domingo, 21 de maio de 2017

Rei Arthur: A Lenda da Espada

Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, Joby Harold
Elenco: Charlie Hunnam, Jude Law, Eric Bana, Djimon Hounsou, Àstrid Bergès-Frisbey

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Yo! How's it going?

Embora tenha deixado de abastecer este blog há bastante tempo, por vezes encontro assuntos que simplesmente não posso deixar passar, como é o caso do tópico desta postagem. Levando em conta os anos de pesquisa, viagens e estudos sobre literatura e história arturiana e celta para a produção do meu novo livro, Alec Dini e o Vórtice do Tempo, senti que deveria retornar à página Streampunk para comentar o filme Rei Arthur: A Lenda da Espada.

Plano de fundo: Quando o rei Uther Pendragon (Eric Bana) usa a espada Excalibur para derrotar o feiticeiro Mordred, todos pensam que a Inglaterra enfim terá seu período de paz. No entanto, o irmão mais novo do rei, Vortigern (Jude Law), tem seus próprios planos para o futuro do reino e, em um ato de traição empoderado por magia negra, livra-se de Uther e sua esposa. O que Vortigern não consegue, contudo, é desfazer-se do pequeno Arthur (Charlie Hunnam), filho de Uther e único capaz de embanhar Excalibur para ameaçar seu longo reinado.

Papum: Tentarei ser o mais breve possível nesta resenha, mas confesso encontrar muita dificuldade em começar a teia de comentários que tenho para o filme. Primeira e sumariamente, então, abordarei o trabalho do diretor e roteirista britânico Guy Ritchie naquele que considero ciclo mitológico mais imporante para mim.

Dono de um currículo de prestígio popular pontuado por filmes como Snatch e Sherlock Holmes, Ritchie foi contatado pelos executivos da Warner Bros. para recriar e iniciar o que deveria ser uma franquia vindoura de filmes (especula-se seis) baseados nas inúmeras lendas e mitos de Artur e seus cavaleiros. A confiança no diretor era tamanha, na verdade, que Ritchie contou com a quantia colossal de $175 milhões para o orçamento do filme. O resultado, porém, soa como um verdadeiro insulto àqueles que gastaram mais do que algumas horas pesquisando nomes e trechos do acervo arturiano no Wikipedia; assim como àqueles acostumados ao padrão de qualidade arturiana de As Brumas de Avalon ou O Rei do Inverno, escritos por Marion Zimmer Bradley e Bernard Cornwell, respectivamente.

Adotando jogos de câmeras frenéticos aliados a uma tempestade de efeitos visuais, Ritchie deixa claro desde o início que estamos prestes a ver uma abordagem moderna disposta a transformar a lenda em um espetáculo de ação. Isso não seria problema algum, vejam bem, se o diretor não se desfizesse dos contextos cruciais que tornam Artur uma das histórias mais queridas e influentes do mundo ocidental. 

Esqueça qualquer origem celto-romana, galesa ou até mesmo cristã das primeiras menções literárias a Artur: estamos aqui diante de uma trama que, a não ser por algumas construções romanas em Londinium, não tem qualquer preocupação histórica ou simbólica para seu mundo, aproveitando-se de um vilão conhecido dos anais da história britânica como o rei Vortigern (um dos maiores responsáveis pela invasão anglo-saxônica na Grã-Bretanha) somente para torná-lo uma figura caricata cujos rituais mágicos lhe conferem poderes dignos de jogos de videogame. Ansioso por deixar sua própria assinatura na lenda, então, Ritchie faz o que há de pior em qualquer abordagem arturiana no cenário contemporâneo: em suas mãos, nomes como Mordred, Tristan, Bedivere e Percival viram apenas commodities usados sem qualquer aprofundamento ou personalidade desenvolvidos, como se sua presença pudesse agradar aos fãs da mesma forma como a participação especial do amigo do diretor, David Beckham. O resultado é uma horda de personagens vazios, artificialmente reunidos também pela iniciativa hollywoodiana de inclusão: há um chinês, um negro, um marroquino e uma mulher, o que seria ótimo caso não fossem todos marionetes tão desinteressantes quanto os amigos de Artur, cujos apelidos são a única coisa digna de menção, subvertendo os títulos de nobreza carregados pelos Cavaleiros da Távola Redonda.

Agora que chegamos a esse ponto, podemos destacar também a tentativa interessante de tornar Artur o herói do povo. Criado em um bordel, o jovem é um produto das ruas, o que ajuda a moldar uma personalidade marrenta que, apesar de tudo, guarda um grande sentido de justiça dentro de si. O grande problema, no entanto, é a contradição que isso causa: apesar de sua criação ligada ao proletariado de Londinium (maior razão para o personagem entender o sofrimento do homem comum), Artur só é capaz de embanhar Excalibur graças ao lado nobre de seu sangue, o que coloca em cheque o conflito inteiro. O herói do povo, como Ritchie tanto tenta demonstrar, não teria condições de ser herói algum sem sua linhagem, que é o verdadeiro elemento por trás do uso cartunesco de uma espada capaz de desacelerar o tempo, aumentar sua força física e tornar Charlie Hunnam um boneco medonho feito de computação gráfica enquanto as câmeras de Ritchie não sossegam. A estratégia deve funcionar com o público mais jovem, mas é bizarra para aqueles que acompanharam batalhas épicas medievais como a Batalha dos Bastardos em Game of Thrones. Pior do que isso, porém, é que ao fazer de Excalibur a arma suprema, Ritchie tira das mãos e da criação de Artur o verdadeiro motivo por trás de seu triunfo. 

Adoraria discutir a fundo diversos outros elementos do filme, mas ao final do longa, a impressão que tenho é de que Rei Arthur: A Lenda da Espada não é um filme para estudiosos ou entusiastas de mitologia ou história arturiana. Da mesma forma, o filme não deve agradar aqueles que gostam de realismo mágico ou simbolismo em histórias medievais, como aqueles propostos por Excalibur, dirigido por John Boorman em 1981. Em seu cerne, o longa de Ritchie pode agradar o espectador casual que busca ação, pancadaria, muitos efeitos visuais ou temáticas batidas de jogos de RPG; nenhuma delas capaz de tirar nos dados os números necessários para que a Warner cobrisse pelo menos metade dos gastos que teve com o filme até agora. A franquia de Ricthie, pelo que parece, não tem um centésimo do vigor que ajudou a preservar a imagem do rei Artur nos últimos quinze séculos do imaginário europeu. 

  
In a nutshell:

- Rei Arthur: A Lenda da Espada -
Thumbs Up: bela trilha sonora; paisagens incríveis da Grã-Bretanha, em especial do meu amado País de Gales; sequências de ação tiradas de jogos de videogames ou desenhos japoneses;
Thumbs Down: personagens rasos; enredo sem sentido; figurinos anacrônicos; excesso de efeitos visuais, na maioria das vezes de qualidade duvidosa; falta de simbolismo ou historicidade no conflito; sentimentalismo barato; sequências de ação tiradas de jogos de videogames ou desenhos japoneses;  

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