberdade criativa que tomara e jogando ao fundo do poço qualquer coisa boa que fora construída ao longo dos cinco penosos filmes produzidos até então. Sim, senhoras e senhores, refiro-me a um final digno de redações primárias terminadas em sonhos capaz de arrancar suspiros de indignação dos mais brandos espectadores, o que não é fácil. Depois de tamanha avacalhação, sobram letreiros de pseudo-comoção com o término da saga que emocionam somente as mais ávidas "crepusculetes" país afora, que acredito e espero terem crescido o suficiente para ter um olhar um pouco mais crítico daquilo que assistiram. Gosto não se discute e defendo tal ponto de vista piamente, mas é impensável acreditar que pessoas possam defender uma série como essa sob pontos de vista um pouco mais técnicos: contando com uma trama forçada, fraquíssimo desenvolvimento de personagens, desfecho anti-climático, atuações ruins (com exceção de Michael Sheen, já que a muda Dakota Fanning não conta) e efeitos especiais dignos de piadas, "Parte 2" fica perto de alcançar a proeza de ser o pior filme na mais fraca franquia popular da história do cinema. E isso não é pouca coisa.

Agora 'nuff said. Sei que há fãs por aí doidas para me esbofetear agora, assim como criticar meu trabalho no único livro que escrevi até agora como forma de ataque pessoal. Querendo comentar neste blog ou em qualquer outra página, contudo, peço apenas que sejam pessoas educadas e mostrem argumentos interessantes para que boas discussões sejam geradas, o que é sempre enriquecedor. Insultos pessoais e frases como "se é tão ruim, por que não faz melhor?" ou "isso é inveja" não serão levadas a sério.

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In a nutshell:

- Amanhecer - Parte 2 -
Thumbs Up: abertura até que simpática; boa atuação de Michael Sheen;
Thumbs Down: pela primeira vez aqui no blog, abstenho-me de maiores comentários;

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

The Unwritten Vol. 3 - Dead Man's Knock

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

Acumulando diversas postagens diferentes sobre filmes e livros na última semana, acabei demorando mais do que o esperado para trazer ao blog mais um pouco sobre uma das melhores séries em quadrinhos em andamento: "The Unwritten". Hoje trago mais detalhes sobre o terceiro arco da série, "Dead Man's Knock", então quem tiver interesse em saber mais sobre essa excelente coleção pode acessar meu primeiro texto sobre a série e se familiarizar com o enredo inteiro.

Plano de fundo: Seguindo os acontecimentos trágicos na penitenciária Donostia, Tom Taylor continua em fuga mesmo depois de seu salto temporal de três meses. Paralelamente, porém, o lançamento do décimo quarto volume da série de Tommy Taylor está prestes a ser realizado, e com ele estão os planos da Cabala de destruir a imagem de Tommy perante o mundo, eliminando assim seu poder por completo. O que a vil organização não conta, contudo, é que Wilson Taylor, criador da personagem, também se mexe nos bastidores e está pronto para contra-atacar de forma magnífica, avançando em seu caminho de fazer de seu filho Tom a verdadeira personagem Tommy Taylor e assim posicioná-lo no caminho que o fará mudar o mundo, mesmo que o preço para isso seja caríssimo para o escritor.

Papum: Reler cada volume de "The Unwritten" para abordá-los aqui no blog não é obrigação alguma, mas sim um verdadeiro prazer. Mesmo já tendo conhecimento dos divertidos interessantes trilhados pelo enredo até agora, a releitura do título oferece insights curiosos e valiosos que ajudam em um compreendimento mais amplo da obra e, consequentemente, em um melhor proveito de sua leitura. E o que não falta ao arco "Dead Man's Knock" é justamente conteúdo e criatividade.

Começando de onde "Inside Man" havia nos deixado, Mike Carey abre "Dead Man's Knock" com o antecipado lançamento do novo livro de Tommy Taylor e eleva o jogo de sua obra ao flertar sobre as consequências do ato nos lados opostos de sua trama: previamente avisado sobre os planos da Cabala, o leitor acha que sabe o que está por trás do evento, e é aí que Carey mostra competência extrema ao adicionar um plot twist verdadeiramente eficaz e bem construído que tem consequências divertidas para nós e resultados importantíssimos dentro de sua história. Diversas coisas estão em jogo, e ao invés de a imagem de Tommy Taylor perder força com a farsa criada pela Cabala, ela é realçada através do plano do escritor Wilson Taylor, fazendo do trabalho de Carey algo realmente célebre: no auge de sua metalinguagem, Tommy Taylor torna-se uma figura messiânica dentro de seu enredo, e o ponto é crucial para entendermos o esquema que Carey traçara desde o começo de "The Unwritten". Ora essa, é na essência e poder das histórias que a obra é construída, algo que a Cabala usa há muitos séculos para descrever exatamente o caminho que a humanidade deve traçar a seu bel-prazer. Tommy Taylor é a arma fictícia criada por Wilson para combater tal inimigo, cujos membros agora se denominam "Unwritten". Nessa nota, é interessante saber que a tradução do título em português será "O Inescrito" quando deveria ser "Os Inescritos", já que adjetivos substantivados não recebem uma forma no plural no inglês, mas sim no português (por exemplo, "The Walking Dead", traduzido para "Os Mortos Vivos").

Sob um olhar estético de sua abordagem, "Dead Man's Knock" também é um marco para a série por mais uma vez ambientar perfeitamente suas personagens dentro do contexto histórico-narrativo onde estão inseridas. Se em "Inside Man" os quadros relativos à Segunda Guerra Mundial eram impressionantes, aqui Peter Gross faz bonito ao transportar Lizzie Hexam ao mundo dickensoniano de "Our Mutual Friend", construindo com competência o cenário necessário para seu foco com cores escuras e muitas hachuras. Igualmente feliz é a escolha de Carey de finalmente revelar a verdade sobre Lizzie ao construir um divertido capítulo "Pick-A-Story" que reflete muito bem a confusão de imagens da personagem ao mesmo tempo em que leva ao leitor um ar de inovação visto com raridade no mundo dos quadrinhos de hoje, que talvez havia visto tal inventividade bem empregada pela última vez no incrível Promethea, de Alan Moore. Por tudo isso, então, "Dead Man's Knock" é o melhor arco dos três já descritos aqui, e tenho fé que alguém da editora Panini possa acompanhar este blog para perceber o possível equívoco que eles estão prestes a realizar na tradução de seu título. Isso certamente seria bem legal.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 3 - Dead Man's Knock -
Thumbs Up: ambientação perfeita para o andar da história; revelações cataclísmicas dentro do arco; desenvolvimento de personagens criativo e coeso; arte constantemente ascendente de Peter Gross; mais trechos dos livros de Tommy intercalados com os predicamentos de Tom;
Thumbs Down: -----

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

The Casual Vacancy

Autora: J. K. Rowling
Ano de publicação: 2012


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Yo! How's it going?


É com grande prazer e uma satisfatória pitada de exclusividade que abordo em minha postagem de hoje o novo livro da escritora mais popular do século XXI: "The Casual Vacancy", de J.K. Rowling (que como qualquer mortal sabe, é a autora por trás da saga de Harry Potter). Mesmo com o lançamento da obra no Brasil marcado para o dia 12 de dezembro sob o altamente debatível título de "Morte Súbita", acho legal poder antecipar um pouco do que se passa nesse projeto que, como sua própria campanha de marketing prega, é um grande romance para uma cidade pequena. E como é.

Plano de fundo: Quando Barry Fairbrother padece vítima de um inesperado aneurisma cerebral, não é só sua tragédia que ocupa as mentes dos habitantes da pequena cidade de Pagford. Na verdade, com o posto de Barry no Conselho da Cidade subitamente vago, tem início uma impiedosa disputa de interesses entre a cúpula administrativa de Pagford cujas proporções se expandem por todos os cantos do lugar, trazendo à tona uma verdade irrefutável: Pagford é uma cidade em guerra não só política, mas altamente moral em cada um de seus núcleos familiares e sociais.

Papum: Foi com muita ansiedade e apreensão que adquiri "The Casual Vacancy", irremediavelmente curioso sobre a maneira com que J. K. Rowling daria sequência em sua carreira em um universo que não envolvesse a familiar escola de magia e bruxaria de Hogwarts ou que não tivesse bruxos mirins como protagonistas de sua história. Nesse sentido, foi até mesmo um choque observar como a temática escura da obra contrasta com o belo mundo de Harry Potter, mesmo que Rowling ainda mostre aqui e acolá tendências narrativas e descritivas familiares aos leitores de seu trabalho anterior. Pura e simplesmente por causa disso, torna-se absurdo qualquer tipo de comparação entre os dois títulos, assim como completamente descabível achar que o romance "não é nenhum Harry Potter". Ora essa, Rowling jamais quis que ele fosse, e isso não podia ter ficado mais claro, embora ainda haja aqueles que teimem em achar que a mudança foi brusca demais. É impossível que um  escritor tente competir com seu magnum opus, o que torna a quebra de cenário da autora tão inteligente quanto inevitável, ainda que alguns corações moles sejam partidos no processo.

Iniciando sua trama a partir da morte repentina de Barry Fairbrother e desenhando a comunidade de Pagford lenta e cuidadosamente, Rowling constrói seu enredo completamente apoiada no desenvolvimento de suas personagens e o jogo de mesquinhez e imoralidade que se instala em cada um de seus focos narrativos a partir do evento. Sem possuir um protagonista ao certo e alterando os spotlights da obra frequentemente, a autora oferece diversos insights extremamente competentes sobre a vida em Pagford e os problemas que cada uma de suas personagens possui: e acredite, eles são muitos. Não há nenhuma pessoa genuinamente boa na cidade, tampouco uma figura heroica entre seus habitantes. Ao invés disso, a única personagem tratada com unanimidade é o falecido Barry, e sua morte representa exatamente a morte da ética e moral dentro da cidade, abrindo caminho para uma série de entreveiros entre esposas e maridos, pais e filhos ou até mesmo adolescentes entre si que têm consequências atrozes. Rowling parece se divertir com o efeito dominó criado a partir da remoção de sua peça, e com competência ímpar (além de várias pitadas de crueldade e cinismo) expõe as grotescas falhas de caráter e problemas de sua sociedade de modo escancarado, sem medir palavras, ações ou consequências em suas descrições. Sim, refiro-me a estupros, abusos, pedofilia e violência doméstica simplesmente crus, assim como leituras inteligentes das mentes das personagens que certamente hão de deixar o leitor preocupado com o que há de mais real (e podre) no ser humano. Os habitantes de Pagford são tão bem-construídos que poderiam ser qualquer pessoa com quem temos contato, fazendo da obra um pequeno estudo comportamental desmotivador em seu resultado: qualquer ser humano é bizarramente falho e egoísta, e é inacreditável que depositemos nossa confiança em outros seres da nossa espécie. Como Pagford é um lugar pequeno, também é natural que cada ação de suas personagens tenha consequências em diversos núcleos do romance, e Rowling trata isso com muita naturalidade ao mesmo tempo em que não se perde com seu vasto elenco de personagens, outro ponto de muito sucesso da autora, que já havia mostrado sua competência com elencos grandes durante a série Harry Potter.

Em uma nota mais relativa a questões de estilo, é interessante observar como descrições físicas parecem ser muito características da autora, que não deixa passar em branco nenhuma caracterização pessoal de suas inúmeras personagens. Além disso, diversos adendos colocados entre parênteses permeiam a obra para oferecer mais sobre o passado de suas personagens, que já tinham uma vida antes de a história começar e continuam a existir depois de seu término, diferentemente do que havia acontecido em Harry Potter: a personagem tinha seu passado fortemente estabelecido e o que importava era o presente e futuro dele e seus amigos. No processo, Rowling brilha ao construir personagens que pensam diferente entre si e se comunicam de modo único, usando gírias cockney e estuary, vícios e figuras de linguagem para manter a sórdida verossimilhança daquilo que tem em mãos. Não é de se espantar, então, que um grande arsenal de palavrões ilustre a obra, recurso altamente necessário para ilustrar em particular a juventude perdida de Pagford, que entre drogas, sexo e álcool tem problemas sérios com pais violentos, omissos ou viciados. As estruturas familiares de "The Casual Vacancy" são assustadoramente complexas e falhas ao ponto de realmente não acharmos escapatória para os jovens Andrew Price, Stuart Wall, Sukhvinder Jawanda e Krystal Weedon, mas mora aí talvez a maior habilidade de Rowling em sua profissão: sim, a autora entende o mundo adolescente e sua linguagem como poucos, transitando perfeitamente entre ele e seu elenco adulto sem qualquer empecilho. Pensamentos fugazes misturam-se a planos mirabolantes e revoltas internas de modo natural, e embora não haja ninguém digno de pena, a solidez dos jovens é tão grande que não há como ficar indiferente aos problemas que cada um deles tem em mãos.

Por fim, em uma abordagem mais simbólica da obra, merece ser ressaltado como a tecnologia é um fator crucial para impulsionar o enredo e fazer os problemas de Pagford saírem do controle. Sendo uma cidade pequena e quase provincial, seus habitantes não estão exatamente acostumados a muitos recursos, e quando os jovens decidem expor sua raiva familiar para o mundo, é na internet que eles encontram o meio ideal. Tal exposição pública de assuntos familiares, no entanto, causa muito rebuliço e indignação por toda a cidade, e o anonimato de seus realizadores só contribui para o surgimento de mais fofocas e especulações que logo fogem de controle, mostrando assim o corrompimento total de Pagford a partir de seus avanços. Igualmente importante é o ciclo que se inicia com a morte de Barry e termina ao final do livro com mais mártires da guerra invisível travada na cidade, fechando assim um verdadeiro período de aparentes mudanças que tendem a retornar ao velho modo de ser da cidade. 

Por todos esses motivos, "The Casual Vacancy" não é um livro recomendado a qualquer público e muito menos a leitores casuais, impacientes ou simplesmente puritanos. No entanto, o romance é sim a prova irrefutável de uma verdade que só tolos ou anti-modistas teimam a tentar contradizer: gosto pessoal a parte, J. K. Rowling é sim uma grande escritora.

Agora 'nuff said. Falei mais do que devia e menos do que gostaria, mas fico feliz por saber que o trabalho de Rowling ainda tem ótimos frutos a oferecer. Minha admiração por ela é absurdamente grande, e é com alívio que eu termino meu texto e reflexões iniciais sobre "The Casual Vacancy" amplamente satisfeito. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:
- The Casual Vacancy -
Thumbs Up: construção de personagens impecável; crueldade e honestidade na abordagem de seus conflitos; personagens falhas, maliciosas e complexas que amamos odiar; variações de recursos narrativos e linguajar invejáveis em seus diálogos; imprevisibilidade da trama; 
Thumbs Down: -----

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Escolhas e Ação

Yo! How's it going?

Como ninguém é de ferro, na postagem de hoje abro um pouco mais de espaço para divulgar meu trabalho como escritor a partir de uma entrevista que tive a oportunidade de realizar para a revista virtual "Escolhas e Ação", fonte de interessantíssimas matérias jornalísticas educacionais. Nela, conto um pouco dos fatores que me motivaram a começar a escrever e revelo um pouco dos meus futuros planos de carreira e obras em andamento.

Em seu decorrer, a mais recente edição de "Escolhas e Ação" ainda conta com ótimas matérias relativas a escolhas profissionais e o possível difundimento de redes sociais dentro do processo de educação, ferramenta potencialmente útil no estabelecimento de uma boa comunicação entre instituições/corpo docente e alunos.

Clique no link a seguir para conferir as matérias na íntegra: 


Agora 'nuff said. Amanhã é dia de uma postagem especialíssima para mim aqui no blog, então não deixem de seguir a página e voltar em breve! 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

The Manhattan Projects Vol. 1 - Science. Bad.

Autor: Jonathan Hickman
Artista: Nick Pitarra

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Yo! How's it going?

Hora de novidades boas aqui no blog Streampunk. Hoje, apresento a vocês um projeto bem recente do mercado de quadrinhos norte-americanos que ainda começa andar em passos largos: "The Manhattan Projects", escrito por Jonathan Hickman e desenhado por Nick Pitarra. A série começou a ser publicada neste exato semestre, tendo visto o lançamento de seu primeiro encadernado, "Science. Bad.", há apenas algumas semanas. Levando isso em conta, é com muito orgulho que tenho o privilégio de aguçar a curiosidade de vocês com relação a esse interessante título.

Plano de fundo: Robert Oppenheimer. Albert Einstein. Richard Feynman. Enrico Fermi. Harry Daghlian Jr. Franklin Roosevelt. Esses são apenas alguns dos nomes das brilhantes mentes escaladas por uma organização secreta norte-americana cujo intuito é não só decidir o rumo da Segunda Guerra Mundial como iniciar a conquista do espaço pelo homem: eles são o destino de uma nação, o grupo Manhattan Projects.

Papum: Buscando títulos novos para saciar minha curiosidade na mídia dos quadrinhos, acabei encontrando "The Manhattan Projects" pouco antes de seu lançamento e, ao ler uma breve sinopse de seu enredo, logo fui atraído pelo ar científico que a obra parecia conter. O resultado, porém, é bem controverso, gerado tanto por ótimas escolhas de construção de enredo quanto decisões muito amadoras de como abordar um piloto e apresentar uma trama. Nesse ponto, há bastante a ser dito sobre "MP".

Abrindo a história com o recrutamento de Robert/Joseph Oppenheimer por parte do Tenente Leslie Groves, "MP" começa a revelar seu elenco de personagens a partir de um olhar interno do projeto e seus ainda misteriosos objetivos. Desse modo, passamos a conhecer os outros membros do grupo ao mesmo tempo em que começamos a ter uma visão maior do que está em jogo, e certamente algumas caras selecionadas fazem subir nosso nível de interesse: Hickman trabalha com figuras científicas de grande relevância histórica em seu enredo, montando assim um elenco realmente vistoso para sua trama. Albert Einstein, talvez a presença mais popular dentro do arco, é apenas uma das famosas figuras que fazem parte do projeto, que ainda conta com o físico especializado em mecânica quântica Richard Feynman, os físicos considerados pais da bomba atômica Enrico Fermi e Robert Oppenheimer e outros grandes nomes esboçados pelo competente traço de Nick Pitarra. As semelhanças físicas entre tais figuras e suas representações em "The Manhattan Projects" são abordadas fielmente pelo artista, que adéqua ao seu traço a aparência das personagens que tem em mãos prontamente. Paralelamente, Hickman faz um bom trabalho ao amarrar suas personagens contemporâneas sob um mesmo teto para, uma vez estabelecida a motivação fictícia de cada uma, poder trabalhar com elas em prol de uma narrativa original. Nesse cenário, frases famosas de tais celebridades pontuam as transições entre os capítulos da obra e oferecem bons questionamentos ao leitor.


Não obstante, o que joga contra o primeiro volume de "The Manhattan Projects" é a falta de um objetivo mais certo por parte de sua trama, algo essencial a qualquer projeto piloto. Durante a condução da história, eventos estranhos começam a acontecer e a abordagem pessoal das interessantes personagens presentes acaba preterida por projeções bizarras de confrontos alienígenas, fruto da mais nova invenção de Einstein que certamente moverá a trama dali para frente. Assim sendo, fica a sensação de que não sabemos quase nada sobre a organização e seus membros quando eles já são inseridos em um embate espacial que pode ter uma grande escala, e a opção por formas de vidas espaciais em forma de monstros parece infantil e contrastante com o propósito do projeto, agora muito mais caricato do que sério. Nessa linha, porém, é bom ressaltar o uso de cores  vivas na obra através do colorista Jordie Bellaire, trabalho que tem seu ápice nos contrastes entre vermelho e azul sempre que tenta distinguir realidades ou personagens cujo passado começa a ser revelado (cores essas as principais da bandeira norte-americana, outra boa sacada tanto de Bellaire quanto de Hickman). O resultado final, então, é um título tão curioso quanto esquisito, de apreço difícil por leitores casuais ou um pouco mais sérios que buscam um título mais estruturado. Muito mais visual do que elaborado, "The Manhattan Projects" prefere seguir uma linha de ficção científica muito mais voltada a "Marte Ataca" do que algo como "Arquivo X", e embora a escolha seja divertida, talvez o elenco reunido por Hickman tenha muito mais potencial narrativo do que simplesmente guerrear com crustáceos e demônios espaciais.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!


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In a nutshell:

- The Manhattan Projects Vol. 1 - Science. Bad. -
Thumbs Up: presença de figuras históricas enriquece o enredo; adequação de personalidades reais ao traço de Pitarra feita de modo natural; interessante premissa de ficção científica que pode render muito material;
Thumbs Down: escolhas estranhas de rumos narrativos para um arco piloto; caracterização de alienígenas mais cômica do que sólida; falta de um propósito-base para mover a trama;  

domingo, 4 de novembro de 2012

Deus da Carnificina

Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly

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Yo! How's it going?

Hoje trago a vocês um pouco sobre uma película cujo apelo não é exatamente popular: "Deus da Carnificina", dirigida pelo consagrado Roman Polanski baseada na peça homônima escrita pela francesa Yasmina Reza, que também assina o roteiro ao lado do diretor. Indicado a várias premiações por conta de seu elenco, o cômico e curto longa é certamente uma boa pedida para aqueles que querem sair da mesmice e assistir um filme altamente pessoal e moralmente falho. Having said that, hora de começar.

Plano de fundo: Quando o pequeno Zachary Cowan atinge seu amigo Ethan Longstreet com um pedaço de pau durante uma discussão infantil, tanto Penelope (Jodie Foster) quanto Michael (John C. Reilly), pais da vítima, acham necessário ter uma conversa esclarecedora com Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), pais de Zachary. O que nenhum dos quatro sabe, contudo, é que o simples debate está prestes a ganhar proporções absurdas em uma verdadeira sessão psicológica que fará daquele talvez o pior dia de suas vidas.

Papum: Sendo fã do cineasta Polanski, foi com bastante curiosidade que decidi conferir "Deus da Carnificina", especialmente pelo elenco reunido na montagem do filme. Ao assistir o longa, então, a impressão que fica é justamente a que tinha inicialmente: Polanski entende as personagens que tem em mãos e o talento de seus artistas, agindo como intermediador o tempo inteiro para uma interação realmente interessante entre seus atores, cuja competência já foi provada há muito tempo. O resultado é um filme inteiramente humano de alto nível de trivialidade que não deve provocar gargalhadas, mas sim honestos e sinceros sorrisos com sua atmosfera de confinamento e os caminhos inusitados percorridos por suas personagens.

Trabalhando com um enredo puramente construído por diálogos que muitas vezes beiram o cinismo e a ironia, "Deus da Carnificina" posiciona suas personagens aparentemente civilizadas em uma discussão pré-pensada que nenhum deles gostaria de ter, mas um falso senso de moralismo os obriga a realizar. A tensão entre os pais existe e é quase palpável, fato que inevitavelmente acaba fazendo com que formalidades logo sejam deixadas de lado para que ataques de nervos e críticas incessantes sejam disparadas por todos os cantos do apartamento dos Longstreet, revelando assim grotescas falhas de caráter dos quatro adultos e fazendo cair as máscaras que cada um deles veste com muito esforço. É interessante observar como a tentativa formal de um acordo contrasta com o impulso das personagens e até mesmo como seus filhos haviam resolvido o conflito entre eles: sendo crianças, bastara Ethan chamar Zachary de dedo-duro para Zachary acertá-lo e assim terminar seu pequeno embate. No mundo adulto, as coisas não podem ser assim, e as regras de civilização constantemente impostas pela sociedade tem um peso sobre as personagens em cena, ainda que sejam estúpidas, como pensa o irônico Alan, interpretado pelo ótimo Christoph Waltz. 

Também merece destaque a construção de estereótipos realizada por Polanski a partir do nível social de suas personagens e como isso inevitavelmente faz parte do conflito abordado. Representando a classe alta e sempre bem-vestida, Alan é o executivo sempre atarefado cuja vida se atrela ao celular e seu trabalho, enquanto sua mulher Nancy é uma investidora igualmente poderosa que, como muitas mães, apenas finge se importar com questões familiares. Do outro lado, representado a classe média e trajando roupas mais casuais, o retrato montado repousa sobre Michael, trabalhador comum dono de um serviço de peças que finge ser hospitaleiro e sua esposa Penelope, escritora metódica e bipolar sempre on edge atrás de uma máscara de organização e sensibilidade. O resultado diverte e mostra com eficiência a estranha incompatibilidade entre os dois núcleos, que não mede palavras um contra o outro quando um pouco de bebida faz caírem as máscaras e aflorarem os pensamentos. Nessa nota, é interessante notar como a personagem de Waltz é a única que não altera seu comportamento depois de beber, mostrando que a arrogância e antipatia que tinha antes eram intrínsecas e não sentimentos suprimidos, fazendo dele talvez a personagem mais autêntica entre os quatro.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Deus da Carnificina -
Thumbs Up: grande elenco em ótima sintonia; confinamento de espaço muito adequado para a construção de tensão social; humor ácido e direto; destruição de máscaras divertida e inevitável;
Thumbs Down: mesmo alteradas, personagens se limitam no uso de um linguajar mais pesado, prendendo um pouco suas discussões; falta de elaboração na conclusão da trama;