segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Amanhecer - Parte 2

Direção: Bill Condon
Roteiro: Melissa Rosenberg, Stephanie Meyer
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Michael Sheen, Dakota Fanning

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Yo! How's it going?

Depois de alguns dias de inevitável ausência aqui no blog Streampunk, volto hoje a todo vapor com uma postagem um tanto quanto polêmica; afinal de contas, discorro sobre um dos filmes mais controversos e aguardados do ano: "Amanhecer - Parte 2", quinto e último longa da saga vampiresca baseada nos romances best-sellers da autora norte-americana Stephanie Meyer cuja jornada cinematográfica foi iniciada em 2008 com a adaptação de seu primeiro e famigerado título, "Crepúsculo".

Plano de fundo: Com o nascimento da filha de Edward (Robert Pattinson) e Bella (Kristen Stewart) completamente consumado, assim como a própria transformação de Bella em vampira, uma nova ameaça está prestes a se apresentar aos Cullen: a família Volturi, grupo de maior poder e respeito entre todas as comunidades de vampiros existentes, não está contente com o surgimento de uma criança imortal, e agora viaja até Forks para punir os Cullen por seu hediondo crime em um conflito que há de selar o destino de seus membros de uma vez por todas.

Papum: Antes de qualquer coisa, acho bom deixar bem claro aqui que tentei ser um espectador de mente bem aberta ao assistir a todos os filmes da franquia "Crepúsculo". Afinal de contas, como trabalho de pesquisa literária e análise de mercado, eu realmente havia realizado a leitura dos quatro romances de Stephanie Meyer e, gostando deles ou não, sempre achara necessária uma avaliação pessoal dos livros para julgar seus respectivos filmes tanto enquanto adaptações quanto películas de valor cinematográfico. Pois bem, é então impressionante e igualmente triste constatar que o último filme da popular saga criada por Meyer é tão vazio quanto seus antecessores e manuscritos originais, não acrescentando absolutamente nada em qualquer âmbito social ou artístico possível e levando-nos a uma conclusão vazia que, convenhamos, poderia ter sido feita ao final do primeiro ou segundo longa da franquia sem problema algum.

Partindo exatamente do ponto onde havíamos sido deixados em "Amanhecer - Parte 1" e abrindo sua narrativa com uma escolha até que interessante de Condon ao contrastar vermelho e branco em planos sutis que ilustram a transformação de Bella em vampira, "Parte 2" nem precisa se esforçar para logo nos lembrar o tormento que é estar no cinema diante da habitual e absurda falta de argumento narrativo e interpretação forçada de seu elenco desde o início da franquia. De cenas toscamente montadas de Bella e Edward caçando juntos até o bebê Renesmee gerado por computação gráfica, não há diálogo ou acontecimento algum de real importância por dezenas de minutos no filme, ainda recheado de caretas e tentativas de frases de efeito que soam fracas e nada convincentes. Entre orgasmos ao maior estilo "Oba-Oba" de "The Sims" (com direito até a tímidos fogos de artifício) e mais de Jacob (Taylor Lautner) se despindo,  somos constantemente lembrados do absurdo que foi dividir um livro tão pobre quanto "Amanhecer" em dois filmes. Completamente atordoados pela maior lacuna criativa vista em uma franquia popular até hoje, apenas permanecemos sentados além da metade do filme porque já pagamos nosso(s) ingresso(s) e, sejamos sinceros, no fundo torcemos por alguma redenção de última hora. Nesse tempo, muita espuma é gerada ao redor da trama central, que assim como em seu livro base, tem mais uma vez conflitos gerados por mal-entendidos e falhas de comunicação que poderiam ser facilmente resolvidos. Com um pouco de otimismo, porém, aguardamos ao menos algum momento climático que dê uma pequena pitada de satisfação ao término de uma saga que se esgota sem deixar saudades, mesmo que tal momento inexista nos livros de Meyer. E vejam só, isso quase acontece. Quase.

Em um golpe de indubitável inconsequência e incompetência de Bill Condon e toda a sua trupe de produção criativa, "Parte 2" esboça em seu ato final um possível e benvindo distanciamento de seu fraco romance que, apesar de não fazer muito sentido (o discurso aleatório de Aro (Michael Sheen) sobre tecnologia ilustra muito bem isso), ao menos satisfaz a maior parte do contrariado público presente com acontecimentos enfim marcantes que têm relevância no universo criado. Não afirmo aqui que mortes são essenciais a uma boa trama, mas certamente o mundo maravilhoso e idílico de Bella e Edward pode sim ser abalado com uma tragédia ou duas antes de sua conclusão, ao contrário do final completamente diplomático do romance "Amanhecer". Condon, muito "esperto", realiza nosso desejo parcialmente, logo em seguida sabotando a liberdade criativa que tomara e jogando ao fundo do poço qualquer coisa boa que fora construída ao longo dos cinco penosos filmes produzidos até então. Sim, senhoras e senhores, refiro-me a um final digno de redações primárias terminadas em sonhos capaz de arrancar suspiros de indignação dos mais brandos espectadores, o que não é fácil. Depois de tamanha avacalhação, sobram letreiros de pseudo-comoção com o término da saga que emocionam somente as mais ávidas "crepusculetes" país afora, que acredito e espero terem crescido o suficiente para ter um olhar um pouco mais crítico daquilo que assistiram. Gosto não se discute e defendo tal ponto de vista piamente, mas é impensável acreditar que pessoas possam defender uma série como essa sob pontos de vista um pouco mais técnicos: contando com uma trama forçada, fraquíssimo desenvolvimento de personagens, desfecho anti-climático, atuações ruins (com exceção de Michael Sheen, já que a muda Dakota Fanning não conta) e efeitos especiais dignos de piadas, "Parte 2" fica perto de alcançar a proeza de ser o pior filme na mais fraca franquia popular da história do cinema. E isso não é pouca coisa.

Agora 'nuff said. Sei que há fãs por aí doidas para me esbofetear agora, assim como criticar meu trabalho no único livro que escrevi até agora como forma de ataque pessoal. Querendo comentar neste blog ou em qualquer outra página, contudo, peço apenas que sejam pessoas educadas e mostrem argumentos interessantes para que boas discussões sejam geradas, o que é sempre enriquecedor. Insultos pessoais e frases como "se é tão ruim, por que não faz melhor?" ou "isso é inveja" não serão levadas a sério.

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In a nutshell:

- Amanhecer - Parte 2 -
Thumbs Up: abertura até que simpática; boa atuação de Michael Sheen;
Thumbs Down: pela primeira vez aqui no blog, abstenho-me de maiores comentários;

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

The Unwritten Vol. 3 - Dead Man's Knock

Autor: Mike Carey
Artista: Peter Gross

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Yo! How's it going?

Acumulando diversas postagens diferentes sobre filmes e livros na última semana, acabei demorando mais do que o esperado para trazer ao blog mais um pouco sobre uma das melhores séries em quadrinhos em andamento: "The Unwritten". Hoje trago mais detalhes sobre o terceiro arco da série, "Dead Man's Knock", então quem tiver interesse em saber mais sobre essa excelente coleção pode acessar meu primeiro texto sobre a série e se familiarizar com o enredo inteiro.

Plano de fundo: Seguindo os acontecimentos trágicos na penitenciária Donostia, Tom Taylor continua em fuga mesmo depois de seu salto temporal de três meses. Paralelamente, porém, o lançamento do décimo quarto volume da série de Tommy Taylor está prestes a ser realizado, e com ele estão os planos da Cabala de destruir a imagem de Tommy perante o mundo, eliminando assim seu poder por completo. O que a vil organização não conta, contudo, é que Wilson Taylor, criador da personagem, também se mexe nos bastidores e está pronto para contra-atacar de forma magnífica, avançando em seu caminho de fazer de seu filho Tom a verdadeira personagem Tommy Taylor e assim posicioná-lo no caminho que o fará mudar o mundo, mesmo que o preço para isso seja caríssimo para o escritor.

Papum: Reler cada volume de "The Unwritten" para abordá-los aqui no blog não é obrigação alguma, mas sim um verdadeiro prazer. Mesmo já tendo conhecimento dos divertidos interessantes trilhados pelo enredo até agora, a releitura do título oferece insights curiosos e valiosos que ajudam em um compreendimento mais amplo da obra e, consequentemente, em um melhor proveito de sua leitura. E o que não falta ao arco "Dead Man's Knock" é justamente conteúdo e criatividade.

Começando de onde "Inside Man" havia nos deixado, Mike Carey abre "Dead Man's Knock" com o antecipado lançamento do novo livro de Tommy Taylor e eleva o jogo de sua obra ao flertar sobre as consequências do ato nos lados opostos de sua trama: previamente avisado sobre os planos da Cabala, o leitor acha que sabe o que está por trás do evento, e é aí que Carey mostra competência extrema ao adicionar um plot twist verdadeiramente eficaz e bem construído que tem consequências divertidas para nós e resultados importantíssimos dentro de sua história. Diversas coisas estão em jogo, e ao invés de a imagem de Tommy Taylor perder força com a farsa criada pela Cabala, ela é realçada através do plano do escritor Wilson Taylor, fazendo do trabalho de Carey algo realmente célebre: no auge de sua metalinguagem, Tommy Taylor torna-se uma figura messiânica dentro de seu enredo, e o ponto é crucial para entendermos o esquema que Carey traçara desde o começo de "The Unwritten". Ora essa, é na essência e poder das histórias que a obra é construída, algo que a Cabala usa há muitos séculos para descrever exatamente o caminho que a humanidade deve traçar a seu bel-prazer. Tommy Taylor é a arma fictícia criada por Wilson para combater tal inimigo, cujos membros agora se denominam "Unwritten". Nessa nota, é interessante saber que a tradução do título em português será "O Inescrito" quando deveria ser "Os Inescritos", já que adjetivos substantivados não recebem uma forma no plural no inglês, mas sim no português (por exemplo, "The Walking Dead", traduzido para "Os Mortos Vivos").

Sob um olhar estético de sua abordagem, "Dead Man's Knock" também é um marco para a série por mais uma vez ambientar perfeitamente suas personagens dentro do contexto histórico-narrativo onde estão inseridas. Se em "Inside Man" os quadros relativos à Segunda Guerra Mundial eram impressionantes, aqui Peter Gross faz bonito ao transportar Lizzie Hexam ao mundo dickensoniano de "Our Mutual Friend", construindo com competência o cenário necessário para seu foco com cores escuras e muitas hachuras. Igualmente feliz é a escolha de Carey de finalmente revelar a verdade sobre Lizzie ao construir um divertido capítulo "Pick-A-Story" que reflete muito bem a confusão de imagens da personagem ao mesmo tempo em que leva ao leitor um ar de inovação visto com raridade no mundo dos quadrinhos de hoje, que talvez havia visto tal inventividade bem empregada pela última vez no incrível Promethea, de Alan Moore. Por tudo isso, então, "Dead Man's Knock" é o melhor arco dos três já descritos aqui, e tenho fé que alguém da editora Panini possa acompanhar este blog para perceber o possível equívoco que eles estão prestes a realizar na tradução de seu título. Isso certamente seria bem legal.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- The Unwritten Vol. 3 - Dead Man's Knock -
Thumbs Up: ambientação perfeita para o andar da história; revelações cataclísmicas dentro do arco; desenvolvimento de personagens criativo e coeso; arte constantemente ascendente de Peter Gross; mais trechos dos livros de Tommy intercalados com os predicamentos de Tom;
Thumbs Down: -----

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

The Casual Vacancy

Autora: J. K. Rowling
Ano de publicação: 2012


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Yo! How's it going?


É com grande prazer e uma satisfatória pitada de exclusividade que abordo em minha postagem de hoje o novo livro da escritora mais popular do século XXI: "The Casual Vacancy", de J.K. Rowling (que como qualquer mortal sabe, é a autora por trás da saga de Harry Potter). Mesmo com o lançamento da obra no Brasil marcado para o dia 12 de dezembro sob o altamente debatível título de "Morte Súbita", acho legal poder antecipar um pouco do que se passa nesse projeto que, como sua própria campanha de marketing prega, é um grande romance para uma cidade pequena. E como é.

Plano de fundo: Quando Barry Fairbrother padece vítima de um inesperado aneurisma cerebral, não é só sua tragédia que ocupa as mentes dos habitantes da pequena cidade de Pagford. Na verdade, com o posto de Barry no Conselho da Cidade subitamente vago, tem início uma impiedosa disputa de interesses entre a cúpula administrativa de Pagford cujas proporções se expandem por todos os cantos do lugar, trazendo à tona uma verdade irrefutável: Pagford é uma cidade em guerra não só política, mas altamente moral em cada um de seus núcleos familiares e sociais.

Papum: Foi com muita ansiedade e apreensão que adquiri "The Casual Vacancy", irremediavelmente curioso sobre a maneira com que J. K. Rowling daria sequência em sua carreira em um universo que não envolvesse a familiar escola de magia e bruxaria de Hogwarts ou que não tivesse bruxos mirins como protagonistas de sua história. Nesse sentido, foi até mesmo um choque observar como a temática escura da obra contrasta com o belo mundo de Harry Potter, mesmo que Rowling ainda mostre aqui e acolá tendências narrativas e descritivas familiares aos leitores de seu trabalho anterior. Pura e simplesmente por causa disso, torna-se absurdo qualquer tipo de comparação entre os dois títulos, assim como completamente descabível achar que o romance "não é nenhum Harry Potter". Ora essa, Rowling jamais quis que ele fosse, e isso não podia ter ficado mais claro, embora ainda haja aqueles que teimem em achar que a mudança foi brusca demais. É impossível que um  escritor tente competir com seu magnum opus, o que torna a quebra de cenário da autora tão inteligente quanto inevitável, ainda que alguns corações moles sejam partidos no processo.

Iniciando sua trama a partir da morte repentina de Barry Fairbrother e desenhando a comunidade de Pagford lenta e cuidadosamente, Rowling constrói seu enredo completamente apoiada no desenvolvimento de suas personagens e o jogo de mesquinhez e imoralidade que se instala em cada um de seus focos narrativos a partir do evento. Sem possuir um protagonista ao certo e alterando os spotlights da obra frequentemente, a autora oferece diversos insights extremamente competentes sobre a vida em Pagford e os problemas que cada uma de suas personagens possui: e acredite, eles são muitos. Não há nenhuma pessoa genuinamente boa na cidade, tampouco uma figura heroica entre seus habitantes. Ao invés disso, a única personagem tratada com unanimidade é o falecido Barry, e sua morte representa exatamente a morte da ética e moral dentro da cidade, abrindo caminho para uma série de entreveiros entre esposas e maridos, pais e filhos ou até mesmo adolescentes entre si que têm consequências atrozes. Rowling parece se divertir com o efeito dominó criado a partir da remoção de sua peça, e com competência ímpar (além de várias pitadas de crueldade e cinismo) expõe as grotescas falhas de caráter e problemas de sua sociedade de modo escancarado, sem medir palavras, ações ou consequências em suas descrições. Sim, refiro-me a estupros, abusos, pedofilia e violência doméstica simplesmente crus, assim como leituras inteligentes das mentes das personagens que certamente hão de deixar o leitor preocupado com o que há de mais real (e podre) no ser humano. Os habitantes de Pagford são tão bem-construídos que poderiam ser qualquer pessoa com quem temos contato, fazendo da obra um pequeno estudo comportamental desmotivador em seu resultado: qualquer ser humano é bizarramente falho e egoísta, e é inacreditável que depositemos nossa confiança em outros seres da nossa espécie. Como Pagford é um lugar pequeno, também é natural que cada ação de suas personagens tenha consequências em diversos núcleos do romance, e Rowling trata isso com muita naturalidade ao mesmo tempo em que não se perde com seu vasto elenco de personagens, outro ponto de muito sucesso da autora, que já havia mostrado sua competência com elencos grandes durante a série Harry Potter.

Em uma nota mais relativa a questões de estilo, é interessante observar como descrições físicas parecem ser muito características da autora, que não deixa passar em branco nenhuma caracterização pessoal de suas inúmeras personagens. Além disso, diversos adendos colocados entre parênteses permeiam a obra para oferecer mais sobre o passado de suas personagens, que já tinham uma vida antes de a história começar e continuam a existir depois de seu término, diferentemente do que havia acontecido em Harry Potter: a personagem tinha seu passado fortemente estabelecido e o que importava era o presente e futuro dele e seus amigos. No processo, Rowling brilha ao construir personagens que pensam diferente entre si e se comunicam de modo único, usando gírias cockney e estuary, vícios e figuras de linguagem para manter a sórdida verossimilhança daquilo que tem em mãos. Não é de se espantar, então, que um grande arsenal de palavrões ilustre a obra, recurso altamente necessário para ilustrar em particular a juventude perdida de Pagford, que entre drogas, sexo e álcool tem problemas sérios com pais violentos, omissos ou viciados. As estruturas familiares de "The Casual Vacancy" são assustadoramente complexas e falhas ao ponto de realmente não acharmos escapatória para os jovens Andrew Price, Stuart Wall, Sukhvinder Jawanda e Krystal Weedon, mas mora aí talvez a maior habilidade de Rowling em sua profissão: sim, a autora entende o mundo adolescente e sua linguagem como poucos, transitando perfeitamente entre ele e seu elenco adulto sem qualquer empecilho. Pensamentos fugazes misturam-se a planos mirabolantes e revoltas internas de modo natural, e embora não haja ninguém digno de pena, a solidez dos jovens é tão grande que não há como ficar indiferente aos problemas que cada um deles tem em mãos.

Por fim, em uma abordagem mais simbólica da obra, merece ser ressaltado como a tecnologia é um fator crucial para impulsionar o enredo e fazer os problemas de Pagford saírem do controle. Sendo uma cidade pequena e quase provincial, seus habitantes não estão exatamente acostumados a muitos recursos, e quando os jovens decidem expor sua raiva familiar para o mundo, é na internet que eles encontram o meio ideal. Tal exposição pública de assuntos familiares, no entanto, causa muito rebuliço e indignação por toda a cidade, e o anonimato de seus realizadores só contribui para o surgimento de mais fofocas e especulações que logo fogem de controle, mostrando assim o corrompimento total de Pagford a partir de seus avanços. Igualmente importante é o ciclo que se inicia com a morte de Barry e termina ao final do livro com mais mártires da guerra invisível travada na cidade, fechando assim um verdadeiro período de aparentes mudanças que tendem a retornar ao velho modo de ser da cidade. 

Por todos esses motivos, "The Casual Vacancy" não é um livro recomendado a qualquer público e muito menos a leitores casuais, impacientes ou simplesmente puritanos. No entanto, o romance é sim a prova irrefutável de uma verdade que só tolos ou anti-modistas teimam a tentar contradizer: gosto pessoal a parte, J. K. Rowling é sim uma grande escritora.

Agora 'nuff said. Falei mais do que devia e menos do que gostaria, mas fico feliz por saber que o trabalho de Rowling ainda tem ótimos frutos a oferecer. Minha admiração por ela é absurdamente grande, e é com alívio que eu termino meu texto e reflexões iniciais sobre "The Casual Vacancy" amplamente satisfeito. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:
- The Casual Vacancy -
Thumbs Up: construção de personagens impecável; crueldade e honestidade na abordagem de seus conflitos; personagens falhas, maliciosas e complexas que amamos odiar; variações de recursos narrativos e linguajar invejáveis em seus diálogos; imprevisibilidade da trama; 
Thumbs Down: -----

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Escolhas e Ação

Yo! How's it going?

Como ninguém é de ferro, na postagem de hoje abro um pouco mais de espaço para divulgar meu trabalho como escritor a partir de uma entrevista que tive a oportunidade de realizar para a revista virtual "Escolhas e Ação", fonte de interessantíssimas matérias jornalísticas educacionais. Nela, conto um pouco dos fatores que me motivaram a começar a escrever e revelo um pouco dos meus futuros planos de carreira e obras em andamento.

Em seu decorrer, a mais recente edição de "Escolhas e Ação" ainda conta com ótimas matérias relativas a escolhas profissionais e o possível difundimento de redes sociais dentro do processo de educação, ferramenta potencialmente útil no estabelecimento de uma boa comunicação entre instituições/corpo docente e alunos.

Clique no link a seguir para conferir as matérias na íntegra: 


Agora 'nuff said. Amanhã é dia de uma postagem especialíssima para mim aqui no blog, então não deixem de seguir a página e voltar em breve! 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

The Manhattan Projects Vol. 1 - Science. Bad.

Autor: Jonathan Hickman
Artista: Nick Pitarra

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Yo! How's it going?

Hora de novidades boas aqui no blog Streampunk. Hoje, apresento a vocês um projeto bem recente do mercado de quadrinhos norte-americanos que ainda começa andar em passos largos: "The Manhattan Projects", escrito por Jonathan Hickman e desenhado por Nick Pitarra. A série começou a ser publicada neste exato semestre, tendo visto o lançamento de seu primeiro encadernado, "Science. Bad.", há apenas algumas semanas. Levando isso em conta, é com muito orgulho que tenho o privilégio de aguçar a curiosidade de vocês com relação a esse interessante título.

Plano de fundo: Robert Oppenheimer. Albert Einstein. Richard Feynman. Enrico Fermi. Harry Daghlian Jr. Franklin Roosevelt. Esses são apenas alguns dos nomes das brilhantes mentes escaladas por uma organização secreta norte-americana cujo intuito é não só decidir o rumo da Segunda Guerra Mundial como iniciar a conquista do espaço pelo homem: eles são o destino de uma nação, o grupo Manhattan Projects.

Papum: Buscando títulos novos para saciar minha curiosidade na mídia dos quadrinhos, acabei encontrando "The Manhattan Projects" pouco antes de seu lançamento e, ao ler uma breve sinopse de seu enredo, logo fui atraído pelo ar científico que a obra parecia conter. O resultado, porém, é bem controverso, gerado tanto por ótimas escolhas de construção de enredo quanto decisões muito amadoras de como abordar um piloto e apresentar uma trama. Nesse ponto, há bastante a ser dito sobre "MP".

Abrindo a história com o recrutamento de Robert/Joseph Oppenheimer por parte do Tenente Leslie Groves, "MP" começa a revelar seu elenco de personagens a partir de um olhar interno do projeto e seus ainda misteriosos objetivos. Desse modo, passamos a conhecer os outros membros do grupo ao mesmo tempo em que começamos a ter uma visão maior do que está em jogo, e certamente algumas caras selecionadas fazem subir nosso nível de interesse: Hickman trabalha com figuras científicas de grande relevância histórica em seu enredo, montando assim um elenco realmente vistoso para sua trama. Albert Einstein, talvez a presença mais popular dentro do arco, é apenas uma das famosas figuras que fazem parte do projeto, que ainda conta com o físico especializado em mecânica quântica Richard Feynman, os físicos considerados pais da bomba atômica Enrico Fermi e Robert Oppenheimer e outros grandes nomes esboçados pelo competente traço de Nick Pitarra. As semelhanças físicas entre tais figuras e suas representações em "The Manhattan Projects" são abordadas fielmente pelo artista, que adéqua ao seu traço a aparência das personagens que tem em mãos prontamente. Paralelamente, Hickman faz um bom trabalho ao amarrar suas personagens contemporâneas sob um mesmo teto para, uma vez estabelecida a motivação fictícia de cada uma, poder trabalhar com elas em prol de uma narrativa original. Nesse cenário, frases famosas de tais celebridades pontuam as transições entre os capítulos da obra e oferecem bons questionamentos ao leitor.


Não obstante, o que joga contra o primeiro volume de "The Manhattan Projects" é a falta de um objetivo mais certo por parte de sua trama, algo essencial a qualquer projeto piloto. Durante a condução da história, eventos estranhos começam a acontecer e a abordagem pessoal das interessantes personagens presentes acaba preterida por projeções bizarras de confrontos alienígenas, fruto da mais nova invenção de Einstein que certamente moverá a trama dali para frente. Assim sendo, fica a sensação de que não sabemos quase nada sobre a organização e seus membros quando eles já são inseridos em um embate espacial que pode ter uma grande escala, e a opção por formas de vidas espaciais em forma de monstros parece infantil e contrastante com o propósito do projeto, agora muito mais caricato do que sério. Nessa linha, porém, é bom ressaltar o uso de cores  vivas na obra através do colorista Jordie Bellaire, trabalho que tem seu ápice nos contrastes entre vermelho e azul sempre que tenta distinguir realidades ou personagens cujo passado começa a ser revelado (cores essas as principais da bandeira norte-americana, outra boa sacada tanto de Bellaire quanto de Hickman). O resultado final, então, é um título tão curioso quanto esquisito, de apreço difícil por leitores casuais ou um pouco mais sérios que buscam um título mais estruturado. Muito mais visual do que elaborado, "The Manhattan Projects" prefere seguir uma linha de ficção científica muito mais voltada a "Marte Ataca" do que algo como "Arquivo X", e embora a escolha seja divertida, talvez o elenco reunido por Hickman tenha muito mais potencial narrativo do que simplesmente guerrear com crustáceos e demônios espaciais.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!


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In a nutshell:

- The Manhattan Projects Vol. 1 - Science. Bad. -
Thumbs Up: presença de figuras históricas enriquece o enredo; adequação de personalidades reais ao traço de Pitarra feita de modo natural; interessante premissa de ficção científica que pode render muito material;
Thumbs Down: escolhas estranhas de rumos narrativos para um arco piloto; caracterização de alienígenas mais cômica do que sólida; falta de um propósito-base para mover a trama;  

domingo, 4 de novembro de 2012

Deus da Carnificina

Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly

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Yo! How's it going?

Hoje trago a vocês um pouco sobre uma película cujo apelo não é exatamente popular: "Deus da Carnificina", dirigida pelo consagrado Roman Polanski baseada na peça homônima escrita pela francesa Yasmina Reza, que também assina o roteiro ao lado do diretor. Indicado a várias premiações por conta de seu elenco, o cômico e curto longa é certamente uma boa pedida para aqueles que querem sair da mesmice e assistir um filme altamente pessoal e moralmente falho. Having said that, hora de começar.

Plano de fundo: Quando o pequeno Zachary Cowan atinge seu amigo Ethan Longstreet com um pedaço de pau durante uma discussão infantil, tanto Penelope (Jodie Foster) quanto Michael (John C. Reilly), pais da vítima, acham necessário ter uma conversa esclarecedora com Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), pais de Zachary. O que nenhum dos quatro sabe, contudo, é que o simples debate está prestes a ganhar proporções absurdas em uma verdadeira sessão psicológica que fará daquele talvez o pior dia de suas vidas.

Papum: Sendo fã do cineasta Polanski, foi com bastante curiosidade que decidi conferir "Deus da Carnificina", especialmente pelo elenco reunido na montagem do filme. Ao assistir o longa, então, a impressão que fica é justamente a que tinha inicialmente: Polanski entende as personagens que tem em mãos e o talento de seus artistas, agindo como intermediador o tempo inteiro para uma interação realmente interessante entre seus atores, cuja competência já foi provada há muito tempo. O resultado é um filme inteiramente humano de alto nível de trivialidade que não deve provocar gargalhadas, mas sim honestos e sinceros sorrisos com sua atmosfera de confinamento e os caminhos inusitados percorridos por suas personagens.

Trabalhando com um enredo puramente construído por diálogos que muitas vezes beiram o cinismo e a ironia, "Deus da Carnificina" posiciona suas personagens aparentemente civilizadas em uma discussão pré-pensada que nenhum deles gostaria de ter, mas um falso senso de moralismo os obriga a realizar. A tensão entre os pais existe e é quase palpável, fato que inevitavelmente acaba fazendo com que formalidades logo sejam deixadas de lado para que ataques de nervos e críticas incessantes sejam disparadas por todos os cantos do apartamento dos Longstreet, revelando assim grotescas falhas de caráter dos quatro adultos e fazendo cair as máscaras que cada um deles veste com muito esforço. É interessante observar como a tentativa formal de um acordo contrasta com o impulso das personagens e até mesmo como seus filhos haviam resolvido o conflito entre eles: sendo crianças, bastara Ethan chamar Zachary de dedo-duro para Zachary acertá-lo e assim terminar seu pequeno embate. No mundo adulto, as coisas não podem ser assim, e as regras de civilização constantemente impostas pela sociedade tem um peso sobre as personagens em cena, ainda que sejam estúpidas, como pensa o irônico Alan, interpretado pelo ótimo Christoph Waltz. 

Também merece destaque a construção de estereótipos realizada por Polanski a partir do nível social de suas personagens e como isso inevitavelmente faz parte do conflito abordado. Representando a classe alta e sempre bem-vestida, Alan é o executivo sempre atarefado cuja vida se atrela ao celular e seu trabalho, enquanto sua mulher Nancy é uma investidora igualmente poderosa que, como muitas mães, apenas finge se importar com questões familiares. Do outro lado, representado a classe média e trajando roupas mais casuais, o retrato montado repousa sobre Michael, trabalhador comum dono de um serviço de peças que finge ser hospitaleiro e sua esposa Penelope, escritora metódica e bipolar sempre on edge atrás de uma máscara de organização e sensibilidade. O resultado diverte e mostra com eficiência a estranha incompatibilidade entre os dois núcleos, que não mede palavras um contra o outro quando um pouco de bebida faz caírem as máscaras e aflorarem os pensamentos. Nessa nota, é interessante notar como a personagem de Waltz é a única que não altera seu comportamento depois de beber, mostrando que a arrogância e antipatia que tinha antes eram intrínsecas e não sentimentos suprimidos, fazendo dele talvez a personagem mais autêntica entre os quatro.

Agora 'nuff said. Continuem a seguir o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Deus da Carnificina -
Thumbs Up: grande elenco em ótima sintonia; confinamento de espaço muito adequado para a construção de tensão social; humor ácido e direto; destruição de máscaras divertida e inevitável;
Thumbs Down: mesmo alteradas, personagens se limitam no uso de um linguajar mais pesado, prendendo um pouco suas discussões; falta de elaboração na conclusão da trama;

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Where the Wild Things Are

Autor e artista: Maurice Sendak
Ano de publicação: 1963

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Yo! How's it going?

Nesta primeira postagem de novembro, trago a vocês o livro ilustrado "Where the Wild Things Are", publicado por aqui sob o nome "Onde Vivem os Monstros", obra clássica da literatura infantil dona de muitas premiações e até mesmo adaptada ao cinema por Spike Jonze em 2009. Let the wild rumpus start!

Plano de fundo: Trajando sua fantasia de lobo, Max apronta travessuras em sua casa e é castigado por sua mãe, tendo que voltar a seu quarto sem poder jantar. Dentro das paredes de seu pequeno território, porém, árvores crescem e um mundo selvagem se revela para ele, conduzindo-o por uma jornada até uma misteriosa floresta habitada por criaturas estranhas e peludas que nele encontram a figura de um rei.

Papum: Assim como o que ocorreu em "The Houdini Box", ler uma obra infantil como "Where the Wild Things Are" é uma doce viagem de volta à infância e toda a inocência que o período remete. Aventuras e morais são construídas de modo tanto a cativar quanto ensinar os leitores sobre o mundo que os cerca e o que eles sabem sobre si mesmos, reflexão altamente produtiva que garante um crescimento atento e valoroso, se bem interpretado por adultos. Pois bem, é justamente nisso que "Where the Wild Things Are" se apoia e se engradece.

Partindo de uma narrativa simples de pouquíssimas frases, e usando ainda algumas repetições na descrição de trejeitos de suas personagens, Sendak desenvolve seu elenco de modo rápido para que seu protagonista logo seja inserida no contexto fantástico que o espera. Qualquer criança pode se relacionar com a figura de Max e suas malcriações, criando assim uma sólida conexão com leitores mirins que, embora o próprio Sendak negasse ao  dizer que não escrevia para crianças porque não acreditava em infância, acaba predominando e atraindo o público infantil como grande alvo de seu trabalho.

Quando Max é castigado e assim enviado ao lugar onde monstros predominam, entra em cena o verdadeiro valor da obra e seus planos mais interessantes. Turrão e travesso, o menino inverte o jogo contra as criaturas que o cercam e acaba por domá-las, tornando-se assim o rei para poder fazer as malcriações que quiser. Nesse sentido, os monstros refletem sua personalidade e realmente causam barulho, divertindo-se como querem sem limite algum de tempo ou situação. O mais interessante, contudo, é observar como Max não só sente falta de sua mãe como assume sua figura perante os monstros, enviando-os para cama sem direito algum a jantar. Assim como ele reagira a sua mãe, os monstros reagem a sua ordem, já que nada mais são do que suas próprias facetas, e logo Max se vê retornando ao aconchego de sua casa e a presença de sua mãe, que contrariando o que dissera, deixara sim alguma coisa para Max em seu quarto. O crescimento da personagem é notável e o modo como passa a compreender suas próprias ações é concluído de modo direto e preciso, fazendo-o entender as consequências de seus atos assim como o amor incondicional provido por sua mãe, que mesmo nos tempos mais difíceis do menino, continua a amá-lo do mesmo jeito.

Em uma nota mais artística, merece comentários a arte bonita e contornos simples de Sendak  nas visualizações da história por ele desenvolvida. É certamente intrigante ver como seu trabalho influenciou Brian Selznick e uma série de outros autores infantis pelas décadas que se seguiram, e o jogo de cores por ele abordado é não só vívido quanto sutilmente adequado  às projeções por ele abordadas. Assim como no trabalho de Selznick, Sendak ainda faz muito uso de hachuras na construção de seus cenários, e agora coloridas, uma nova camada de profundidade é adicionada, sendo capaz de prender pequenos leitores de modo eficaz e consistente. Nesse sentido, então, "Where the Wild Things Are" é um livro recomendadíssimo para crianças e pais alike, abrindo espaço para atividades criativas e discussões conceituais altamente produtivas nos processos de educação e crescimento tanto parental quanto escolar de qualquer um que entenda a bonita mensagem que o livro quer mostrar.

Agora 'nuff said. Continuem a acompanhar o blog e até a próxima!

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In a nutshell:

- Where the Wild Things Are -
Thumbs Up: arte e enredo de Sendak; espaço para reflexões e trabalhos com valores importantes na educação infantil; conexão entre leitores e personagens; boa sonoridade e escolha de palavras na construção de seus planos;
Thumbs Down: -----